17 maio 2018

[Crítica] Dançando No Escuro

!!ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS!!!


Selma Jezkova (Björk) é uma mãe-solteira tcheca que foi morar nos Estados Unidos. Ela tem uma doença hereditária que a faz perder a visão, algo que também deverá acontecer um dia a seu filho Gene (Vladan Kostig), um garoto de doze anos. Entretanto, em virtude de saber que existem médicos nos Estados Unidos que podem operar seu filho isto foi o suficiente para fazê-la imigrar para o país. Ela trabalha muito duro e guarda tudo o que ganha para a cirurgia do filho. Bill (David Morse) e Linda (Cara Seymour), seus vizinhos, juntamente com Kathy (Catherine Deneuve), uma colega de fábrica, a ajudam no que é possível, mas quando Bill se vê em dificuldades financeiras rouba o dinheiro que Selma tinha economizado duramente. Este roubo é o ponto de partida para trágicos acontecimentos.

O que eu achei?
Abandonai toda esperança vós que entrais”. Essa frase está escrita na entrada do Inferno, em "Inferno", de Dante Alighieri, mas acho que esse seria um aviso justo para se dar à quem for assistir “Dançando No Escuro”, filme de Lars von Trier. Hoje completa-se 18 anos desde que o longa estreou em Cannes, e colecionou grandes críticas e indicações a prêmios importantes, então por isso me atrevi a escrever uma crítica sobre o filme. E sim, a primeira frase é um aviso.
O filme faz parte de uma trilogia temática dos filmes de Lars von Trier – da qual eu nada sei pois, confesso, assisti “Dançando No Escuro” única e exclusivamente por causa de Björk, ou seja, falarei da minha experiência e do meu entendimento do filme. Mas sigamos.
O filme gira em torno de Selma, Kathy e Bill. Selma, que está ficando cega devido uma doença degenerativa e hereditária, trabalha incansavelmente para juntar dinheiro e operar a visão do filho, mas sem ele saber de nada. E ninguém desconfia que ela está perdendo a visão. Kathy (Cvalda) é sua melhor amiga, com quem trabalha. Bill, policial na cidade, aluga o trailer onde Selma e seu filho moram. Até aí é uma história simples, de uma mão batalhadora e tudo mais. Mas o filme explora isso de uma maneira mais cruel... e musical.
O longa é um drama musical, diferente de tudo o que eu já vi na vida. A união entre drama e musical funcionou perfeitamente, dando uma carga emocional ainda maior às cenas e a história. Eu já conhecia toda a trilha sonora, composta por Björk e alguns colaboradores, mas vê-las e ouvi-las em cena deu todo um novo significado para as letras – apesar de uma ou outra terem algumas diferenças. Mas bem, como funciona esse duo drama-musica? Normalmente musicais possuem uma quebra de momento onde a musica surge como um dialogo, um momento de animação geral ou algo assim meio sem sentido e espontâneo – pelo menos para mim. Mas não neste filme.
Selma (interpretada por Björk), sempre fora apaixonada por musicais, e sempre sonhou participar de um – o que é muito bem explorado no filme, visando fazer um link emocional e pessoal importantíssimo. Todo o conceito de musical é ao mesmo tempo usado e destruído. Como? Bem, os musicais não surgem naturalmente, andando na rua, numa sacada a noite ou algo do tipo. São devaneios que somente Selma vivencia, mesmo que pareça que todos ao seu redor compartilhem daquele momento. É tudo imaginação. Porque? Selma explica:

