20 abril 2017

[Resenha] Meio rei


Jurei vingar a morte do meu pai. Posso até ser meio homem, mas sou capaz de fazer um juramento por inteiro.

Filho caçula do rei Uthrik, Yarvi nasceu com a mão deformada e sempre foi considerado fraco pela família. Num mundo em que as leis são ditadas por pessoas de braço forte e coração frio, ser incapaz de brandir uma espada ou portar um escudo é o pior defeito de um homem. 
Mas o que falta a Yarvi em força física lhe sobra em inteligência. Por isso ele estuda para ser ministro e, pelo resto da vida, curar e aconselhar. Ou pelo menos era o que ele pensava. 
Certa noite, o jovem recebe a notícia de que o pai e o irmão mais velho foram assassinados e não lhe resta escolha a não ser assumir o trono. De uma hora para outra, ele precisa endurecer para vingar as duas mortes. E logo sua jornada o lança numa saga de crueldade e amargura, traição e cinismo, em que as decisões de Yarvi determinarão o destino do reino e de todo o povo. 
Joe Abercrombie nos apresenta um protagonista surpreendente, numa história de percalços e amadurecimento que abre a trilogia Mar Despedaçado.
O que eu achei? 
MEIO REI dá início a trilogia Mar Despedaçado, de Joe Abercrombie. Neste livro, conhecemos o jovem Yarvi, filho caçula do rei Uthrik e da rainha Laithlin, a rainha Dourada.
Nascido com uma deformidade em uma das mãos, Yarvi era motivo de piada no reino e fora, sempre diminuído pelos guerreiros e até mesmo pelo próprio pai, que o tinha como apenas “meio filho”. Era fisicamente fraco, mas extremamente inteligente, o que o fez escolher o caminho ate o Ministerio – uma especie de sábio e filosofo e braço direito do rei em suas escolhas e conselhos. Até que, uma noite, descobre que seu pai e seu irmão mais velho foram mortos numa emboscada, e ele é o novo rei. Ou meio rei...

A partir daí, seguimos lado a lado com Yarvi, um jovem tímido, estudioso, um pouco fraco para o posto ao qual foi forçado a tomar. De forma sarcástica e ácida, ele duvida de si mesmo, caçoa de si mesmo, achando graça de como o destino colocou ele, todo sem jeito e sem aprovação dos outros, no trono do rei. Seu pai, que nunca o apoiará estava morto; sua mão era fria e distante com ele. Seu único alento e conforto era seu tio, que o tratava como um filho.
Contudo, após ser coroado rei e sair em direção ao reino que trairá seu pai e o matará, e também ao seu irmão, Yarvi descobre que há muitos segredos escondidos nessas mortes, e não sabe mais em quem pode confiar.

A história envolve vingança, lutas, enganações e traições, mas ainda assim o autor conseguiu criar uma atmosfera descontraída em alguns momentos, deixando algumas situações tensas, levas e carismáticas, com personagens extremamente bem construídos e explorados durante toda a trajetória do livro, criando não só no protagonista, mas em muitos os que o cercam, o conceito de “herói pelo acaso”, criando laços de amizade e lealdade nos lugares e pessoas mais improváveis.

