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[Nerds & Geeks] O advogado que entrou para a História ao processar nazistas

 


Hoje, dia 20 de novembro, além de ser o Dia da Consciência Negra, também é o dia em que marca os 75 anos do início do Julgamento de Nurembergue.

Você sabe quem é esse senhor da foto? Não? Então permita-me apresentá-lo:

O nome dele é Benjamin Ferencz, ele completou 100 anos em março e embora ele tenha testemunhado atrocidades quando atuou como soldado a serviços dos EUA na Segunda Guerra Mundial, reunido provas dos crimes dos nazistas após o fim do conflito e depois processado nazistas nos julgamentos de Nurembergue,segue tendo uma visão otimista da vida.

Na introdução de seu livro Parting words: 9 lessons for a remarkable life (Palavras de despedida: 9 lições para uma vida notável, em tradução livre)que será publicado no dia 31 de dezembro, ele afirma:

``De nada adianta se afogar em um rio de lágrimas. Se você chorar por dentro, é melhor rir por fora.

Foi graças ao trabalho investigativo de Ferencz que os promotores do julgamento de Nurembergue, iniciados em 20 de novembro de 1945,puderam apresentar documentos que comprovavam os crimes dos nazistas.As provas foram usadas contra membros do círculos mais próximo de Hitler, incluindo Hermann Göring, Rudolf Hess, Baldur von Schirach, entre outros criminosos de guerra.

Ferencz nasceu na Transilvãnia em março de 1920 mas imigrou para os EUA com sua família quando tinha apenas dez meses porque de acordo com ele,foi para evitar a perseguição dos judeus húngaros pelos romenos depois que eles ganharam o controle formal da Transilvânia. A família se estabeleceu em Nova York.Ele cursou Direito em Harvard com uma bolsa de estudos.Se formou em 1943 e se alistou no Exército americano. Seu primeiro emprego foi como datilógrafo em Camp David, na Carolina do Norte.

Durante a primavera de 1944,a unidade de combate na qual ele atuava foi enviada ao Reino Unido para lutar na Segunda Guerra. Em 6 de junho de 1944, conhecido como o Dia D, ele e os colegas saltaram de uma lancha de desembarque rumo à praia de Omaha, no norte da costa da Normandia, na França. Era o início da invasão dos Aliados – e também do fim do domínio nazista.

Durante o avanço das tropas americanas, a unidade de Ferencz rompeu a linha de defesa ocidental dos nazistas, a chamada Linha Siegfried. Os soldados lutaram na linha de frente da Batalha das Ardenas e cruzaram o rio Reno pela ponte de Remagen na primavera de 1945. Mais tarde, Ferencz diria que sobreviveu à guerra por pura sorte.

 Depois do embate, o Exército lhe designou outras tarefas como obter provas dos crimes de guerra cometidos pelos nazistas. Aproveitando sua formação como advogado, Ben e sua equipe selecionaram nos documentos encontrado da SS (a Schutsztaffel, a Polícia do Estado) e de outras organizações nazistas. Também visitaram campos de concentração como Dachau, Buchenwald e Mauthausen, entre outros, a fim de obter provas incontestáveis do genocídio do Holocausto.

Em seu livro de memórias, Ferencz relata como era importante conseguir provas como listas de prisioneiros, nomes dos administradores dos campos, bem como dos membros da SS envolvidos. Foi essa a base que ele e sua equipe usaram para emitir mandados de prisão. Depois de obter todas as provas possíveis em um campo, eles partiam para o próximo imediatamente.

Embora seja de família judia, Ferencz não estava interessado em vingança nem retaliação. Para ele, o que estava em jogo era a justiça.

Ele participou do primeiro julgamento de Nurembergue, contra os principais criminosos de guerra nazistas, apenas como espectador. Em seus diários, ele lembra que, no início do julgamento, os assentos estavam lotados, porém, à medida que a sessão avançava, o local foi ficando vazio porque os alemães logo perdiam o interesse.

Após dispensado do Exército com honras, Ferencz retornou aos Estados Unidos e começou a procurar emprego como advogado, mas não precisou fazer isso por muito tempo. Ele logo recebeu um telegrama do Pentágono convocando-o para um encontro com o general Telford Taylor, um prestigioso advogado que havia sido nomeado pelo então presidente Harry Truman para comandar os demais julgamentos de Nurembergue, aqueles que iriam recomeçar de onde o primeiro havia parado. Taylor imediatamente trouxe Ferencz para sua equipe.

