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[Resenha] A Morte Como Efeito Colateral

Sinopse: Em um futuro não muito distante, Buenos Aires tornou-se uma cidade violenta, dividida em zonas e fora do controle do Estado. Sob esse cenário tenebroso, Ernesto Kollody precisará aprender a conviver com seu pai doente e insensível, descobrindo, não sem certa dose de humor negro, um sopro inesperado de vida e otimismo. Em 'A Morte como Efeito Colateral\', Ana María Shua constrói uma inquietante narrativa sobre a finitude humana e a riqueza dos relacionamentos, tornando-se uma das vozes mais expressivas da nova literatura.

O que eu achei?
“A Morte Como Efeito Colateral”, de Ana María Shua, é um romance argentino que se passa em uma Buenos Aires do futuro, onde a sociedade está fortemente dividida entre ricos e pobres, e o crimes virou um hábito, e a segurança é um luxo.


A história foca nos personagens Ernesto e seu pai, além de Cora – irmã de Ernesto -, e sua mãe, numa narrativa feita por cartas que Ernesto escreve para sua ex – uma mulher casada com quem mantinha um relacionamento. Contudo, a história é mais uma analise da condição humana, sua perecibilidade e a importância dos relacionamentos.
Vemos a melancolia de um personagem preso a lembranças de um amor malfadado e ao controle de um pai grosseiro e manipulador, vivendo uma vida aparentemente medíocre, solitária e sem muita perspectiva. E tudo piora ainda mais quando é descobre que seu pai está com câncer. Mas a história, como muitas outras que apresentam a doença na sua narrativa, desvia enormemente do drama e vai em direção a analise comportamental e emocional.


A família de Ernesto, onde a dita normalidade não existe, e as amarras da opressão e manipulação constantes, além de chantagens e subornos emocionais, são regras de convivência, vemos como a mente do nosso narrador lida com toda essa carga emocional, tanto suas – do seu passado – quanto as novas, ligada ao tratamento do pai e a deterioração da relação intrafamiliar. É nítido que ele mostra características de uma pessoa que cresceu com privações emocionais, e hoje procura preencher o vazio de formas absurdas – como, por exemplo, escrevendo cartas para sua ex, cartas que jamais serão enviadas.


O livro tem um quê distópico, mas não futurista; é um pouco pós-apocalítico, mas não devastador – é um caos sócio-político. Várias criticas sociais e políticas são feitas aos costumes dos ricos e dos hábitos da alta sociedade, esbanjadores descontrolados que não medem esforços para mostrarem pompa. Há também críticas políticas, como é bem visto nas Casas – lugares para onde os mais velhos são enviados e ficam até a morte, o que gera lucro para a Casa, uma vez que o governo os paga por idoso, além da própria Casa vender os bens e a casa do paciente para obter lucros. São algumas realidades exageradas no meio dos hospitais e das casas de repouso – mas que não são tão absurdas assim, se analisarmos com cuidado.


Por ser uma história narrada em cartas, mesmo tendo diálogos, há uma certa monotonia durante a história, quebrada por alguns momentos de surpresa ou ação. A autora usou de um humor ácido na escrita em alguns momentos, com desabafos destemidos. Contudo, acredito que a história teria sido muito mais prazerosa de se ler se esse aspecto fosse explorado mais – e momentos para humor não faltaram.
No geral, a história nos serve como uma boa reflexão sobre os relacionamentos que cultivamos com nossa família – principalmente pais e irmãos e irmãs -, além do relacionamento com a finitude da vida, e o que isso significa para nós, e o quanto nos pesa. Mas ainda assim, a leitura não foi tão agradável quanto esperava que fosse.

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