[News] No Mês do Orgulho, conheça Flávia Iriarte: a editora LGBT+ que formou 8 mil escritores agora estreia no romance
Fundadora da Carreira Literária e responsável por mais de 320 autores publicados, Flávia Iriarte transforma experiência traumática no Camboja em uma tragédia contemporânea sobre privilégio, violência e consciência moral
Durante mais de 15 anos, Flávia Iriarte esteve nos bastidores do mercado editorial brasileiro. Orientou mais de 8 mil escritores, publicou 320 autores por sua editora, coordenou a implementação de uma pós-graduação em Escrita Criativa e se tornou uma das principais vozes na formação de novos autores no país. Agora, aos 40 anos, ela ocupa um lugar diferente: o de romancista.
Com Instruções para desaparecer devagar (Faria e Silva), Flávia estreia no romance e inverte a lógica a que está acostumada — deixa de orientar escritores para responder sobre a própria obra. E o que a move não é uma reflexão sobre o mercado editorial, mas uma pergunta incômoda: é possível que a consciência do privilégio produza mudança real ou ela resulta apenas em culpa mal elaborada?
Carioca radicada em Brasília, formada em Cinema pela UFF e mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio, Flávia partiu de uma experiência pessoal para construir a narrativa. Em 2016, durante uma viagem ao Camboja, foi parar em uma pousada em ruínas, sem tranca na porta, temendo pelo que poderia acontecer. “Acho que toda mulher conhece esse estado. A sensação de que o perigo está sempre à espreita, de que a qualquer momento pode acontecer algo que não vamos conseguir evitar. ”
Romance revela o medo que molda mulheres desde cedo
Essa sensação atravessa o romance, que conta com textos de blusas das escritoras Bruna Maia e Carola Saavedra. A trama acompanha Alice, jovem branca e rica, atravessada por uma culpa difusa em relação aos próprios privilégios, e Bárbara, colega de classe vinda da periferia, convidada para uma viagem bancada pelo pai de Alice. O que começa como tentativa de reparação simbólica se transforma em um confronto silencioso entre as duas, até que um episódio violento as obriga a encarar aquilo que preferiam não nomear.
Mais do que um thriller psicológico, a autora define a obra como uma “tragédia contemporânea”. O romance dialoga com a estrutura clássica definida por Aristóteles (o erro trágico, a peripécia, a queda), mas a transplanta para um universo onde o destino não é ditado pelos deuses, mas pelas forças sociais do capital, do gênero e do privilégio. “O romance se apoia na estrutura trágica, mas atualiza isso para um mundo em que o destino já não é mais imposto pelos deuses, e sim pelo próprio indivíduo, produto do seu lugar de classe, gênero e raça”, explica a escritora.
A amizade entre mulheres, frequentemente romantizada sob o signo da sororidade, é tratada aqui como território de tensão, hierarquia e silenciamentos. “A categoria mulher é importantíssima, mas como toda categoria ela esconde as nuances do grupo que abarca. Uma mulher pobre enfrenta desafios diferentes de uma mulher rica. Uma mulher pobre e negra enfrenta desafios diferentes de uma mulher rica e branca. Ainda que todas enfrentem desafios semelhantes pelo fato de serem mulheres. Essas desigualdades colocam tensões. ”
Para abordar esses conflitos, a autora opta por uma escrita seca e deliberadamente contida. “Eu tento evitar o encantamento excessivo da linguagem e buscar uma escrita mais direta, que permita acessar as ideias sem tantos rodeios. ” Entre as influências citadas estão o cinema de Michael Haneke e os romances de J.M. Coetzee, Elfriede Jelinek, Ottessa Moshfegh e Arnon Grunberg.
Há também uma decisão ética que moldou o desfecho do romance. A primeira versão terminava logo após a cena mais violenta. Flávia reescreveu. “Eu não queria que as minhas personagens permanecessem aprisionadas naquele episódio. Era importante que elas tivessem a chance de retomar a própria narrativa, de falar, de interpretar o que aconteceu com elas. ”
Do bastidor ao centro do debate
Com ampla visão do setor, mantém uma leitura crítica do mercado editorial brasileiro. “Os grandes grupos editoriais brasileiros pertencem, em sua maioria, a famílias ricas há gerações no eixo Rio–São Paulo. Algo semelhante acontece com as grandes empresas de comunicação, que também concentram o poder de decidir o que aparece e o que não aparece no debate público. Em outras palavras: ainda há muito poder nas mãos de poucas pessoas. ”
Ao mesmo tempo, reconhece mudanças importantes. “Hoje existe uma quantidade muito maior de editoras independentes do que havia vinte anos atrás. Casas pequenas, como a Oito e Meio, que ajudam a ampliar a diversidade de vozes presentes no mercado. E iniciativas como o Carreira Literária também surgem nesse contexto, tentando deslocar a ideia de que a atividade literária é um espaço natural de poucos iniciados. ”
Para ela, a passagem da edição para a ficção não é ruptura, mas consequência. “Antes de ser escritora sou — em primeiro lugar — leitora, depois, editora, professora de escrita criativa. Escrever é só uma consequência disso. ”
Com Instruções para desaparecer devagar, Flávia Iriarte passa a ocupar também o centro da cena literária contemporânea brasileira. E já trabalha no próximo projeto: um romance sobre três amigos de escola marcados por uma tragédia comum e pela impossibilidade de obter todas as respostas. “É uma história sobre precisar aceitar que não teremos respostas de tudo. ”
Sobre Flávia Iriarte
Flávia Iriarte é carioca, radicada em Brasília, formada em Cinema pela UFF e mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. É editora, mentora de Escrita Criativa e fundadora da escola online Carreira Literária, uma das principais formações de escritores do Brasil. Criou a Editora Oito e Meio em 2010, pela qual já publicou mais de 320 autores. Coordenou a pós-graduação em Escrita Criativa Da Uniítalo/NESPE, onde ainda leciona. Foi uma das vencedoras do Prêmio Jovens Talentos da Indústria do Livro em 2016. É autora do livro de contos todo homem naufraga (Oito e Meio) e do romance Instruções para desaparecer devagar (Faria e Silva). Impacta diariamente mais de 100 mil escritores em suas redes sociais.

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