[News] Conativo, de Duque de Caxias, ocupa a CAIXA Cultural com obras que retratam o Rio de Janeiro que aparece no caminho
Conativo, de Duque de Caxias, ocupa a CAIXA Cultural com obras que retratam o Rio de Janeiro que aparece no caminho
Pão de Açúcar visto do Flamengo, a entrada de Imbariê pela Rodovia Rio-Magé, Avenida Brasil, Linha Vermelha e Baía de Guanabara estão entre os lugares retratados nas obras inspiradas na mobilidade urbana, nos trabalhadores informais e nas experiências de quem vive a periferia
Quem chega ao Rio de Janeiro vindo da Baixada Fluminense passa por paisagens que, de tão presentes no cotidiano, muitas vezes deixam de ser percebidas. São viadutos, rodovias, avenidas, linhas expressas, prédios e recortes da Baía de Guanabara que funcionam como verdadeiros marcos de entrada e passagem pela cidade. É justamente esse Rio dos deslocamentos que o artista visual Conativo destaca na exposição “Observe o Espaço-Entre”, em cartaz na CAIXA Cultural Rio de Janeiro. Nascido e criado em Imbariê, em Duque de Caxias, Conativo cria, a partir desses lugares, uma espécie de cartografia afetiva da Região Metropolitana: o Pão de Açúcar visto do Flamengo, a entrada de Imbariê pela Rodovia Rio-Magé, a Avenida Brasil, a Linha Vermelha, a Baía de Guanabara vista do Rio Sarapuí e paisagens de seu próprio território aparecem nas obras como referências de uma cidade que se revela não apenas como destino, mas também como caminho. A mostra reúne 16 obras e parte justamente da experiência de quem vive a Baixada e se desloca diariamente por esse território.
“Essa exposição nasce do ponto de vista e das experiências de quem vive na Baixada Fluminense. Eu sou um artista de Imbariê, em Duque de Caxias, e as pinturas falam de um deslocamento que faz parte da vida de muita gente daqui. Então acaba sendo simbólico também que as obras agora façam esse mesmo movimento, saindo de Duque de Caxias e chegando no Centro do Rio. E entrando em contato com pessoas que mesmo vindo de outros territórios compartilham de experiências parecidas”, conta o artista, que apresentou a mostra pela primeira vez, em sua cidade natal. Ele ainda participou de exposições coletivas como: “Casa Brasil, a Exposição”, “Terra e Território”, no Sesc Niterói; “COEMERGÊNCIAS” no Paço Imperial; “Bomba Relógio: a Resposta da Baixada” no Museu Ciência e Vida; e do Festival de Artes de Imbariê (FAIM). E no ano passado, também expôs na Art-Rio.
Graduado em Artes Visuais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), nascido e criado no bairro de Imbariê, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, Conativo desenvolve sua arte conferindo valor à história das pessoas de sua cidade em seu deslocamento diário em meio ao caos das ruas. Gratuita, acessível, com audiodescrição em todas as obras da exposição e placa tátil da obra “Vitral #1 Surfistas de Trem”, a exposição traz pinturas em que estão representados os trabalhadores informais, aspectos improvisados da cidade, desde as construções irregulares e a mobilidade urbana.
“Observe o Espaço-Entre” ficará aberta ao público até 16 de outubro de 2026, e ainda prevê a realização de ações educativas, sempre com distribuição antecipada de senhas. No dia 9 de outubro, às 18h, acontece o lançamento do catálogo físico da exposição, com participação de Conativo, do curador da mostra, João Paulo Ovidio, e de Pietra Cable, artista convidada no bate-papo “Entre-Linhas: o visível e o esquecido”.
Exposição “Observe o Espaço-Entre”
Local: Galeria 3 - CAIXA Cultural Rio de Janeiro – Rua do Passeio, 38, Centro - Rio de Janeiro
Abertura: 01 de julho, às 17h.
Período de visitação: Até 16/10/2026.
Horário de Visitação: terça a sábado, das 10h às 20h, domingos e feriados das 11h às 18h.
