[Crítica Musical] Ceremonials

Ceremonials” é o segundo álbum de estúdio da banda Florence and the Machine, e pelo nome já é possível ter uma ideia do que esse álbum nos tem a oferecer. Como a própria Florence Welch já disse, o álbum mantém um tema comum cercando-o o tempo todo: a heroína torturada. Não é a toa que nomes como Virgínia Woolf e Frida Kahlo são creditados como influencias para a criação do conteúdo desse álbum.
A sonoridade de Ceremonials é muito mais lúgubre que seu antecessor, “Lungs”, remetendo a imagens como grandes catedrais góticas e grandes corais, se fossemos transformá-las em sons. É um cortejo cheio de alegorias, referências e mitologias revisitadas e trazidas para a realidade pessoal da nossa protagonista angustiada.
O álbum não segue uma linearidade narrativa, e o elemento muito utilizado nesta obra é a água. É possível fazer uma conexão da água com essa narrativa não linear e os conceitos existenciais abordados tendo em mente a capacidade de adaptação da água e sua versatilidade – entenderam? A tragédia e o reerguer são ideias recorrentes nas composições, que vão do extremo melancólico e sombrio a batidas ritualísticas. As letras tratam de desastres e tragédias emocionais da forma mais sincera possível, indo do desastre ao reparo com a mesma facilidade. Há um quê extremamente artísticos retro, vintage que foi muito usado na parte visual dos vídeos com foco em art-deco, e também nos vídeos. As composições possuem um lirismo que é quase um feitiço cantado a plenos pulmões, carregados de emoção e desmedida honestidade.
Faixa-a-Faixa:

Only If a Night” é a faixa que abre o álbum, e explora o surrealismo, onde o sonho traz mensagens necessárias – além de servir como um tipo de introdução aos temas abordados nas outras faixas, de uma forma não direta. É como a mensagem no início da jornada. “Shake It Out” é a faixa que revive o passado, aprende com ele e segue em frente, se livrando do peso da culpa e dos erros. Basicamente, encontra-se aqui a aceitação da vida como ela é. Em “What The Water Gave Me”, título inspirado em um quadro com mesmo nome de Frida Kahlo, temos a libertação e a purificação, numa possível analogia ao batismo e a redenção. “Never Let Me Go”, inspirada no suicídio de Virgínia Woolf, lida com a entrega a um sentimento de paz e quietude que transcende, além corpo. “Breaking Down” é umas das faixas mais up-beat tempo do álbum, cuja letra sombria dá indícios de uma paranóia ou depressão -algo sombrio a espreita -, num pesado estado de solidão, contrastando com o ritmo animado da faixa. “Lover To Lover” busca aceitação pessoal baseada nos erros, e a compreensão de que eles fazem você ser quem é, mesmo que não pareça haver esperanças de mudança. “No Light, No Light” é o cansaço emocional e mental ocasionado por uma relação desgastante onde tudo o que tinha que ser dito, foi dito, mas o outro não foi capaz de aceitar. O esgotamento emocional e mental pelo esforço unilateral.
Seven Devils” é a raiva, a fúria, a vingança e a luta, onde não há esperança à vista para o outro, algoz emocional, e ela irá até o fim para derrubar aquele que a fragilizou e enganou. “Heartlines” é a faixa mais ritualística do álbum, cheia de sons da natureza. É um despertar para uma nova compreensão, em um nível espiritual mais elevado, uma conexão com a energia vital que nasce pura da natureza. “Spectrum” traz as descobertas e redescobertas após alcançar esse novo patamar existencial e espiritual. “All This And Heaven Too”, a mais poética do álbum, relatando o êxtase, a felicidade indescritível e emoções completamente novas e avassaladores, no melhor sentido, e como ficamos entregues a esse estado de corpo e alma. “Leave My Body”, faixa que encerra o álbum, é onde ela abre mão e deixa para trás toda a negatividade que há, buscando elevar-se.
Então, apesar de “Ceremonials” ser um álbum bastante sombrio em seu conceito e execução, as analogias que às vezes assustam estão ali para mostrar mensagens muito mais profundas. As alegorias dão beleza e forma a essa obra prima, e a sonoridade embalada por harpas, pianos e corais pesados criam uma atmosfera que nos leva numa viagem quase transcendental – algo próximo a uma experiência extra-corpórea.
Florence se mostra muito mais madura no seu canto, e o domínio sobre a própria voz está em um nível muito superior ao trabalho anterior, dominando agora com maestria os melismas e conseguindo manter por ainda mais tempo as notas altas.
A experiencia de ouvir a esse álbum é extremamente imersiva, onde há uma coesão única de sons capaz de te sugar para dentro de suas histórias e te deixar cativado do início ao fim.
Enfeitiçados, para ser mais preciso.

Tracklist:
01. Only If For a Night
02. Shake It Out
03. What The Water Gave Me
04. Never Let Me Go
05. Breaking Down
06. Lover To Lver
07. No Light, No Light
08. Seven Devils
09. Heartlines
10. Spectrum
11. All This And Heaven Too
12. Leave My Boy


Florence + The Machine - No Light, No Light
Music video by Florence + The Machine performing
No Light, No Light. (C) 2011 Universal Island Records, a division of Universal Music Operations Limited

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