24 maio 2018

[Resenha] O Escravo de Capela

Sinopse: QUANDO A MORTE É APENAS O COMEÇO PARA ALGO ASSUSTADOR
Durante a cruel época escravocrata do Brasil Colônia, histórias aterrorizantes baseadas em crenças africanas e portuguesas deram origem a algumas das lendas mais populares de nosso folclore.
Com o passar dos séculos, o horror de mitos assustadores foi sendo substituído por versões mais brandas. Em O Escravo de Capela, uma de nossas fábulas foi recriada desde a origem. Partindo de registros históricos para reconstruir sua mitologia de forma adulta, o autor criou uma narrativa tenebrosa de vingança com elementos mais reais e perversos.
Aqui, o capuz avermelhado, sua marca mais conhecida, é deixado de lado para que o rosto de um escravo-cadáver seja encoberto pelo sudário ensanguentado de sua morte.
Uma obra para reencontrar o medo perdido da lenda original e ver ressurgir um mito nacional de forma mais assustadora, em uma trama mórbida repleta de surpresas e reviravoltas.

O que eu achei?
Marco DeBrito se aprofunda na nosso folclore e recria, desde a sua origem, dois nomes de nossa fábula, que assombram  nossas terras quando a noite chega, de forma bem mais sombria e sangrenta. “O Escravo de Capela” une o terror e o suspense num plano de fundo histórico tão sangrento quanto a ficção deste livro: o Brasil escravocrata. 


Com a eloquência dos grandes nomes da nossa literatura, DeBrito criou uma história rica em detalhes, com personagens muito bens construídos e verossímeis. A escravidão não apenas é tratada como o ambiente da história, mas como um personagem importante para que ela ocorra, com suas mãos sangrentas se espalhando e envolvendo todos, de diversas maneiras. A escrita é cuidadosa e muito bem arquitetada para alinhar toda a história, e a linguagem se mostra compatível com a época na qual o livro se baseia tornando a leitura uma atividade de imersão, recriando com precisão a voz dos clássicos romances nacionais. 


Na fazenda de Capela, os Cunha Vasconcelos e seus peões dominam suas terras de produção de cana. O primogênito é o truculento, sedento por sangue e morte, e mata sem piedade, e achegada de Sabola, um escravo que se nega a todo custo a ter uma postura servil, muda toda a história da fazenda. 


A trama tem vários núcleos que se ligam, mas a história por trás das motivações são únicas. O passado é extremamente importante em todos os aspectos e para todas as personagens, que estão ligadas entre si mais do que são capazes de desconfiar. Segredos obscuros e mentiras permeiam a família, e a relação com os escravos piora a cada instante, ao passo que a fazenda passa por um momento economicamente falho. 


A história é bastante envolvente e rica em suspense, criando um clima de ansiedade crescente. Detalhes macabros são regra, e nada é sutil quanto a execuções, torturas e mortes. Para falar a verdade, os detalhes são um dos pontos mais fortes da história – visto que é um mito tão conhecido -, e dá uma veracidade surpreendente ao que nos é contado. As pontas não ficam soltas em momento algum, e questões simples que sempre foram dúvidas do consciente popular – como a origem de um nome – são explicadas com maestria.
A história trata de vingança, da forma mais sangrenta possível, e o desfecho é de deixar sem palavras. Muita manipulação e mentira acontece na história, por todos os lados – escravos e na família Cunha Vasconcelos -, e ao fim da história percebemos que nem tudo era aquilo que pensávamos. 


O passado se misturando ao presente, a sede insaciável dos escravos por liberdade e as mãos assassinas dos donos e peões da fazenda fazem dessa história uma reinvenção brilhante da nossa cultura desde sua raiz no passado. Não há nada nesse livro que não pareça real, e volto a dizer : o trabalho nos detalhes, por menores que fossem, dão muita força para essa história. Com certeza, é uma leitura indispensável, que veio em uma edição muito bem cuidada pela Faro Editorial, com ilustrações excelentes e detalhes lindos. Vale muito a pena.

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