01 novembro 2017

[Resenha] Mestre das Chamas

Ninguém sabe exatamente como nem onde começou. Uma pandemia global de combustão espontânea está se espalhando como rastilho de pólvora, e nenhuma pessoa está a salvo. Todos os infectados apresentam marcas pretas e douradas na pele e a qualquer momento podem irromper em chamas. Nos Estados Unidos, uma cidade após outra cai em desgraça. O país está praticamente em ruínas, as autoridades parecem tão atônitas e confusas quanto a população e nada é capaz de controlar o surto. O caos leva ao surgimento dos impiedosos esquadrões de cremação, patrulhas autodesignadas que saem às ruas e florestas para exterminar qualquer um que acreditem ser portador do vírus. Em meio a esse filme de terror, a enfermeira Harper Grayson é abandonada pelo marido quando começa a apresentar os sintomas da doença e precisa fazer de tudo para proteger a si mesma e ao filho que espera. Agora, a única pessoa que poderá salvá-la é o Bombeiro – um misterioso estranho capaz de controlar as chamas e que caminha pelas ruas de New Hampshire como um anjo da vingança. Do aclamado autor de A estrada da noite, este livro é um retrato indelével de um mundo em colapso, uma análise sobre o efeito imprevisível do medo e as escolhas desesperadas que somos capazes de fazer para sobreviver.
O que eu achei?
Em meio ao surto de um esporo ironicamente chamado de Escama do Dragão por sua capacidade de atear fogo em seus hospedeiros de dentro para fora sem explicação aparente, a enfermeira Harper Willowes, recém-descoberta grávida e portadora da doença, é abandonada pelo marido escritor, cujas histórias não passam de idealizações submissas e abusivas da esposa. Quando ele retorna querendo matá-la por estar infectada, ela é salva pelo Bombeiro, um homem capaz de controlar a Escama a seu bel prazer, produzindo chamas que não o ferem.

O Bombeiro a leva à colina Wyndham, um lugar isolado em que seus habitantes formaram uma espécie de culto em adoração à harmonia. Quando se unem para “louvar”, cantam antigos sucessos das paradas e entram num estado que chamam de Brilho, onde o espaços entre suas mentes de torna rarefeito e emanam luz no lugar de queimarem instantaneamente. À procura de um lugar onde possa dar à luz seu filho em paz, Harper ali permanece, até que aos poucos descobre que a Escama pode levar o ser humano a lugares muito sombrios.

Esse é o tipo de história que traz à tona a reflexão do que caracteriza um gênero literário. Oficialmente falando, Mestre das Chamas é um livro de terror, porém Joe passeia entre o medo e a morbidez sem deixar o campo sentimental de lado. A sacada genial é como ele aborda a “união” abençoada pelo esporo, podendo manifestar-se de formas cotidianas como as próprias cantigas, ou brutalmente, em um massacre e até mesmo um estupro coletivo. Em contrapartida, mediante o apocalipse pirotécnico, Harper reúne, temendo não sobreviver, experiências essenciais para a relação de mãe e filho (beijinhos, conselhos, etc) num projeto chamado Mãe Portátil; trazendo assim um lado mais reconfortante à leitura.

A evolução da Harper como personagem é bem lenta. Ela pode ser irritante às vezes e inicialmente me pareceu compassiva, entregando-se demais, permitindo que suguem mais do que o necessário. Possui uma dificuldade muito grande de expressar abertamente seus momentos de fúria e indignação — o que a leva a explosões ocasionais em momentos totalmente inesperados —, e isso, aliado à sua vida como enfermeira do grupo, a tornam a pessoa perfeita para o apocalipse. Ela representa o controle necessário em momentos desesperadores. À medida que a gestação avança e ela precisa se impor a fim de manter a segurança do filho e de seus pacientes, Harper, então, desabrocha numa protagonista forte e cheia de opinião.

Já o Bombeiro, John Rookwood, com seu jeito enigmático e o controle extraordinário sobre a Escama do Dragão, mostrou-se um personagem instigante desde o primeiro momento. O laço que forma com Harper é envolto de muita compreensão e naturalidade. Eles caminham um ao outro como algo que não necessariamente estava escrito em pedra, mas ainda assim é especial. As cenas dos dois juntos eram sempre as mais profundas e permeadas de muita mágoa ressentida; tanto pelo marido de Harper quando a falecida esposa de John, Sarah. Seu plot é diretamente ligado à funcionalidade do fungo e seu impacto numa visão mais ampla da história. Joe Hill apresenta diversos surgimentos possíveis e formas como a Escama pode conectar-se com o hospedeiro, tanto física quanto cognitivamente. Ao ponto que, em síntese, todas poderiam ser verdade, ou nenhuma.

Por ter passado primeiro pelas histórias de seu pai, Stephen King, foi inevitável procurar elos estilísticos entre os dois. E a verdade é que Joe e King possuem visões similares, um jeito parecido de ver beleza no meio do caos, embora possuam escritas distintas. O pai brinca livremente com a forma do texto para adequar-se às sensações que deseja expressar; enquanto o filho traz uma métrica mais regrada, porém apresentando questões sociais mais explícitas. Ele faz também muitas referências atuais, como a Harry Potter, As crônicas de Narnia e celebridades. Nas primeiras cem páginas, por exemplo, ele matou George Clooney e Barack Obama — e a lista não para por aí.

Foi uma leitura muito palpável, de saborear não só os acontecimentos, mas também as palavras, o jeito como Joe Hill se expressa. O único problema, a meu ver, é que, diante do fim do mundo, o livro se restringe muito à colina Wyndham, onde se passa quase o livro inteiro. Causaria muito mais impacto se fosse num formato de roadtrip, mostrando a destruição por todo o EUA. E por isso tive a impressão de que não estava captando o que ele queria passar com os acontecimentos por vezes mornos da história, quando, na verdade, as estrelinhas dizem tudo. O que qualifica Mestre das Chamas são os medos, as incertezas, as inseguranças que sobram dentro das pessoas quando todo o resto fenece em cinzas.

5 comentários

  1. Sua resenha foi de arrebentar. Curti muito saber mais sobre o livro que quero muuuito! O descobri através da Frini e deste então, começou meu interesse. Só fiquei com receio em saber que a história se restringi muito a uma só colina.

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  2. Olá! Confesso que o gênero de terror não é os dos meus favoritos, mas a história aguçou minha curiosidade em descobrir qual será o desfecho dos acontecimentos, só por isso, talvez, abra uma exceção e o coloque na minha listinha.

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  3. Puxa, filho de Stephen King ... Por isso achei a história complexa. Kkk é uma qualidade de King. Enfim, gosto de livros assim meio apocalíptico. Com certeza vou dar uma chance a essa história.

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  4. Oi Julia.
    Não me interessei pela premissa desse livro. Não sou muito fã do gênero terror, além de você ter descrito algumas coisas que com certeza me incomodaria durante a leitura (como assim estupro coletivo?).
    Mas, eu gostei bastante da capa rs
    Bjs

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  5. Comecei a ler o primeiro capítulo e olha... acho que promete.

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