Acesso para pessoas com deficiência
Classificação Indicativa: Livre
Entrada Franca
Patrocínio: CAIXA
Ficha Técnica
Artista: Conativo
Curadoria: João Paulo Ovidio
Produção Executiva: Bia Gonçalves
Expografia: Matheus Conativo
Design: Igor Affonso
Fotografia: Ana Bia Novais e Myllena Araujo
Videomaker e Edição de Vídeo: Ximenne Freitas
Assessoria de imprensa: Exu Comunica
Consultoria de Acessibilidade: Fernanda Costa
Consultoria de Audiodescrição: Virginia Menezes
Audiodescrição: Thalita de Paula
Interpretação em Libras: Ana Carla Oliveira e Daniel Thorn
OBSERVE O ESPAÇO-ENTRE
“Xerém e Imbariê, mas quem diria que até Duque de Caxias foi Nossa Senhora do Pilar”
(Zeca Pagodinho)
A Região Metropolitana não se resume à cidade do Rio de Janeiro. Vai além. Duque de Caxias, por exemplo, é um território de muitas imagens e histórias, disputas e migrações. Filha de Iguassú e Magé, um dia já foi Merity. Às margens da Baía de Guanabara, promove encontros, festas e lutas. A mídia tradicional não dá conta de representar a identidade local sem os antigos estereótipos. Nesse sentido, o artista visual Conativo tem se dedicado a investigar o passado e a observar o presente a fim de gerar um olhar sensível para o chão em que se pisa. Aproximando-se de suas raízes, escolhe uma geografia que trata de si, mas também de nós. Com a pintura, busca trazer o sentimento de pertencimento (ao) coletivo.
Mais do que apresentar uma novidade, a exposição dá continuidade a uma discussão sobre formas de ser e estar no mundo. Em seu trabalho, Conativo soma referências, memórias e fabulações, agrupando-as em séries, como Street View (Visão da rua) e Vitral. Os elementos remetem à cultura urbana e às desigualdades sociais. Logo, a utopia se faz combustível para seguir em frente e recusar as violências impostas. Os cenários, por sua vez, são familiares para quem transita entre o centro e a periferia. Tudo acontece ao mesmo tempo: nasce, cresce, morre. E os personagens, em sua autenticidade, não fingem ser, apenas são. Maria, José, Ana, João. Em vista disso, que tal conhecer melhor esse território?
“Imbariê, Figueira, Washington Luis. Av. Brasil, Linha Vermelha, Central do Brasil.”
(Anônimo)
Madrugada. O céu está escuro e a sensação é de frio. As ruas estão vazias e é possível ouvir os grilos. A periferia se levanta quase todos os dias antes do primeiro raio de sol. Homens, mulheres, jovens e idosos saem de casa para trabalhar. Pegam trem, ônibus, metrô, van, entre outros transportes para chegar no horário. Não podem faltar. Quem vive no berço do privilégio ignora a realidade das margens. Seu Armando não quer saber se a Baixada Fluminense foi atingida pelas fortes chuvas. Para ele, o dinheiro é mais importante do que a vida de alguém. Portanto, romper com esse pensamento se faz urgente.
Estação. Plataforma lotada, viagem atrasada. As portas se abrem e é cada um por si. Há uma disputa por conseguir lugar, ir sentado ou ter onde se segurar. Corre, empurra, grita. Da janela do trem, lê-se uma frase escrita no muro: “Centenas vão sentados e milhares vão em pé”. Retrato do cotidiano de um sistema hostil. O deslocamento é longo, precário e caro. Gasta-se mais tempo no percurso do que em outras atividades. O lazer fica para depois, mas esse momento nunca vem. Os problemas sociais atravessam gerações, como uma desagradável herança. Todavia, com as políticas públicas, os filhos de operários, porteiros, lavadeiras, costureiras e demais ofícios, têm mudado isso. Novas rotas estão sendo construídas.
Trajeto. Amanhece, entardece, anoitece. O relógio avança. Quanto mais longe se vai, a paisagem muda e se transforma. Cores, formas, sons, cheiros. Um Rio de Janeiro, diferentes composições. Nenhum município é igual ao outro, tampouco os bairros. A volta para casa traz o alívio de ter para onde ir. O cansaço é grande, mas o sonho de ser feliz é maior. A terra nos ensina que, para colher, é necessário plantar. E foi assim, lançando sementes, que chegamos aqui…
Ao desembarcar, observe o espaço entre…
João Paulo Ovidio
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