[News] Mercado editorial japonês é tema de encontro na Fundação Japão em São Paulo
Joy Afonso e Rita Kohl Fundação Japão em São Paulo
Evento discute a presença de autoras japonesas no país, os desafios da tradução literária e os impactos da inteligência artificial
Quando um livro japonês chega às mãos de um leitor brasileiro, um longo percurso já aconteceu entre a página original e a versão em português. Escolhas de palavras, decisões de ritmo e tom, diferenças na estrutura das línguas e referências culturais difíceis de transportar fazem parte de um processo que vai muito além da substituição de palavras de um idioma por outro.
É nesse espaço entre o texto escrito e o texto que chega ao leitor que acontece o encontro “O Japão que lemos é o Japão que foi escrito? Literatura Japonesa e os Desafios da Tradução no Brasil”, no dia 17 de outubro, na Biblioteca da Fundação Japão em São Paulo. O evento reúne a doutora em Literatura Comparada pela UNESP Joy Afonso e a mestre em Literatura Comparada pela Universidade de Tóquio Rita Kohl.
O encontro propõe dois olhares complementares sobre o tema. Joy Afonso apresentará um panorama das traduções de autoras japonesas publicadas no Brasil desde a década de 1990. A partir de suas pesquisas em literatura japonesa, autoria feminina, crítica feminista e estudos de gênero, ela percorrerá diferentes momentos dessa trajetória, desde um período em que as traduções eram realizadas principalmente por pesquisadores e professores de língua japonesa até a presença crescente de tradutores profissionais e de trabalhos desenvolvidos no ambiente acadêmico e disponibilizados também em plataformas digitais.
Já Rita Kohl apresentará exemplos práticos e análises do processo de tradução literária do japonês para o português, aproximando o público das escolhas e decisões que acontecem antes que uma obra chegue às mãos do leitor brasileiro. Segundo ela, os desafios do processo são incontáveis. Entre eles estão as muitas diferenças na forma de escrita e na estrutura gramatical entre as duas línguas, a enorme variedade de registros da língua japonesa, com nuances trazidas por dialetos regionais e sociais, e a distância entre as duas culturas, que transforma até mesmo as referências mais cotidianas e prosaicas em desafios.
“Em meio a tudo isso, para mim o maior desafio de todos é buscar um equilíbrio”, explica Rita. “Manter na tradução os elementos que considero fundamentais em cada passagem, mas sempre lembrando que o texto em português precisa "funcionar", se manter em pé, para que quem lê possa ter uma experiência de leitura que faça jus à do original”.
Para Joy Afonso, quando o assunto é o crescimento das traduções de escritoras japonesas no Brasil, dois fatores ajudam a explicar. Um deles está relacionado ao próprio mercado editorial brasileiro, fortemente influenciado pelo mercado norte-americano e pela repercussão internacional de determinadas obras. O outro é o crescimento de um público leitor, sobretudo feminino, interessado em autoras e narrativas que dialoguem com questões contemporâneas e com sua própria realidade.
“A ideia de um Japão distante, exótico e desconhecido, não faz mais sentido devido à proximidade da realidade japonesa por meio das redes sociais”, revela. “Esse ideal de um feminino submisso e delicado já não faz mais sentido para as leitoras atuais. Somado a isso temos muitos mais pesquisadores atuantes em várias frentes, não apenas ligados à editoras, mas traduzindo e publicando autoras desconhecidas para o público brasileiro, que podem ser lidas de forma gratuita por meio de plataformas de acesso a cultura japonesa”.
A conversa também abordará uma questão cada vez mais presente no universo editorial: o que muda na tradução literária em tempos de inteligência artificial? A proposta é reunir pesquisa acadêmica, prática profissional e experiência de leitura em uma mesma discussão, com a participação do público.
Ao aproximar o trabalho de pesquisa sobre a circulação da literatura japonesa no Brasil da experiência de quem atua diretamente na tradução dessas obras, o encontro pretende lançar luz sobre um processo muitas vezes invisível ao leitor: as escolhas linguísticas, culturais e literárias que participam da construção do Japão que conhecemos por meio dos livros.
O evento é aberto a pessoas interessadas em literatura japonesa, tradução e nos caminhos percorridos pelas obras até chegarem ao público brasileiro.
Serviços
O Japão que lemos é o Japão que foi escrito? Literatura Japonesa e os Desafios da Tradução no Brasil
Data: 17 de outubro de 2026
Horário: 10h
Local: Biblioteca da Fundação Japão em São Paulo
Formato: presencial
Vagas: 30
Participação: gratuita, mediante inscrição antecipada
Para inscrições acesse o site da Fundação Japão: www.fjsp.org.br/agenda

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