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[News]Céu lança "Um Gosto de Sol"

 

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CÉU LANÇA "UM GOSTO DE SOL"
 
Marcus Preto
Céu vivia em Nova York em 1998, quando escreveu sua primeira canção. Dividia o tempo entre o curso de música, motivo que a havia levado para fora do Brasil, e as funções de faxineira, chapeleira, garçonete e outros trabalhos que pagavam o aluguel na nova cidade. Até ali, sua relação com a música estava de todo associada ao ofício de intérprete. Cantar repertório alheio foi a primeira escola prática, a maneira de encontrar a própria musicalidade e, no final das contas, o que deu a ela as ferramentas fundamentais para que descobrisse seu lugar de compositora logo em seguida. Cantar era tudo e o desejo de fazer um álbum de intérprete se manteve nos planos por todo o tempo. Mas a produção autoral se impôs desde seu trabalho de estreia, “Céu”, de 2005. E a ideia de represar as próprias composições para se dedicar a outros autores foi sendo naturalmente adiada. Até agora. Após cinco trabalhos autorais, “Um Gosto de Sol” é o primeiro álbum em que Céu se coloca apenas como intérprete, dando voz a uma dúzia de canções escritas por outros autores. Produzido por Pupillo, o álbum é resultado do impacto da pandemia na vida da artista.
Créditos da Imagem: Cássia Tabatini
Em julho do ano passado, Céu me procurou para ajudar na escolha deste repertório. Mas muito do que acabou sendo gravado e está na versão final de “Um Gosto de Sol” já constava da primeira lista que ela me apresentou, feita com a ajuda de Pupillo, seu marido e produtor, e de Edgard Poças, seu pai. É um projeto particularmente pessoal, como se vê. Familiar, até. E a semente que motivou sua concepção foi justamente a falta de motivos para compor um álbum autoral. O recolhimento. A inevitável introspecção. Nos momentos iniciais da pandemia, quando a sensação de incerteza apenas aumentava a cada novo dia - e nenhum dia era realmente novo -, Céu agiu como boa parte da humanidade e foi buscar acolhida no único ponto de segurança possível àquela altura: a memória. Olhou de volta para os primórdios de sua formação, que remetem aos discos que ouviu na infância na casa dos pais, ao rock e à música pop descobertos na adolescência, aos shows que viu e que fez antes de se tornar compositora. A viagem pessoal fez com que o repertório de “Um Gosto de Sol” refletisse a artista em todos os escaninhos de sua fundação musical, em espectro tão amplo que pode surpreender até - e principalmente - seus seguidores mais fiéis.
 
O samba está representado no álbum em cinco períodos bem distintos, temporal e esteticamente. Dessa linhagem, a seleção de canções parte da basilar tríade de compositores Ismael Silva, Lamartine Babo e Francisco Alves, parceiros em “Ao Romper da Aurora”, samba gravado por Ismael em 1957. Visita a obra autoral de João Gilberto em “Bim Bom”, pequena joia lançada pelo genial cantor como lado B do compacto simples de 1958 que tinha como lado A a faixa “Chega de Saudade” e inaugurava a Bossa Nova. Passa pela fase mais envenenada da dupla Antonio Carlos & Jocafi em “Teimosa”, de 1973, que na nova versão ganhou backing vocais de Russo Passapusso, do BaianaSystem. Segue com uma Alcione de 1979, “Pode Esperar”, composição de Roberto Corrêa e Sylvio Son, que já imprimia ares feministas ao discurso da diva maranhense. E deságua no pagode 2000 com “Deixa Acontecer”, canção de Carlos Caetano e Alex Freitas estourada pelo grupo Revelação, de Xande de Pilares, que Céu leva aqui em sensacional dueto com Emicida.
 
O pop nacional está representado no álbum por sua maior estrela. Primeiro single de “Um Gosto de Sol” a chegar às plataformas de música“Chega Mais” é parceria de Rita Lee e Roberto de Carvalho lançada originalmente em 1979, justamente no LP que inaugurou não apenas a carreira solo de Rita – e sua fase de maior sucesso popular, ao lado do marido Roberto –, mas também a primeira pedra do que viria a ser o nosso pop dali em diante.
Clique aqui e confira o registro de "Chega Mais":

Faixa que batiza o álbum, “Um Gosto de Sol” é uma parceria de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos pinçada do clássico álbum “Clube da Esquina”, de 1972. A sofisticação harmônica e melódica da canção são exemplares da originalíssima escola mineira comandada por Milton naquele período e segue com capacidade para impactar os músicos e ouvintes mais exigentes daqui e de fora. No caminho contrário, é na simplicidade da construção de “Feelings” que moram suas características mais potentes, com força para unir - ou, ao menos, para confundir - as fronteiras entre música brasileira e internacional. Composta em inglês pelo brasileiro Morris Albert em 1974, a canção ganhou o mundo de maneira avassaladora e foi gravada por estrelas do jazz e do pop mundial, de Nina Simone a Caetano Veloso, de Offspring a Joe Pass - e, segundo documentos, teria sido registrada até por Elvis Presley se a morte não o tivesse alcançado antes.

