07 julho 2017

[Resenha] Frida Kahlo: Para que preciso de pés quando tenho asas para voar?


Frida Kahlo, artista genial e mulher livre, recebe em sua casa Leon Trotsky, um dos líderes da revolução russa, forçado ao exílio após a ascensão ao poder de seu adversário Stalin. Até 1940, o político, a bela mexicana e seu marido, o grande pintor Diego Rivera, viverão uma aventura extraordinária, entre paixão e fúria, arte e política, risos e lágrimas. Três destinos que se cruzam para contar quatro anos de uma história que marcou profundamente o século XX.               

O que eu achei?

Sempre tive uma adoração subjetiva para com a Frida. Conhecia relativamente pouca coisa sobre ela, mas se alguém chegasse dizendo o quão maravilhosa ela era eu só concordaria irremediavelmente, então quando recebi essa HQ de parceria foi como se tudo se alinhasse para que eu finalmente tomasse vergonha na cara e fizesse uma pesquisa sobre sua vida. Feito isso, é bem triste ver o quanto sua imagem é usada apenas para unificar algo que não é realmente seu.

A história terá como contexto o exílio de Leon Trótski, cujo pensamento marxista era contraposto pelo de Stálin, líder da União Soviética, que ameaçou retirar apoio à Noruega se mantivesse-se abrigando o rosto do movimento trotskista, sendo assim ele viverá quase quatro anos no México, mais precisamente na casa de Frida e seu marido, e também artista, Diego Rivera.

Embora todo o período temporal em que o quadrinho se passe seja em si algo diferenciado em relação ao conteúdo biográfico da Frida — não é qualquer site que te dirá que ela conheceu ou até mesmo teve um romance com Trótski —, fora isso são apenas pincelados os pontos mais característicos de sua vida: suas limitações, como a poliomielite que contraiu quando criança e deixou sequelas em seu pé esquerdo e agrava-se até que ela precise amputar a perna por completo, seu relacionamento controverso com Diego e sua sexualidade fluida influenciada pelo próprio marido com quem possuía um relacionamento aberto, e sua dificuldade para engravidar, que culminou nos três abordos que sofreu ao longo de sua vida. Além disso, alguns de seus quadros mais famosos são retratados como pano de fundo de algumas cenas.

O problema é que essa história não é sobre Frida, mas sobre Trótski. Frida é usada apenas como fio que ata certos nós da história, a fim de preencher momentos onde nada relevante aconteceu no percurso de Trótski com algumas situações vividas pela artista: da subida gradativa de sua carreira como artista à exploração exagerada de sua libido. Há, facilmente, muito mais sexo que até mesmo diálogos interessantes nessa história; seja entre Frida e Diego, Frida e Trótski, ou de personagens que mal surgiram e já ganham cenas de sexo como se fosse algo relevante para o plano geral, sendo que eles estão ali apenas para complementar ainda mais o núcleo do Trótski.

Ambos, arte e roteiro (apesar de pipocarem alguns comentários ácidos bem interessantes sobre o contexto político), deixam muito a desejar. O traço é bagunçado e não exprime muita expressão aos personagens, que, por conseguinte, acabam se parecendo muito entre si; em diversos momentos tive que voltar alguns quadros para saber quem era quem durante a cena. Sem contar que muitos personagens são inseridos fora de contexto. As passagens de cena são muito abruptas, sem uma determinação muito clara de onde uma termina e a seguinte começa, sendo assim, num quadrinho vemos um diálogo entre Frida e Diego enquanto no seguinte já nós é apresentado um novo personagem que ainda não foi minimamente citado e espera-se que o leitor se vire para ambientar-se na situação.

A maior decepção é realmente procurar profundidade no quesito Frida Kahlo e receber um, mesmo que muito retratado, raso León Trótski. A imagem de Frida é, claramente, usada para instigar o leitor e, fora isso, de pouco substância mais serve, deixando-a de lado por muitas vezes para enfiar conflitos políticos que não a envolvem goela abaixo do leitor. O mais controverso é que ao fim é feita uma pequena sugestão de leituras sobre a Frida, quase como um pedido de desculpas pela falta de foco em sua memória, o que sustenta que os autores sabiam muito bem o que estavam fazendo e o fizeram mesmo assim.

Escrito por Julio Gabriel

5 comentários

  1. Oi Julio,
    Uma pena que não te agradou, fiquei desinteressada pois não se trata da história de Frida que com toda certeza faria valer a pena a compra dela.
    Beijos

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    1. Oi Aichha! Engraçado que se a proposta do quadrinho fosse a história do Trótsky e daí tivesse o envolvimento da Frida talvez até fosse bom, mas infelizmente não é o caso.

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  2. Esse livro parece ser muito bom...quando eu conheci no evento, eu fiquei hiper curiosa para ler...

    thebestwordsbr.blogspot.com.br

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    1. Oi Flavia! Por um lado é interessante, pois conta a história da revolução russa de forma resumida e relativamente fácil de entender, porém não é essa a proposta do quadrinho e é aí que a história se perde. Espero que você goste!

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  3. Também fiquei surpresa ao saber que ele não gostou mas quero ler assim mesmo.

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