31 outubro 2018

[Resenha] Especial 2GM | Resistência

Sinopse: “Resistência” narra a trajetória de duas irmãs gêmeas lutando pela sobrevivência na Segunda Guerra Mundial. Pearl e Stasha chegam a Auschwitz em 1944 e ainda vivem sob o encantamento da infância – têm uma conexão muito forte, se entendem, se confortam e brincam juntas. Como parte de um experimento chamado Zoológico de Mengele, as irmãs conhecem o horror e têm suas identidades fraturadas pela dor e pelo sofrimento. No inverno, Pearl desaparece; Stasha chora pela irmã, mas mantém a esperança de encontrá-la viva. Ao final do conflito, Stasha se depara com um mundo em ruínas, uma Polônia devastada pela guerra, e tenta reconstruir sua vida a partir dali. Romance narrado com uma voz poderosa e única, Resistência desafia qualquer expectativa ao atravessar um dos períodos mais devastadores da história contemporânea e mostrar que há beleza e esperança até diante do caos e ganhou elogios da crítica e de autores como Anthony Doerr, de Toda luz que não podemos ver.

O que eu achei?

Inspirado no caso real das irmãs gêmeas Eva e Miriam Mozes, “Resistência” nos leva a vivenciar as experiências mais horrendas que ocorreram no campo de concentração Auschwitz, pelas mãos do Anjo Da Morte, o Dr. Josef Mengele. A história nos é contada pelas gêmeas Stasha e Pearl, quando elas são levadas sob a custódia do Dr. Mengele,e passam a viver no que chama de zoológico, onde outras crianças e pessoas com alguma anormalidade física ou genética ficavam reunidos para as “experiencias”.

A história é de uma carga emocional descomunal. Cada gêmea nos conta o que sente e o que vive, e vemos como a relação e a conexão entre as duas é de fina sintonia. Juntas, elas tentam sobreviver e se apegar a lembranças e esperanças, sem deixar escapar suas identidades, sem se afastarem de si mesmas e uma da outra. A escrita de Affinity Konar é uma das mais lindas que já li, misturando com extremo cuidado a voz jovem das suas protagonistas com relatos doloridos de espíritos que estão lutando pela sobrevivência onde somente há morte.

Cada personagem dessa história – excreto Mengele – tem seu brilho e sua importância, cada um sendo tão importante para nossas protagonistas quanto se pode imaginar que outra pessoa possa ser a nós em momentos tão difíceis de se viver. Acompanhamos descobertas, aprendizados; crescemos e amadurecemos à força com eles. Nós vemos como Auschwitz afeta cada um deles de uma forma única, isso unido às experiencias macabras de Mengele. Experiencias, essas, que são tratadas com detalhes precisos e angustiantes, mostrando que não havia nenhum limite para a crueldade humana. Mas também não havia limites para a esperança...

Enquanto parte do livro foca nessa esperança, a de um futuro livre, de volta ao mundo antes conhecido, outra parte – após a separação das irmãs, como dito na sinopse – afunda numa angústia e se enrola em várias camadas de sofrimentos seguidos, traumas que marcaram não só a mente e o espírito, mas também o corpo. Quando Pearl some, Stasha, sim, se enche de esperança para reencontrar sua irmã – sua melhor parte. Mas essa esperança está corroída, maltratada, desgastada e frágil. É doloroso ver como uma menina – na verdade, as duas – tão jovem passou por tantas provações e torturas, e ainda assim manteve suas esperanças vivas – mas poluídas pela morte, pela dor, pelo ódio.

A parte em que estão separadas é, com certeza, a mais carregada emocionalmente, onde as personagens são entregues a sorte e a nenhum destino certo. Seus questionamentos e pensamentos são pesados até para nós, já adultos, além de extremamente eloquentes e poéticos. E é isso o que mais dói, a beleza no discurso das meninas, que se encontram cercadas pelo pior que há no mundo. Acredito que a imagem desse sentimento seja como a beleza de uma natureza morta. 
Ressecada, frágil, mas ainda bela em sua desolação. A história deixa de ser uma jornada para sobreviver e passa a se tornar uma jornada para se reencontrar consigo mesma e com suas lembranças. Reunir os pedaços que foram partidos, pisoteados e espalhados.

O que resta quando nos é tirado tudo? Quando passamos de humanos a cobaias? Quando nos é roubada a nossa liberdade? A nossa melhor parte? O que resta de nós em nós quando a esperança precisa lutar cara a cara com a morte a cada segundo? As respostas são encontradas no amor, na amizade, nas alianças e nas promessas feitas.

“Resistência” sem dúvidas é um livro que deixa marcas profundas, e sua história traz a tona não somente o pior lado do ser humano, mas também toda a força que temos. É brutal e belo; triste e esperançoso. Cada linha, cada parágrafo é como uma poesia que vive para não esquecer o passado; luta para sobreviver ao presente, e que sonha com um próspero futuro, mostrando que é possível haver beleza em meio ao caos.

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