Da mesma maneira que o samba, o pop internacional também é abordado por Céu em suas mais diferentes facetas em “Um Gosto de Sol”. O álbum traz uma versão quase bossa nova para a psicodélica “May This Be Love”, faixa que abre o lado B do clássico álbum gravado por Jimi Hendrix em 1967, “Are You Experienced”. Passa pelos anos 1980 em “Paradise”, composição de Andrew Hale, Stuart Matthewman, Paul S. Denman e Sade Adu que puxou o álbum “Stronger Than Pride”, sucesso mundial de Sade em 1988. E chega à década de 1990 com dois nomes fundamentais: Fiona Apple, autora de “Criminal”, de 1997; e os Beastie Boys, donos de “I Don't Know”, do ano seguinte.
 
Também foram criadas para o álbum duas vinhetas instrumentais: “Sons de Carrilhões”, de João Pernambuco, e “Salobra”, de Andreas Kisser, Pupillo, DJ Nyack e Céu - só para desmentir quem disser que não há nada autoral no setlist. Ambas ganharam a adesão e os beats do DJ Nyack.

Créditos da Imagem: Cássia Tabatini

Mas nada é o que parece. Ou melhor: nada está como era antes. O impulso por criar leituras realmente novas de cada canção se faz notar em todos os momentos do álbum, desde a concepção dos arranjos até as interpretações vocais. Embora Céu tenha sempre valorizado ambientações eletrônicas em seus álbuns autorais, as primeiras imagens impressas em sua memória afetiva remetem ao universo do violão brasileiro. Sendo memória e afeto os dois ingredientes fundamentais de “Um Gosto de Sol”, nasceu daí a opção conceitual por colocar o instrumento acústico como peça-chave de todo o álbum. Mas era preciso conciliar duas pontas: de um lado, exaltar a grandeza das escolas clássicas de Dilermando Reis, Garoto e Baden Powell, entre outros geniais violonistas que Céu ouviu durante toda a primeira parte da vida no toca discos do pai; do outro lado, honrar todo o universo musical que conheceu depois, por conta própria, em uma vida dedicada à liberdade de ouvir sem se importar com a procedência. Que instrumentista seria capaz de resolver essa equação?

Das partes boas de ser casada com o próprio produtor, Céu dividiu a questão com Pupillo. E foi ele quem trouxe a solução, que se materializou na forma de um vídeo postado no instagram de Andreas Kisser. Nele, o guitarrista do Sepultura tocava um chorinho ao lado do filho. Parecia inacreditável: o fundador da maior banda de metal do Brasil - uma das maiores do mundo - tocava violão de náilon. E bem. Dali até fazer o convite, a dúvida que primeiro surgiu foi: por que raios Andreas Kisser toparia entrar em uma empreitada dessas? Por que pararia seu dia para se dedicar a fazer os violões para um álbum de intérprete. Pupillo rebateu, prático: “Porque ele deve estar em casa, trancado e entediado feito a gente”. E estava. Kisser topou assim que recebeu o telefonema. Mais do que isso, aprendeu a tocar violão de sete cordas especialmente para a feitura deste álbum. A banda de “Um Gosto de Sol”, portanto, é formada basicamente por Pupillo (bateria, percussão e produção do álbum), Andreas Kisser (violão de sete cordas) e Lucas Martins (baixo). Mas conta também com participações adicionais de Hervé Salters e Rodrigo Tavares (teclados), do veterano maestro Jota Moraes (vibrafones) e do DJ Nyack (beats e programações).
 
Céu gosta de dizer que esse é, sim, um trabalho sobre esperança. Não numa tentativa de criar novas canções que simulassem um belíssimo futuro logo ali adiante - o que então, à sombra da pandemia, nos pareceria tão pouco crível. Mas em um movimento que pudesse fortalecer justamente o que tínhamos - e sempre tivemos - de mais sólido e mais potente: nossa história e nosso afeto. Como indivíduos, é claro, e também coletivamente, como o país cuja identidade sempre esteve tão perfeitamente ligada e representada pela música popular. Pela música que compusemos para nós mesmos e por aquela que trouxemos, por desejo ou identificação, para dentro do nosso quintal. E onde pudemos colher, pelas frestas da quarentena, um gosto de sol e um bocado de calor.

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PR/WMB

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