[Eventos] RIO CHEIO DE CHARME ESTREIA NA ZONA SUL DO RIO
Depois de receber Ryan Fidelis, um dos nomes da nova geração do R&B brasileiro, o projeto Rio Cheio de Charme atravessa o túnel e chega ao Parque Garota de Ipanema, levando a experiência do baile de Madureira para a Zona Sul, reunindo seus DJs residentes e dançarinos, além de convidados especiais. A primeira edição acontece dia 17 de outubro ,com a participação de Corello DJ, um dos criadores do movimento black no Rio de Janeiro. Em novembro, dia 29, é a vez de Dj Saddam comandar a pista, outra lenda da noite carioca.
A iniciativa faz parte de uma estratégia da Cerveja Tijuca de aproximação com manifestações musicais populares brasileiras e seus territórios. No Rio, a marca se associa ao Charme, movimento ligado à cultura negra e suburbana carioca com a proposta de conectar o território que se tornou a principal referência do movimento, o Viaduto de Madureira, a outros pontos da cidade, sem perder de vista suas origens e seus personagens.
A presença de Corello DJ como convidado especial é uma prova disso. Foi ele quem criou o termo “charme” para nomear o movimento, que surgiu em 1980. “Era difícil pronunciar a palavra 'Rhythm and Blues', e era necessário ter charme pra dançar. Então eu coloquei o nome daquele tipo de música de 'charme’”, conta. Para a apresentação em Ipanema, o DJ pretende recorrer à memória afetiva construída por diferentes gerações em mais de quatro décadas de bailes. “Zona Sul é minha praia. Eu sei trabalhar como poucos essa coisa de memória afetiva, em qualquer lugar que eu vá. Para quem tem 30, 40, 50 anos ou mais, musicalmente, a noite vai lavar a alma.”, comenta.
O segundo baile do Rio Cheio de Charme será dia 29 de novembro, também no Parque Garota de Ipanema, tendo como convidado especial Maurício Carneiro, mais conhecido como DJ Saddam. Considerado um dos principais nomes da black music na estrada desde 1997, já se apresentou no Rock in Rio, TIM Music, foi eleito melhor DJ de Black Music pela revista DJ Sound em 2011 e até hoje comanda o Baile do Saddam, principal evento mensal do gênero na Zona Sul.
“O Charme sempre esteve no meu repertório e faz parte da minha vida. Apesar de vir do movimento hip-hop, sempre misturei rap e R&B nos meus sets. Para esse baile, vou levar um repertório bem dançante, com a visão de pista que sempre foi uma característica do meu trabalho. Já frequentei muitas vezes o Viaduto e outros bailes Charme e sei o que essa pista gosta de ouvir”, afirma Saddam.
Mais de quatro décadas de música, dança e pertencimento
A história do Charme está ligada à trajetória dos bailes black que movimentaram o Rio de Janeiro, a partir das décadas de 1970 e 1980, especialmente nos bairros da Zona Norte. Nesse ambiente, o R&B ganhou pistas, dançarinos e uma cultura própria que atravessa gerações.
Corello conta que, ainda no fim dos anos 1970, quando tocava disco music underground, o público gay esteve entre os primeiros grupos a aderir aos seus bailes. Em uma época de forte repressão social, segundo o DJ, a pista oferecia um espaço onde era possível dançar e se expressar livremente.
Ao longo dos anos, os bailes se espalharam por clubes e diferentes bairros da cidade, construindo uma cultura marcada pela música, pela dança, pela sociabilidade e por diferentes formas de expressão.
Madureira transforma o Viaduto em território do Charme
A história do espaço sob o Viaduto Negrão de Lima começa em 1990, com a criação do bloco Pagodão de Madureira aos domingos. Pouco depois, o Charme passou a movimentar os sábados e encontrou ali um ambiente diferente dos clubes onde os bailes eram realizados.