Yarvi é um personagem complexo, com sua personalidade juvenil no início, cheio de dúvidas e fraquezas, e total falta de confiança em si mesmo. O fato do autor tê-lo criado com uma deficiência aos olhos do leitor, o torna mais humano, ainda mais sofrendo com o preconceito de todos ao seu redor. Assim, Yarvi foge do protagonista otimista, feliz, egocêntrico e narcisista que é tão comum ultimamente: ele é pessimista, sarcástico, com uma mente afiada e desinibida. Mas, de forma espetacular, o autor conseguir criar uma linha de evolução e crescimento que em poucas vezes já vi em livros envolvendo protagonistas jovens: o amadurecimento de Yarvi é impressionante, onde a força bruta é o menos importante para a sua sobrevivência – sua extrema inteligencia é que faz toda a diferença, pois ele passa por momentos que sua vida fica por um fio, e neste primeiro livro seguimos com sua perspectiva e sua luta para vingar a morte de seu pai. Os personagens secundários são ricamente detalhados e explorados, dotados de um carisma ímpar – até mesmo os piores e mais cruéis – e extremamente importantes em todo o percurso da história e da trajetória de Yarvi, que, com sua mente sempre trabalhando nos detalhes e planejamentos minuciosos, pontos que aprendeu em seus estudos para Ministro, tem um plano para cada um que cruza seu caminho. Os aprendizados que obteve em seus estudos para o Ministério são de extrema importância em suas decisões e conduta, sendo ensinamentos filosóficos, e em alguns momentos dúbios, refletindo bem como seria a conduta de um conselheiro real quando é preciso tomar uma decisão difícil, polêmica, arriscada.
Lutar por vingança foi só o primeiro passo de Yarvi em direção ao trono. Durante o livro, ele enfrenta muitas batalhas decisivas, que irão moldar sua personalidade e consolidar sua força e determinação, percebendo que ele é capaz de muito mais do que jamais imaginará ser.

A escrita no geral é muito boa, a história não tem nenhum momento lento ou arrastado e o autor não perdeu tempo explicando excessivamente questões desnecessárias, cheia de momentos violentos, divertidos e descontraídos, e também momentos introspectivos e filosóficos, mostrando bem como os valores de um juramento e da moral eram importantes num mundo onde o respeito era obtido pela lâmina de uma espada. Vale super a pena tocar na questão mitológica que o livro criou, que é uma das mais encantadoras que já li, muito bem elaborada e explicada, beirando o lirismo e a poesia, tornando os mitos dos deuses extremamente envolvente.

Muitos pontos e momentos do livro estão de fora dessa resenha já que, ao meu ver, seria um pouco de spoiler – talvez não um muito sério, mas alguns momentos estão interligados a questões que estragariam algumas surpresas da trajetória de Yarvi. Mas para deixar claro, mesmo sendo nomeado rei, em nada melhorou a vida do jovem. Muito pelo contrário, ele sofreu como muitos reis indesejados sofreram...

As reviravoltas são estarrecedoras, te prendem na leitura de uma forma quase maníaca. É impossível conseguir decifrar o jogo e as manipulações que acontecem até que se termine de ler o livro. E o final consegue ser um dos mais surpreendentes que já, do tipo que tem que ler duas vezes pra ter certeza se o que tá escrito ali é verdade mesmo, se você está lendo aquilo mesmo...

3 comentários

  1. Irlan,preciso embarcar em histórias assim.
    São tramas bem diferentes das que habitualmente leio.

    O jovem Yarvi vai ter que aprender a deixar de lado suas próprias "fraquezas", para assumir o lugar de seu pai.Que convenhamos , o humilhou bastante!

    Assim como gostei também de saber que o livro não é parado. Possui uma novidade atrás da outra.
    E esse final me deixou curiosa!

    Gostei muito!

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  2. Irlan!
    Gosto dos livros de fantasia que vem com batalhas e lutas, jamais se tornam monótonos.
    E ver uma mitologia ilídica, romanceada, deve ser uma escrita agradável.
    Sem contar com o protagonista que se sente incapaz de ser rei por conta de sua deficiência.
    Gostaria de ler.
    Bom feriado!
    “Compreender que há outros pontos de vista é o início da sabedoria.” (Campbell)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP COMENTARISTA ABRIL especial de aniversário, serão 6 ganhadores, não fique de fora!

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  3. Nossa Irlan!
    Como ler essa resenha e não querer ler este livro! Me deixou super curiosa. Adoro quando o autor não fica enrolando e faz um livro cheia de ação e reviravoltas.
    Personagem como humor ácido e sarcástico também me encanta kkk
    Beijos

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