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[Crítica] Segredos do Putumayo

Festival de Documentários "É Tudo Verdade 2020"

Título: Segredos do Putumayo

Direção: Aurélio Michiles

País: Brasil

Idioma: Português

Sinopse: Documentário sobre aquele que é considerado hoje o pai dos inquéritos sobre a violação dos direitos humanos, Roger Casement (1864-1916). As ações de quando ele esteve na África, no Brasil e na sua Irlanda nativa ainda repercutem em nossos dias.

"Segredos do Putumayo" foi inspirado no "Diário da  Amazônia de Roger Casement", traduzido para o português apenas em 2016.  O cineasta amazonense Aurélio Michiles, foi até índios Uitotos, Boras, Ocainas e Muinames e conta a história de um genocídio pouco lembrado, o de mais de 30 mil índios escravizados pela empresa Peru Amazon Company, em nome da coleta da borracha.

Michiles mostra como a morte desses indigenas, incluindo idosos, mulheres e crianças por meios cruéis e torturosos, ainda é uma ferida aberta, nunca houve justiça e muito menos reparação, mesmo depois de décadas e décadas, como contam descendentes dessas tribos.

Roger tinha uma humanidade admirável e teve a visão necessária para enxergar toda monstruosidade pelas quais os indigenas passavam, mesmo que funcionários da companhia tentassem esconder. Acompanhamos esssa viagem através de dois intérpretes para Roger Casement: Dori Carvalho, que nos traz a cênica do personagem e Stephen Rea, que emprestou sua voz para narrar as passagens escritas por Roger, e que é bem-sucedido em nos mostra-lo adquirindo um certo espírito revolucionário, causado pela indignação diante das monstruosidades direcionadas aos índios, de forma que a passividade não mais lhe cabia, e assim foi inspirado a pensar a situação Irlanda/Inglaterra de uma maneira diferente.

A fotografia é bonita e bem elaborada, o preto e branco é uma escolha rígida que funcionou bem, transmite o peso dos acontecimentos de forma sútil. Outra escolha acertada foi o uso contido de imagens chocantes, sempre sobrepostas, com foco maior nos depoimentos dos descendentes, historiadores e das falas de Roger Casement, no entanto, acredito que a escolha do inglês como lingua majoritária no documentário o deixa muito acadêmico, se tornando um pouco distante do popular, onde é realmente necessário. O final acaba se prolongando demais também, usando muito de textos e perdendo o ritmo.

O saldo ainda é positivo, uma boa intenção em trazer á tona e falar dos horrores do Putumayo que nos mostra a importância dos direitos humanos, principalmente nesse momento que existe tanto desdém sobre essa luta.

"Segredos do Putumayo" foi o meu encerramento do Festival de documentários "É Tudo Verdade 2020", que completou 25 anos nessa edição. O Festival teve que se adaptar ao formato online, mas sua organização foi impecável, continuando seu legado importante para a arte dos documentários. O vencedor da Amostra Competitiva acabou sendo "Libelu – Abaixo a Ditadura", de Diógenes Muniz e do qual falei aqui na minha crítica anterior.


Texto por Yasmin de Carvalho.


 

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