17 novembro 2017

[Resenha] Tartarugas Até Lá Embaixo

A história acompanha a jornada de Aza Holmes, uma menina de 16 anos que sai em busca de um bilionário misteriosamente desaparecido – quem encontrá-lo receberá uma polpuda recompensa em dinheiro – enquanto tenta lidar com o próprio transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Repleto de referências da vida do autor – entre elas, a tão marcada paixão pela cultura pop e o TOC, distúrbio mental que o afeta desde a infância –, Tartarugas até lá embaixo tem tudo o que fez de John Green um dos mais queridos autores contemporâneos. Um livro incrível, recheado de frases sublinháveis, que fala de amizades duradouras e reencontros inesperados, fan-fics de Star Wars e – por que não? – peculiares répteis neozelandeses.
O que eu achei?
John Green faz parte de uma gama não tão extensa assim de autores que eu teimo em desdenhar. Com o passar do tempo e dos afetos, seus livros me parecem mais distantes, como se a cada momento o fio que me liga àquela história estivesse sendo puxado de mim. Tenho consciência de que amo sua escrita; sua forma de expressar sentimentos, angústias e desejos me encantaram e continuarão encantando, porém uma coisa inerente a mim — ficcional, como diria Aza — me afasta de aceitá-lo plenamente em minha vida. Ele não é o único, claro, mas é aquele cujas palavras me inspiraram a finalmente pôr para fora esse sentimento. Dito isso, vamos ao que interessa:

Com a notícia do desaparecimento do bilionário Russel Picket, Aza Holmes (sim, numa referência ao lendário detetive que sofria do mesmo distúrbio que Aza), que na infância fora amiga do seu filho Davis, decide, junto de sua melhor amiga Daisy, investigar o sumiço do empresário, cuja recompensa por qualquer informação é de cem mil dólares. Para por as mãos nessa dinheirama, ela precisa se reaproximar de Davis e, no meio disso, lutar contra o TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo), que lhe arrebata com pensamentos indiferentes à sua vontade e giram ao seu redor como numa espiral que nunca acaba, apenas se afunila infinitamente.

Tartarugas Até Lá Embaixo é, sem sombra de dúvidas, seu livro mais bem escrito. Suas metáforas, sempre tão profundas e vívidas, encontram seu ápice. Mesmo depois de tantos livros lidos e tantos estilos diferentes de autores experimentados, ainda me surpreende como ele consegue se expressar tão crua e profundamente numa linguagem tão simples e direta. Suas palavras criam muito mais do que um simples canal entre o autor e o leitor, criam uma conexão.

A imersão na cabeça de Aza é surreal, assustadora até. Ela não tem controle sob seus pensamentos. É como uma voz que desbanca a razão e a força a cometer atos autodestrutivos, como abrir uma mesma ferida incansavelmente e, quando ao extremo, ingerir álcool em gel para uma limpeza mais “profunda”. Se sua mente fosse um globo de neve, seu dono seria um menino atentado viciado em sacudi-lo sem parar. O modo como John aborda a doença mental de Aza (e, subsequentemente, a dele mesmo) e como estamos constantemente acompanhando a narrativa sob seu ponto de vista tão único é digno apenas de alguém que sabe do que está falando. É seu livro mais particular, mais intrusivo.

Característico de suas histórias, o humor (sensacional, diga-se de passagem) fica por conta de Daisy. Escritora de fanfics de Star Wars — especificamente de Chewie e Rey; tão improvável e tão incrível ao mesmo tempo —, ela traz um tom necessário para balancear a situação desesperadora da protagonista ao mesmo tempo em que contribui imensamente para sua jornada. Em dado momento, o relacionamento das duas sofre um abalo que me parecia irreparável, porém, juntas, conseguem tornar o elo que possuíam ainda mais poderoso.

De todos os relacionamentos já explorados por John, o de Aza e Davis, que se aprofunda mediante a conclusão iminente do sumiço o ricaço, talvez seja o mais verdadeiro. Enquanto Hazel e Gus e Gordo e Alaska são elementos que contribuem para a excentricidade sempre explorada em suas histórias, Aza e Davis possuem raízes mais profundas no chão. A bizarrice os rodeia, não os possui, de modo que a união dos dois é dada pela calmaria, pelo conforto que um sente na presença do outro; mesmo que a doença de Aza ponha-se como obstáculo sempre que possível.

Algo que amo em suas narrativas é como ele não se contém a fim de que todos o compreendam. Ele não subestima seu leitor. No meio de um mar de autores que olham para o YA como um gênero em vez de um nicho onde os personagens encontram-se numa determinada faixa etária, John Green traz para o público mais jovem tópicos que já deveriam estar sendo discutidos há muito tempo. Por mais que tentem abafá-lo, saúde mental é um assunto de importância tão relevante quanto uma ferida exposta; se não até mais, e os jovens tem todo o direito de saber.

Preciso admitir que quando John anunciou que talvez nunca mais publicasse outro livro depois do desespero causado por A Culpa É Das Estrelas, fui cético. Para mim mais parecia uma jogada de marketing para manter o público gritando incessantemente por alguma novidade; e uma parte de mim ainda acha isso, embora tenha consciência do quanto a ansiedade deve tê-lo abalado durante o processo de escrita desse livro. Como fã — mesmo que ingrato — eu esperava um bom livro, mas não estava pronto para o baque avassalador que foi essa leitura. Cheio de frases inspiradoras (eu estava com minha cartela de post-its cheia quando comecei e, no fim, tinha alcançado alerta vermelho), personagens que transbordam sentimento e muita sinceridade, Tartarugas Até Lá Embaixo agora torna-se meu novo livro favorito do John Green e umas melhores leituras desse ano.

5 comentários

  1. Olá! Uau, adorei a resenha, foi mais um estímulo para iniciar a leitura do livro o quanto antes, gosto bastante da escrita do John e tenho cada vez mais certeza de que vou amar esse livro.

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  2. Também tenho essa sensação com os livros do John, muito embora a escrita seja boa, algo na história não encaixa.
    Mas, definitivamente Tartarugas... veio para mudar isso,também porque ele demorou tanto pra escrever seu próximo livro, que não era de se esperar pouca coisa e, que ele continue nessa linha, espero mais e mais livros!
    Percebi que esse livro é bem real o que me cativou ainda mais. Já quero acompanhar a trajetória da Aza e, a proposta do que o livro vai nos apresentar,uau, me deixou muito intrigada!!! Resenha maravilhosa!

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  3. Oi Julio.
    Eu gosto da escrita do John Green, mas também acho que tem algo que não se encaixa nas suas histórias. Acho que não consigo sentir total empatia pelos personagens.
    Ainda não li Tartarugas até embaixo, e até estava desanimada para ler algo dele, já que sempre saía um pouco frustada depois de ler seus livros. Mas, depois de ler a sua resenha e ver que você tem um ponto de vista parecido com o meu, animei de ler esse novo livro.
    Espero gostar muito dele e que ele se torne meu favorito também.
    Bjs

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  4. Ah, gente... fui no evento de lançamento do livro e me apaixonei pela história. Ainda não li o livro todo, mas já me apaixonei pelo pouco que li. E é isso mesmo, o John me surpreende pela como forma ele se expressa, isso me faz ficar completamente ligada na sua escrita. As frases... fazem a gente parar a refletir para valer. Um dos seus melhores trabalhos.

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  5. Acabei de ganhar o livro, e assim que recebê-lo, ele com toda certeza vai furar a fila imensa de não lidos, rs. Virou prioridade.

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