12 junho 2018

[Palavras na cortiça] Como um castelo de gelo

Hoje é dia de inaugurar uma coluna nova, aqui um antigo conhecido do Reino retorna para dar vida as palavras, ou seria dar sentido as suas memórias? 
Bem, garanto que nem ele mesmo sabe se seus textos salvam sua mente ou se ele se salva a cada novo texto.

Eu estava sozinho.
Quando você se vê sozinho, é muito estranho.
Por que?
Porque mesmo mais que 20 pessoas estejam ao seu redor, você se sente numa ilha sozinho.
Acredito que todos nós tenhamos uma ilha. A gente pode chamar de “espaço pessoal”, também.
O problema é que eu a vi desabitada, diferentes das ilhas ao meu redor.
Na verdade, eu vi que eu não tinha mais uma ilha. Quando você imagina uma, ela tem: Um sol, um mar, um coqueiro e, possivelmente, um caranguejo habitando aquele lugar junto com você.
Eu olhei para o lado direito e vi uma ilha estilo Ibiza. Festas, festas e mais festas.
Eu olhei para o lado esquerdo e vi uma com aspecto de selva, com pessoas perseguindo algum animal para ser o jantar.
Eu olhei para dentro de mim…
Não tinha uma ilha.
Tinha um castelo. Frio, gelado e transparente.
Eu vi um menino, somente. Ele não sentia frio.
Na verdade, ele não sentia nada.
Mas aquele era eu?
Eu não sei.
Poderia ser, mas não era.
Não completamente.
Então eu desci até o castelo. Era feito de gelo.
“Você fica sempre por aqui?”
“Depende. Tem vezes que sim, tem vezes que não.”
“Porque você está aqui então?”
“Porque sim. Porque… Eu me sinto assim.”
“Porque você está se sentindo assim?”
“Porque quando eu me sinto super carregado quando entro em contato com as outras ilhas.”
“Então, eu tenho uma ilha, também?”
“Claro que tem.”
“Então, porque eu não consigo vê-la? Porque eu só sinto esse frio gelado?”
“Porque tem vezes que temos que nos resguarda. Tem vezes que eu tenho que fechar o portão do seu castelo. Tenta entender que você não tem que ser como os outros. Você pode ser gentil, engraçado e extrovertido, mas não o tempo inteiro.”
“Hum.”
“Não fica triste, uma hora vamos voltar para o nosso lugar.”
“Que lugar?”
O menino abriu uma janela no gelo.
Eu não tinha só uma ilha, um castelo e um mundo.
Eu tinha um universo inteiro.

Escrito por Sérgio Augusto

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