11 agosto 2018

[Crítica Musical] Vespertine

Longe da vulgaridade, 'Vespertine' traz a tona a sexualidade feminina de forma mística, envolvente, numa atmosfera que remete a pureza dos tons brancos, ao toque macio da neve, ao brilho dos cristais à luz do sol de inverno; a lealdade, o amor, o sexo, tudo isso traduzido no corpo de uma mulher que acaba de encontrar o amor de sua vida. Mesmo remetendo ao inverno, o álbum está longe de ser frio e inóspito. É quente e envolvente, como o calor de dois corpos entrelaçados.
Apesar do tema das composições, o álbum é, acima de tudo – e evoca – a pureza das relações humana mais amorosas. A neve presente no inverno, o branco das plumas do cisne – tudo é branco, alvo. Puro. Inocente em sentimento e intenção. O que há de mais puro do que o amor? Sexo aqui é a consequência do sentimento, onde a entrega do corpo – o nosso altar particular – é a mais alta prova de amor verdadeiro e de confiança. 'Vespertine' consegue ser, ao mesmo tempo, intimista e erótico.
E como citei o cisne, impossível não comentar sobre o famoso vestido de cisne que Björk vestiu na capa do álbum e no Oscar de 2001. Talvez uma de suas aparições mais marcantes para o grande público. O cisne, um animal monogâmico, leal até a morte do parceiro(a) que escolheu para passar o resto de suas vidas. Além disso, há uma referencia fortíssima à “Leda e O Cisne”.
A maioria das composições desse álbum seguem o conceito de entrega física ao ser amado. O sexo mesmo, le coïte. Pode parecer algo vulgar, obsceno, mas há tanto lirismo e poesia nas composições, que acredito jamais ter ouvido músicas sobre esse tema serem tão sutil e realmente românticas como são aqui. Um exemplo óbvio é a faixa 'Cocoon', que é cantada quase em sussurros ofegantes, orgásticos. Nunca o sexo foi tratado com tanto cuidado, com tamanha sutileza. É tudo ao mesmo tempo incrivelmente físico e extremamente sensorial.
Faixas como a emblemática 'Pagan Poetry' evocam a intimidade, enquanto 'Hidden Place' traz os anseios dos flertes e o desejo de intimidade; 'Unison' que abandona a confortável vida solitária em troca de uma vida em conjunto. Enfim, a descoberta do sentimento em todas as suas vertentes são abordadas nas letras.
A descoberta do amor, o caminho de apaixonar-se até a entrega de corpo e alma, onde ficamos tão vulneráveis e pseudo-dependentes um do outro, que se faz tão necessário para nós, faz desse álbum uma linda carta de amor. A artista se desvelada em medos e amores; uma coletânea pessoal, com uma conversa consigo mesma ou com seu diário.
Seguindo o caminho oposto do mainstream, Björk fez uso de micro-beats e sons criados a partir de elementos caseiros, como o som de gelo sendo quebrado, além de caixas de músicas, daquelas que se dá corda mesmo, de tamanhos variados; e tons sussurrados em seu canto. Os instrumentos de corda são utilizados com maestria nesse álbum, dando uma sonoridade etérea. Dica: experimente ouvir de fone, equalizado no CLASSIC/CLÁSSICO.
A mistura da voz doce e juvenil – quase infantil mesmo – com a imagem da mulher apaixonada, de feminilidade transbordante, faz 'Vespertine' ter uma sensualidade quase pecaminosa, tornando hipnotizante, fascinante e viciante, do início ao fim.

TRACKLIST:

01. Hidden Place
02. Cocoon
03. It's Not Up To You
04. Undo
05. Pagan Poetry
06. Frosti
07. Aurora
08. An Echo, An Stain
09. Sun In My Muth
10. Heirlroom
11. Harm Of Will
12. Unison

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