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[News]Álbum That bossa note, de Gastão Villeroy

Álbum That bossa note, de Gastão Villeroy

 


Ouça aqui “That bossa note”:

https://distrokid.com/hyperfollow/gastovilleroy/that-bossa-note

 

Gaúcho radicado há 30 anos no Rio de Janeiro, Gastão Villeroy se formou em harmonia, arranjo e composição com o mestre húngaro Ian Guest, estudou contrabaixo acústico com Dener Campolina, baixo elétrico com Iury Popoff e Jorge Helder e violão com Everson Vargas.

 

Como contrabaixista, atuou com Milton Nascimento, Caetano Veloso, Billy Cobham, David Liebman, Adriana Calcanhoto, Alceu Valença, Maria Gadu, Lenine, dentre outros.

 

Em 2016, lançou o CD “Amazônia, Amazônia”,  com as participações de Milton Nascimento, Lenine, Maria Gadu, Seu Jorge, Chico Chico, Antonio Birabent e Samuel Rosa (Skank).

 

O artista está lançando o álbum That bossa note, gravado com amigos ao redor do mundo, que conta com orquestrações do maestro arranjador uruguaio Mônico Aguilera e do do próprio Gastão, com as participações do cantor Camaronês Njamy Sitson e dos brasileiros Antônio Villeroy e Wilson Simoninha. O álbum foi mixado e masterizado por David Feldman.

 

A sessão rítmica e harmônica fica por conta dos nova-iorquinos Joel Rosemblat (baterista de Michel Camilo e do grupo Spyro Gyra), Sandro Albert (guitarrista que já atuou com Rod Stewart e Omar Hakim), Michael O’Brien ( baixista de Harry Conic Jr e Rubem Blades), do guitarrista uruguaio radicado em Los Angeles Leonardo Amuedo, o cellista italiano Federico Puppi e dos brasileiros Ricardo Silveira, David Feldman, Lincoln Cheib, Guto Wirtti, dentre outros. As colaborações nas letras ficam por conta de parceiros, como os também nova-iorquinos Jesse Haris (autor de Don’t know why, dentre muitos sucessos de Nora Jones) e Sachal Vassandani, além da letrista radicada em Londres Natália Revi, do poeta paraense Cesar Miranda e do mano Antônio Villeroy.

 

O disco mostra uma bossa-nova com letras em sua maioria em inglês e com temas contemporâneos como multiculturalismo, ecologia e autoconhecimento, tendo o amor como ponte, como diz a letra de “Bridge to the future:

 

“We are fire, but also water, like the sea that took us way , We are air and we are Earth, All the colors in the rainbow in this day, It’s a new bridge to the future, The strength of life that comes from the soul, Just like this little song”.

 

Além das suas composições, o artista mostra a releitura do sucesso All of you de Cole Porter, apresentada no clipe dirigido pelo cineasta pernambucano André da Costa Pinto, com participação da atriz Juliana Didone.

 

 

 

Sambas para serem ouvidos no bairro. E no mundo

 

 

Entre baforadas de um villalobiano charuto sendo aceso, Tom Jobim certa vez definiu a Bossa Nova como “uma música que nós fizemos para cantar aqui...”. E, fingindo-se mais interessado na prazerosa tarefa de iluminar o havana do que propriamente no que dizia, completou: “...aqui no bairro”.

Por algum tempo, de fato, Tom e seus amigos faziam seus sambas em Ipanema para cantar em Copacabana, no Bon Gourmet, no Zum Zum, no Beco das Garrafas. Depois, no máximo em São Paulo, de onde voltava apreciando do avião a Marambaia, as praias, a água brilhando até aterrar na pista que ladeava a Guanabara, com consequências musicais conhecidas. Não demorou, no entanto, para que os primeiros músicos de jazz em visita a Copacabana e logo a primeira ida de Tom e seus amigos a Nova York no princípio dos 60 fizessem com que as melodias criadas em Ipanema, e envolvidas por inusitadas e requintadas estruturas harmônicas, ganhassem mundo, normalmente com letras vertidas para o inglês, mas até mesmo na língua materna do poliglota Vinicius de Moraes. Um pouquinho depois, já que os sambas tinham mais de Villa-Lobos do que apenas o gosto por charutos, a música de Tom começou a ser vestida por densos arranjos orquestrais. E tornou-se, ainda que feita para cantar no bairro, do mundo.

