[News]Os caminhos de volta: atividades de arte e música integram trabalho com pessoas em situação de rua no Centro do Rio
Os caminhos de volta: atividades de arte e música integram trabalho com pessoas em situação de rua no Centro do Rio
(foto: Alexandre Loureiro) - Recomeçar é Possível (RéP): atividades artísticas para a população em situação de rua
Na Rua do Senado, localizada no Centro do Rio de Janeiro, eleita pela revista britânica Time Out como a rua mais “cool” do mundo em 2025, um grupo se reúne semanalmente para pintar, cantar e falar sobre a própria vida. Para alguns, é a primeira vez, em muito tempo, que existe um compromisso fixo ao longo da semana. As atividades fazem parte do Recomeçar é Possível (RéP), projeto realizado pela People’s Palace Projects do Brasil e pelo Instituto LAR, em parceria com a Petrobras, voltado ao acompanhamento de pessoas em situação de rua nas regiões do Centro e da Lapa.
A iniciativa reúne diferentes frentes, que vão do acesso a documentos e serviços a ações voltadas à geração de renda. Entre as atividades oferecidas, a oficina de arteterapia e o Coral RéP passaram a concentrar parte dos participantes nos primeiros meses do projeto na sede do Instituto Lar.
Os grupos têm cerca de 20 pessoas e funcionam em ciclos de três meses, com encontros conduzidos pela arteterapeuta Regina Teixeira e pelo regente Ricardo Branco. Segundo a coordenação, boa parte dos participantes chega por indicação de quem já frequenta o espaço.
“A rua tem sua própria forma de se comunicar. A comunicação da rua para a rua tem muita potência e, muitas vezes, funciona melhor do que os meios digitais”, afirma Ana Paula Rios, coordenadora do RéP.
Na oficina de arteterapia, os encontros giram em torno de atividades de desenho, pintura e escrita, combinadas com momentos de conversa. A proposta é criar um espaço contínuo de convivência, no qual todos possam se expressar e acompanhar o próprio processo ao longo do tempo. Segundo a arteterapeuta Regina Teixeira, os participantes apresentam respostas consistentes e relatam sentir-se mais seguros para reivindicar seus direitos.
Regina Teixeira diz, ainda, que as mudanças aparecem de forma gradual. Ela cita o caso de um jovem de 27 anos que chegou calado e tinha dificuldade para falar em público. “Ele participava de tudo, mas evitava falar. Aos poucos, começou a comentar o que fazia e a mostrar as poesias que escrevia. Depois voltou a estudar e conseguiu um emprego”, conta. Os encontros da oficina promovem o fortalecimento da autoestima, da memória e da atenção, aspectos reconhecidos pela Organização Mundial da Saúde e incorporados também pelo Sistema Único de Saúde como fundamentais para a saúde integral.
Já o Coral RéP mobiliza a música como linguagem coletiva de pertencimento. O grupo trabalha a voz como instrumento de expressão emocional, disciplina e convivência. As reuniões envolvem exercícios de voz, ensaio em grupo e a construção de repertório. Ricardo Branco afirma que a continuidade é um dos pontos centrais. “O grupo cria um compromisso. A pessoa passa a se organizar para estar ali, a não faltar, a acompanhar o processo junto com os outros”, diz.
Criado em dezembro de 2025, o Coral RéP está se preparando para fazer sua primeira apresentação pública no segundo semestre.
No cotidiano, o principal desafio é manter a regularidade da participação e garantir continuidade no acompanhamento. “A maior dificuldade, para nós, como profissionais, é fazê-los seguir em frente e se sentirem acolhidos no espaço, com cuidado, escuta, com relações afetivas e de confiança para que possam expressar suas dores, sentimentos, estratégias de sobrevivência e potencialidades”, explica Regina.
O regente Ricardo Branco complementa: “Eles enfrentam conflitos bem delicados ao longo do dia. Muitas vezes, a pessoa até esquece da atividade diante de tantas tribulações e dificuldades. Tentamos fazer eles perceberem que aquelas duas horas que passam conosco serão muito importantes na vida deles. Às vezes, a pessoa precisa de um farol que sinalize algo diferente. Esse é o nosso papel”.
O RéP tem duração prevista até 2028 e pretende atender 1.550 pessoas em situação de extrema vulnerabilidade, entre participantes contínuos e eventuais.
A escala, no entanto, ainda é limitada diante do tamanho do problema. Dados recentes indicam crescimento da população em situação de rua no país, com forte concentração em áreas centrais. No Rio de Janeiro, levantamento do Data Rio aponta maior presença na região Centro-Lapa, com mais de 1.500 pessoas nessa condição, seguido por bairros como Botafogo e Copacabana.
Para Ana Paula, o trabalho exige tempo e constância. “O enfrentamento da situação de rua não acontece de uma vez. É um processo que precisa de continuidade”, afirma.
No Instituto LAR, os encontros seguem acontecendo toda semana. Para quem participa, o compromisso seguinte já tem dia e hora marcada.
O Projeto Recomeçar é Possível (RéP) é uma realização da People’s Palace Projects do Brasil e do Instituto LAR, em parceria com a Petrobras, organizações com atuação reconhecida nas áreas de cultura, direitos humanos e inclusão social.

Instagram: @recomecarepossivel.rep
Site (em construção): www.repbrasil.org
Doações, voluntariado e parcerias
Ana Paula Rios (Coordenadora de Projeto) - ana.rios@repbrasil.org
Localização:
Instituto LAR - Rua do Senado, no 200, sobreloja 202, Centro, Rio de Janeiro-RJ
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