Evandro “Leno” Nascimento, fundador e presidente da Associação do Viaduto de Madureira, lembra que parte dos bailes da época exigia traje social, o que estabelecia uma barreira para quem não tinha condições ou interesse em seguir aquele código de vestimenta. No Viaduto, a relação era outra. Tênis, bermuda e roupas informais passaram a dividir a pista, ajudando a tornar o baile mais democrático e atraindo frequentadores de diferentes pontos da cidade.
“Ali é um espaço democrático. Vêm jovens de todos os lugares e de todas as categorias. Todo mundo se sente acolhido, mesmo quem não sabe dançar”, afirma Leno. Ele lembra ainda de um episódio que sintetiza essa característica. Frequentadores de uma casa voltada ao público gay nas proximidades passavam pelo Viaduto, mas inicialmente não entravam. “Eu falei: ‘Aqui é o lugar de vocês também, aqui é o lugar de todos’. Esse grupo foi trazendo outros”, conta.
Essa mistura ajudou a construir uma característica que permanece associada ao baile. DJ Michell, que começou a tocar no Viaduto ainda nos anos 1990 e hoje também atua na direção sociocultural do espaço, define o pertencimento como uma das bases de sua permanência.
“Ali não é só a galera indo para dançar. Tem uma questão de representatividade, de pertencimento. Tudo acontecia muito organicamente. Você abria o portão e todo sábado tinha milhares de pessoas, porque era um ponto de encontro, um lugar ao qual você pertencia”, afirma Michell.
Para ele, essa capacidade de acolher também explica por que o movimento atravessou gerações. “Não tem rico e pobre, tem o charmeiro ali. Não tem Zona Sul e Zona Norte, tem todo mundo junto se divertindo, ouvindo música, dançando junto.” Hoje, avós, pais e filhos dividem a mesma pista, enquanto oficinas de dança ajudam a formar novos frequentadores e dançarinos.
A dança, com seus passos executados coletivamente, tornou-se a imagem mais reconhecível dos bailes. Mas não há necessariamente ensaio ou grupos previamente organizados. “O Baile Charme é um evento onde você se sente em casa, com um ambiente completamente familiar e acolhedor, que tem como principal característica a dança”, resume Michell. Quem chega sem saber os passos pode simplesmente assistir, aprender com os outros e, aos poucos, entrar na pista.
Ao longo das décadas, o Viaduto extrapolou os limites de Madureira. Em 2013, o Baile Charme do Viaduto de Madureira foi declarado Bem Cultural de Natureza Imaterial da Cidade do Rio de Janeiro. Sua cultura também ganhou projeção nacional por meio da televisão. O universo do baile inspirou o Baile do Divino, de Avenida Brasil, cuja abertura contou com dançarinos frequentadores do Viaduto. Anos depois, cenas da novela Babilônia foram gravadas no próprio local.
Mais de quatro décadas depois, o movimento continua incorporando novos artistas, DJs e dançarinos. Para Michell, essa permanência está justamente na capacidade de se renovar sem abandonar sua identidade. Para Corello, está também na força do próprio R&B, uma matriz musical que atravessou diferentes gerações e dialogou ao longo do tempo com jazz, pop, hip-hop, reggae e outras sonoridades.
SERVIÇO
Circuito Baile Charme 2026
26 de setembro
Baile Charme do Viaduto de Madureira
Atração especial: Ryan Fidelis
Local: Viaduto de Madureira, sob o Viaduto Negrão de Lima, Madureira
Hora: 22h (abertura dos portões)
Valor: R$ 20 (preço único); Grátis até às 23h.
17 de Outubro
Baile Charme do Viaduto de Madureira no Parque Garota de Ipanema
Atração especial: Corello DJ
Local: Parque Garota de Ipanema, Arpoador
Horário: 16h às 22h
Entrada franca
29 de Novembro
Baile Charme do Viaduto de Madureira no Parque Garota de Ipanema
Atração especial: Dj Saddam
Local: Parque Garota de Ipanema, Arpoador
Horário: 16h às 22h
Entrada franca



Nenhum comentário