Não dá para dissociar os novos sambas de Gastão Villeroy reunidos aqui no álbum “That bossa note” dessa tradição iniciada por Jobim. Eles são em princípio isso mesmo: sambas feitos aqui no Rio - cidade em que o gaúcho Villeroy se radicou há 30 anos para se tornar um dos mais requisitados músicos da cidade, trabalhando por exemplo com Milton Nascimento, e desenvolvendo sua carreira autoral. E sambas com belas melodias e requintadas harmonias, e também vestidas elegantemente com cordas e sopros. Mas agora, e bem naturalmente, já concebidos para serem tocados e cantados no mundo todo.

São sambas que já nascem cosmopolitas, feitos em inglês com letristas americanos como Jesse Harris, parceiro habitual de Nora Jones, e Sachal Vasandani, ou a letrista brasileira radicada em Londres Natália Revi, ou no português do irmão Antonio Villeroy (que também divide com Gastão os vocais em “Samba pagão”) e do poeta paraense Cesar Miranda. Além do próprio Villeroy cantando em inglês sem, como Jobim, esconder o sotaque brasileiro e o canto “cool”, praticamente sem efeitos, há a participação de cantores suingadíssimos como o camaronês Njami Sitson em “Shining out your smile” ou o brasileiro Wilson Simoninha (em “Na rede”). Se as orquestrações são do uruguaio Mônico Aguilera e é também do outro lado da fronteira gaúcha o guitarrista Leonardo Amuedo (que faz um magnífico solo de violão em “Bridge to the future”), ambos com passagens pela música brasileira, a ficha técnica é recheada exclusivamente de músicos de primeira linha de Brasil e Estados Unidos. Se há um Ricardo Silveira daqui há um Sandro Albert (que já tocou com Rod Stewart, por exemplo) de lá nas guitarras; se há um Lincoln Cheib (da banda do Milton) de um lado, há um Joel Rosenblat (baterista do Spyro Gyra) de outro, e assim por diante, cada músico da ficha, sem exceção, é especial e foi escolhido pelo seu estilo.

O resultado musical é naturalmente impressionante, mas não é isso o que mais importa neste “The bossa note”, é apenas um dos diálogos possíveis com os grandes discos de canções de Jobim com orquestra, como o “Terra brasilis” e o lado A do “Urubu”, como com a tradição da Bossa Nova bilíngue e em contato permanente com o jazz e o pop de alto nível dos Estados Unidos. O que mais chama a atenção é a atualização que Villeroy propõe para o gênero, para além da excelência: novas melodias para o velho gênero tão amado mundo afora e estranhamente desprezado no Brasil – veja a originalidade de “Road to the moon” – e a atualização de temas e vocabulário das letras, caso de “Bridge to the future”, que incorpora por exemplo a temática multicultural (“All the colors in the rainbow in this day/It’s a new bridge to the future”, diz explicitamente a letra ). Mas mesmo nas bossas mais, digamos, tradicionais e quase metalinguísticas como “Love of samba song” e “Samba pagão” o resultado é de um frescor que não se vê no gênero no Brasil desde que talvez Celso Fonseca e Ronaldo Bastos tenham passeado por ele.

Músico experiente, mas ainda no segundo disco autoral – o primeiro, “Amazônia, Amazônia” já demonstrava grande ambição musical e artística – o que realmente chama a atenção em Gastão Villeroy é a sua coragem de tentar fazer algo novo na corrente principal e mais estabelecida da música brasileira. E com a calma de quem se balança numa rede de algodão, como no delicioso samba que encerra o disco em bom português: “Na rede o mundo não gira/Na rede o tempo não passa/O corpo se estira” canta com a calma de quem ainda fizesse samba para se ouvir no bairro. E que só assim pode ser ouvido no mundo.

 

                                                         Hugo Sukman, julho de 2022

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