[News] Entre o frevo e o forró: Paulo André Souza reflete sobre identidade e tensão no Nordeste em “Frevo noir”
Em diálogo com o calendário junino, obra discute como as grandes festas populares revelam tensões sociais e disputas simbólicas no Nordeste
Em meio ao calendário junino, quando o Nordeste reafirma suas tradições culturais através do forró, das quadrilhas e das celebrações populares, o escritor pernambucano Paulo André Souza propõe uma reflexão literária sobre a estética da festa e suas contradições em Frevo noir (Editora Mondru, 118 págs.). Embora ambientado no Carnaval do Recife, o livro dialoga com um debate mais amplo sobre identidade nordestina, pertencimento e desigualdade social.
Nos 16 contos divididos em quatro partes (Pulsação 1, 2, 3 e 4), o Carnaval surge como dispositivo narrativo para revelar tensões sociais, psicológicas e existenciais. A festa, longe de ser apenas celebração, aparece como espaço de resistência simbólica, mas também como máscara que encobre violências estruturais. “Frevo noir é uma ode à contradição. São personagens em rito de expansão ou de fuga, numa cidade que os sufoca. Os crimes, as paixões e os mistérios são estados da existência em que esse paradoxo melhor se revela”, explica o autor.
Ao tensionar o imaginário da alegria nordestina, Paulo André constrói um Recife que pulsa entre festa e ruína, tradição e modernidade, pertencimento e exclusão. A obra dialoga com a cultura popular — do frevo ao manguebeat — e amplia o olhar sobre o Nordeste contemporâneo, aproximando literatura, música e crítica social.
O livro se destaca por diálogos irônicos, atmosfera existencialista e referências à cultura pop — de Hilda Hilst a Pink Floyd, passando pela filosofia de Nietzsche. Em “Mapas de mergulho para ogivas nucleares", o humor surge como forma de suavizar uma situação potencialmente catastrófica; já em “O filósofo e o homem da meia-noite”, o jazz se torna ponto de partida para reflexões filosóficas sobre a vida.
Segundo a escritora Conceição Rodrigues, que assina o texto de orelha, Frevo noir é “pop e vanguarda, ironia e lirismo”, conduzindo o leitor por um universo de “amores crus, trapaças, cobiça, grito e omissão, alegrias e sombras”.
Formado em Direito e especialista em Ciências Criminais, Paulo André também cursou extensão em Escrita Criativa na PUCRS e integrou a oficina literária de Raimundo Carrero, no Recife. Entre suas influências literárias estão o próprio Carrero, Machado de Assis, Rubem Fonseca e Ana Paula Maia. A obra também bebe nas tintas de letristas da música — de Luiz Gonzaga a Engenheiros do Hawaii e Chico Science & Nação Zumbi — e do cinema de Hitchcock, Tarantino e Kleber Mendonça Filho.
A estreia inaugura o que o autor projeta como uma trilogia de contos. “Escolhi o conto, porque talvez seja a forma mais desafiadora e ao mesmo tempo repleta de atalhos para iniciar a busca de novas dúvidas para a existência. Novas dúvidas e novos mundos possíveis”, afirma.
Confira trechos de dois contos de Frevo noir:
“Vomitou a sentença assinalando guimbas de aço no cinzeiro que o maître acaba de trazer. [...] Ele pisca os olhos na minha direção, pede outra garrafa de vinho e diz, quase um sopro, velhinho, vá em paz, tá tudo bem. ”
(trecho do conto “A ética de Sade”)
“Vou atrás de quem? Meu rumo é o prédio. Minha abstração recende a manga suculenta. Cheiro de manga caindo e cerveja. Cornetas e batuques se apagavam virando cantinela de remotos estertores. [...] Só o frevo ecoando seus passos intitulados ferrolhos, tesouras, dobradiças, parafusos. ”
(trecho do conto “Admiro claraboias em simetria com o chão”)
Adquira “Frevo noir” pelo site da editora Mondru:

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