O diretor Ulbritt Horn lançou o documentário A man can make a difference (Um homem pode fazer a diferença, em tradução livre)e nele Ferencz lembra que, primeiro, Taylor o encarregou de ir a Berlim e recolher provas dos monstruosos crimes nazistas. Os Estados Unidos achavam que o primeiro julgamento de Nurembergue, dos 22 principais nazistas, não havia conseguido explicar totalmente como crimes dessa magnitude podiam ter acontecido em um país civilizado como a Alemanha, segundo ele diz no filme.

A equipe de investigação dos Estados Unidos estava sediada em Berlim, uma capital devastada pela guerra. Naquele momento, a cidade já havia sido dividida em setores separados pelas quatro potências que ocuparam o território alemão: Estados Unidos, Reino Unido, França e União Soviética. Cada uma tinha seus próprios métodos de processo penal.

No entanto, Ferencz e sua equipe de 50 pessoas receberam sinal verde para reunir uma grande quantidade de provas e documentos incriminatórios produzidos pela vasta burocracia nazista. A sede da Gestapo – a polícia secreta da Alemanha Nazista – em Berlim se mostrou particularmente útil para isso, abrigando papéis com detalhes do que havia ocorrido, resultado da típica minuciosidade alemã. No documentário, Ferencz descreve o lugar como "uma mina de ouro", acrescentando que ele e sua equipe vasculharam sistematicamente todos os arquivos nazistas.

Na primavera de 1947, um integrante  da equipe se deparou com três pastas grossas nos arquivos do Ministério do Exterior com o título "Despachos de eventos da União Soviética – Relatórios da Frente Leste". Eram relatos de unidades especiais da SS disfarçadas sob o nome "Einsatzgruppen", termo usado para se referir aos esquadrões da morte móveis da SS. Mas, como lembra Ferencz, ninguém sabia disso naquela época.

Ferencz descobriu listas detalhadas de um programa assassino que a SS usou para matar centenas de milhares de judeus e de ciganos das etnias sinti e roma no Leste Europeu. Ele rapidamente percebeu a importância daquela descoberta.

Essas provas forneceram base legal para um dos maiores julgamentos de assassinatos da história: em 15 de setembro de 1947, Ferencz fez seu pronunciamento de abertura na sala 600 do Tribunal de Nurembergue. Aos 27 anos, ele era o procurador-chefe mais jovem envolvido com os 12 julgamentos de Nurembergue realizados após o primeiro. Os réus eram 24 homens do "SS Einsatzgruppen", representando um total de 3 mil membros.

No final, quatro das sentenças de morte do tribunal foram executadas. Muitos dos criminosos nazistas na Alemanha Oriental e Ocidental cumpriram penas de prisão curtas, e alguns foram libertados mais cedo. A Guerra Fria entre nações comunistas e as potências ocidentais havia começado, deixando os horrores da Segunda Guerra Mundial em segundo plano.

Todas essas experiências na Alemanha do pós-guerra renderam resultado. Mais tarde, quando ele já era representante oficial da Conferência de Reivindicações Materiais Judaicas Contra a Alemanha, ele trabalhou incansavelmente para que se chegasse ao acordo de reparações entre Israel e a Alemanha Ocidental, assinado em Luxemburgo em 1952.


A persistência e experiência dele nos julgamentos de Nurembergue também levaram à fundação, em 2002, do Tribunal Penal Internacional (TPI), sediado em Haia, na Holanda. O TPI processa indivíduos por crimes de guerra – até mesmo chefes de Estado podem ser responsabilizados legalmente.

Em depoimento para o documentário de 2015, a procuradora-chefe do TPI, Fatou Bensouda, descreveu Ferencz como "um homem de convicção, um homem de princípios". "Para ele, isso não é só um trabalho, é uma paixão", acrescentou.

Em 2010, Ferencz foi agraciado com a Ordem do Mérito da República Federal da Alemanha por se comprometer ao longo de uma vida inteira com o direito internacional.

No evento que celebra o 75º aniversário dos julgamentos de Nurembergue, marcado para esta sexta-feira (20/11), Ferencz fará um discurso por meio de uma mensagem de vídeo. Em sinal de respeito, o presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, vai se pronunciar depois dele.Será transmitido através de seu canal do Youtube !


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