23 julho 2018

[Resenha] O Jardim Das Borboletas


Sinopse: Quando a beleza das borboletas encontra os horrores de uma mente doentia. Um thriller arrebatador, fenômeno no mundo inteiroPerto de uma mansão isolada, existia um maravilhoso jardim. Nele, cresciam flores exuberantes, árvores frondosas... e uma coleção de preciosas 'borboletas': jovens mulheres, sequestradas e mantidas em cativeiro por um homem brutal e obsessivo, conhecido apenas como Jardineiro. Cada uma delas passa a ser identificada pelo nome de uma espécie de borboleta, tendo, então, a pele marcada com um complexo desenho correspondente.Quando o jardim é finalmente descoberto, uma das sobreviventes é levada às autoridades, a fim de prestar seu depoimento. A tarefa de juntar as peças desse complexo quebra-cabeça cabe aos agentes do FBI Victor Hanoverian e Brandon Eddinson, nesse que se tornará o mais chocante e perturbador caso de suas vidas. Mas Maya, a enigmática garota responsável por contar essa história, não parece disposta a esclarecer todos os sórdidos detalhes de sua experiência. Em meio a velhos ressentimentos, novos traumas e o terrível relato sobre um homem obcecado pela beleza, os agentes ficam com a sensação de que ela esconde algum grande segredo.

O que eu achei?
Há tempos um livro não me fascinava e me prendia tanto quanto “O Jardim das Borboletas” foi capaz, me deixando acordado uma noite inteira sem desgrudar os olhos da leitura.
A história é toda contada por Maya, uma das principais sobreviventes do cativeiro chamado Jardim, em um interrogatório que dura dias com FBI. Maya relata a sua maneira tudo o que viveu e vivenciou enquanto estava no Jardim, onde ela e outras tantas meninas eram chamadas de Borboletas pelo dono do lugar, o Jardineiro. Lá, elas recebiam tatuagens e novos nomes, ficavam isoladas no Jardim e perdiam todo o contato com suas vidas anteriores. Todas as suas lembranças eram suplantadas pela rotina dentro daquele lugar, e suas identidades eram substituídas por uma nova, de modo a se tronarem objetos de admiração e coleção do Jardineiro.
A história segue duas vozes narrativas que se alteram de momento em momento, indo do interrogatório às revelações e rememorações de Maya. O relatos são minuciosamente detalhados, e entregues da forma que Maya prefere entregar – ou acha necessário. Vemos como é o dia a dia, os hábitos, os deveres e direitos daquela confinada comunidade forçada de mulheres marcadas não só na pela, mas na alma pela traumática experiencia.
A escrita é direta e simples, não envolvendo termos complicados nem se estendendo demais em explicações que se tornam cansativas ou são desnecessárias na história. Tudo o que nos é contado, se observarmos bem, nos serve para montar o quebra-cabeça da personalidade de cada personagem envolvido nessa história. As mentes não são entregue a nós devidamente detalhadas, somos expectadores da história, retendo cada característica sobre os envolvidos para chegarmos às nossas próprias conclusões.
As personalidades são tão bem construídas que é impossível não se conectar com elas, principalmente com as vítimas – as Borboletas -, onde cada uma tem seu jeito único e pessoal de encara os acontecimentos, dando a história momentos diversos, e não somente deixando que Maya – nosso foco e voz principal – se torne a protagonista absoluta. Até mesmo os policiais conseguem ser admiráveis em suas arrogâncias e fraquezas. Aliás, até mesmo o Jardineiro consegue exercer algum fascínio sobre nós – longe de ser admiração pelo trabalho, mas algo como uma curiosidade mórbida.
A história trata bastante sobre identidade e os efeitos de traumas passados na pessoa que somos hoje, o que fica mais claro quando vemos as meninas no Jardim. Enclausuradas e obrigadas a conviverem com novos nomes, longe de tudo e todos que fazem – e fizeram – parte de suas vidas, agora elas precisam lidar, e tentar aceitar, a vida dentro daquele cativeiro que aos olhos, parece um pedaço do Éden. Mas que esconde morte e abusos por trás de suas portas, causado pelo Jardineiro e por seu filho mais velho, Avery.
O quão forte é a mente humana para superar e sobreviver a essa privação, que não é somente de liberdade e de escolhas, mas privação de si mesmas, proibidas de serem quem realmente são para se tornar uma outra pessoa, por obrigação? Será que a resiliência é a resposta? Será que uma Síndrome de Estocolmo resolveria tudo para as meninas? Será que a morte as tornariam “domesticáveis”?
As mulheres do Jardim, que cuidam umas das outras, conversam e desabafam entre si, encontrando ali um resquício de humanidade e comunidade, que está longe do habitual, mas que se torna imprescindível para o equilíbrio mental e emocional de cada uma. A normalidade, que vive somente em aparência, encontra na irmandade entre elas uma pequena esperança de que as coisas possem ficar mais fáceis de suportar – mesmo que acreditem jamais ser capaz de sair dali com vida. Acredita-se que uma das Borboletas já conseguiu escapas... seria isso um mito para manter a esperança viva dentro das mulheres dali, ou um fato alcançável por ela?
A história de “O Jardim Das Borboletas” nos mostra a mente humana nas situações mais extremas, expondo os traços da conduta humana mais sombria, em pessoas que poderiam ser tão comuns quanto as que nos cercam no dia-a-dia. Vemos como a obsessão é distorcida na mente daqueles que fazem o que é errado guiados por sentimentos que acreditam ser louváveis, como o amor.
Famílias, amigos, em quem se pode confiar? Para onde correr quando o medo de ficar é tão paralisador quanto o medo de tentar escapar, falhar e sofrer punições horríveis?
“O Jardim Das Borboletas” é um dos livros que mais me prendeu a atenção esse ano, com sua narrativa direta, uma atmosfera sombria e uma história absurdamente criativa e original, personagens ótimos, e uma mistura de drama, sarcasmo e ironia no ponto certo, fazendo com que a leitura não se torne cansativa – mas sem deixar de lado, em momento algum, o peso da história e dos acontecimentos. É também um dos livros mais visuais que já li, e enquanto lia, já imaginava quão incrível seria ver uma adaptação cinematográfica dele, com toques de “O Silêncio dos Inocentes” e “Um Olhar Do Paraíso”.
É um livro que precisa ser lido.

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