“Às vezes eu me imagino em um musical, porque em um musical, nada de horrível jamais acontece.”
A música e a dança são as válvulas de escape encontradas por Selma para impedir que a tristeza e a melancolia tomem conta dela; para impedir que a realidade aparentemente desesperançosa a derrube. Selma luta com todas as forças para trabalhar e juntar dinheiro para operar o filho que carrega a mesma doença que ela, e ao mesmo tempo esconde que está ficando cega. Ela carrega responsabilidades, carrega mundos sozinha, sem compartilhar o peso com ninguém. Até certo ponto... Bill, lembra dele? Ambo são bem próximos e passam a compartilhar segredos, e aprofundam o nível de confiança entre eles, onde Selma confia cegamente em sua amizade, e lhe promete guardar seu segredo eternamente. Esse é o plot-twist mais doloroso que já assisti.
O desespero é uma das peças principais desse filmes, não importa de onde ou de qual forma ele surja no indivíduo. Mas junto disso, há uma sede de justiça, de fazer o certo e fazer dar certo. A tristeza constante contrasta com a esperança que brota tímida, aqui e ali, em possibilidades que darão certa calma a quem assiste. Além disso, mesmo a introspectiva e sonhadora Selma possui pessoas dispostas a grandes sacrifícios por ela, tal como ela se sacrifica pelo seu filho. Basicamente, é um filme sobre lutar por alguém. Mas longe de ser o drama que acalenta corações e amolecem almas.
A traição aqui vira a vida de Selma de cabeça para baixo, fazendo com que ela vá presa. Mais uma vez, Selma, que tudo fez para ajudar e apoiar os outros, os amigos em quem ela confiava, se encontra entregue nas mãos sujas de um destino sádico. E a esperança é como um bumerangue que demora cada vez mais para voltar.
“Dançando No Escuro”, como já disse, não tem piedade. A história é repleta de tragédias pessoais, e o fato das cenas musicais acontecerem quando acontecem, e da forma que acontecem, torna tudo ainda mais doloroso para quem assiste. O filme tem uma iluminação parca durante a maioria das cenas, mas nos momentos musicais do filme, há muito mais brilho; há sorrisos e danças e alegria. O contraste entre a realidade e o delírio musical expõe de forma ainda mais nítida a melancolia agressiva que cerca toda a atmosfera desse filme, de forma quase angustiante.
As letras das musicas, compostas especialmente para o filme, acertam em cheio na mensagem que precisam passar, e em alguns momentos, conseguem unir o estilo musical clássico ao estilo único da Björk – quem conhece, sabe do que estou falando. Enquanto eu assistia, lembro de pensar que um musical comum, qualquer um desses famosos, poderia existir facilmente sem as músicas. Mas “Dançando No Escuro” não. Os atos musicais são tão importantes para esse filme e para a construção de toda a história da protagonista do ponto de vista emocional, que de nada valeria não tê-las no enredo.
Os momentos finais do filme são, sem dúvidas, os mais angustiantes que já vi – e olha que assisti “Mãe!”. Selma teve o poder de se livrar de uma acusação criminal, e tudo o que ela precisava era contar um segredo. Um segredo que poderia mudar tudo. E o que ela escolhe? Ela escolhe ser fiel a sua palavra, ser fiel à sua amizade. Ser fiel a quem ela realmente é. Na cadeia, por vezes ela se encontra desamparada, pois o silêncio é extremamente opressor. Veja, nas cenas musicais, sempre havia algo fazendo algum barulho em algum lugar, e Selma tirava dali a música, dando início aos seu delírios. Na cadeira, o silencio a feria, roubava seu único prazer. Não era a falta de liberdade que mais a torturava, mas a falta de música, fazendo com que a tristeza viesse contra ela com toda a força.
Confesso que quando assisti ao filme completo, eu já sabia de toda a história e, de toda trilha sonora e principalmente, do final. Contudo, nada disso havia me preparado para essa trajetória. A cena final desse filme talvez seja... não, É o final mais triste que eu já assisti em um filme. E é impossível para de pensar nele, de tentar entender o porque daquilo ter acontecido quando haviam maneiras de impedir aquele desfecho. Mas aí é que está a grandiosidade do filme. É nesse momento que nos questionamos se realmente acabou ali. Mas será que acabou?
Selma fez acontecer o que ela tanto sonhou, mesmo que tanto desastre tenha acontecido na vida dela e na dos outros ao seu redor. Será que foi realmente um fim trágico? Eu confesso que ainda não sou capaz de responder a isso, mas cada vez que ouço a última canção do filme, e vejo a última frase surgir na tela, fica cada vez mais fácil tentar entender.
“Dançando No Escuro” e a trajetória da mãe que faz de tudo e se sacrifica ao máximo pelo bem de seu filho, sem dúvida foi um dos filmes mais difíceis de assistir, e realmente não o recomendo para quem tem estomago fraco. Ele vai te bater, brincar com seus sentimentos e te enganar do início ao fim, enfeitando aqui e ali para te distrair enquanto te leva a inevitável forca emocional. Mas, sem dúvidas e sem medo, digo: é um dos melhores filmes que eu já assisti em toda a minha vida – mas que provavelmente não assistirei outra vez por um longo tempo.
Mas, quem for assistir, certifiquem-se de que assistam uma versão em que as músicas sejam legendadas, pois elas são essências.
Mas não se esqueçam do aviso dado lá no início.

"Dancer In The Dark" trailer

Obs.: preciso dizer que:
1) a atuação da Björk é devastadora, emocionante, inacreditavelmente perfeita
2) A trilha-sonora é uma obra de arte!

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