[News] As Quatro Mortes de Pedro: novo livro de Gerson Arruda transforma ansiedade e depressão em monstros reais em thriller psicológico
Em entrevista, o autor Gerson Arruda fala sobre ansiedade, depressão, solidão e a construção de um thriller psicológico em que sobreviver não significa necessariamente vencer.
Lançamento do livro “As Quatro Mortes de Pedro”: quando a mente se transforma em território de batalha
Em entrevista, o autor Gerson Arruda fala sobre ansiedade, depressão, solidão e a construção de um thriller psicológico em que sobreviver não significa necessariamente vencer.
Em “As Quatro Mortes de Pedro", recente lançamento do escritor Gerson Arruda, transforma-se sentimentos como Ansiedade, Tristeza, Solidão e Desesperança em presenças concretas que acompanham o protagonista durante sua trajetória. A proposta é levar para a ficção uma experiência que, embora individual, pode ser reconhecida por milhares de pessoas: a sensação de estar cercado por gente e, ainda assim, sentir-se completamente sozinho.
O resultado é uma narrativa que transita entre o drama, o romance e o thriller psicológico, colocando o leitor diante de uma pergunta incômoda: onde termina a realidade e começa aquilo que a mente cria?
O próprio título da obra carrega esse questionamento. As quatro mortes de Pedro não representam apenas acontecimentos dentro da narrativa, mas também quatro momentos marcantes de sua vida e a presença dos quatro sentimentos que passam a assombrá-lo.
A história também aborda questões como a pressão social para que homens escondam suas emoções, o processo de descoberta e aceitação da sexualidade, as relações familiares e os impactos que o sofrimento psíquico pode provocar não apenas em quem enfrenta a dor, mas também nas pessoas que estão ao seu redor.
Em entrevista, Gerson Arruda revela as motivações por trás da criação de Pedro, explica por que decidiu transformar sentimentos em monstros, fala sobre sua relação pessoal com a temática e discute o papel da literatura ao retratar experiências relacionadas à saúde mental.
Lançamento do livro “As Quatro Mortes de Pedro”: quando a mente se transforma em território de batalha
Em entrevista, o autor Gerson Arruda fala sobre ansiedade, depressão, solidão e a construção de um thriller psicológico em que sobreviver não significa necessariamente vencer.
Em “As Quatro Mortes de Pedro", recente lançamento do escritor Gerson Arruda, transforma-se sentimentos como Ansiedade, Tristeza, Solidão e Desesperança em presenças concretas que acompanham o protagonista durante sua trajetória. A proposta é levar para a ficção uma experiência que, embora individual, pode ser reconhecida por milhares de pessoas: a sensação de estar cercado por gente e, ainda assim, sentir-se completamente sozinho.
O resultado é uma narrativa que transita entre o drama, o romance e o thriller psicológico, colocando o leitor diante de uma pergunta incômoda: onde termina a realidade e começa aquilo que a mente cria?
O próprio título da obra carrega esse questionamento. As quatro mortes de Pedro não representam apenas acontecimentos dentro da narrativa, mas também quatro momentos marcantes de sua vida e a presença dos quatro sentimentos que passam a assombrá-lo.
A história também aborda questões como a pressão social para que homens escondam suas emoções, o processo de descoberta e aceitação da sexualidade, as relações familiares e os impactos que o sofrimento psíquico pode provocar não apenas em quem enfrenta a dor, mas também nas pessoas que estão ao seu redor.
Em entrevista, Gerson Arruda revela as motivações por trás da criação de Pedro, explica por que decidiu transformar sentimentos em monstros, fala sobre sua relação pessoal com a temática e discute o papel da literatura ao retratar experiências relacionadas à saúde mental.
Entrevista - Gerson Arruda
1. Pedro é apresentado como um jovem comum, que trabalha, se apaixona e tenta “não ser um problema”. Por que foi importante construir um protagonista tão próximo da realidade de tantas pessoas?
Gerson Arruda: Acho que meu maior objetivo desde sempre foi justamente gerar identificação com os leitores. O Pedro é reflexo de vários dos meus próprios sentimentos e enfrenta algumas situações que eu mesmo enfrentei, embora esta história não seja sobre mim.
Então, o fato de ele se sentir sozinho, deslocado, isolado, é muito do que eu já senti em alguns momentos da minha vida. Meu objetivo é fazer com que as pessoas que se sintam assim e venham a ler meu livro tenham a oportunidade de olhar ao redor e não se sintam como eu me senti.
Isso não necessariamente significa que eu não tive apoio das pessoas que me amam, mas a depressão tende a nos isolar e causar este sentimento.
Eu sempre me senti estranho, não entendia o motivo de me sentir tão diferente dos outros. Quero que meus leitores saibam que não são estranhos, existem outros como nós. Se isso for diferente, abrace as diferenças e faça algo de bom com elas, como escrever um livro.
2. Na história, Ansiedade, Tristeza, Solidão e Desesperança aparecem quase como personagens ou monstros. O que levou você a transformar sentimentos em presenças concretas dentro da narrativa?
Gerson Arruda: Quando eu personificava estes sentimentos, quis ilustrar as consequências que eles trazem para a vida do personagem e das pessoas ao redor dele através de ações físicas.
Os sentimentos por si só já são muito poderosos, mas achei importante dar corpo para eles, para que o leitor entenda o tamanho do poder que possuem.
Em termos de narrativa, era interessante que as cenas tivessem as presenças daquilo que assombra Pedro, para construir o sentimento de luta, de batalhas. Eles ainda fazem parte da construção do que é um “thriller psicológico”, essa eterna dúvida do que é real ou não.
3. O título, As Quatro Mortes de Pedro, desperta imediatamente uma pergunta: o que, afinal, significa “morrer” quatro vezes dentro da história?
Gerson Arruda: Na história, as quatro mortes são representadas diretamente pelos quatro monstros, os sentimentos que assombram o protagonista ao longo de sua depressão.
Simbolicamente, também representam quatro momentos marcantes de sua vida que levam o personagem à grande angústia que ele vive durante a narrativa.
Existem vários acontecimentos dentro da história que podem ser interpretados como “pequenos”, não tão “dramáticos”, a depender dos olhos de cada leitor, mas que para o Pedro são duros golpes e vão construindo sentimentos ruins e negativos.
É mais uma forma de entender que a vida é sentida de diferentes formas por cada pessoa: o que parece ser pequeno para um, é grande para o outro. O que não importa para alguém é muito importante para outra pessoa.
4. Pedro tenta caber no mundo e fazer o máximo para não incomodar. Existe uma crítica à maneira como a sociedade ensina as pessoas a esconder a própria dor para continuarem funcionando?
Gerson Arruda: Existe uma crítica a uma sociedade extremamente patriarcal, em que meninos são ensinados a serem fortes o tempo todo, não chorar, não falar de sentimentos.
Para Pedro, existe um peso ainda maior, que é o de ser um jovem LGBTQIA+, com todo aquele peso do descobrimento da orientação sexual, a luta para entender o que acontece, de aceitar o “ser diferente” e de ter que se assumir para a família.
Este não é o tema central da narrativa, mas precisa ser falado, pois é parte grande e importante da história do Pedro.
Existe ainda uma crítica à estrutura de saúde mental que existiu em nosso país, com o sistema manicomial que funcionava como asilo sem antes testar outras abordagens médicas para tratamentos psiquiátricos.
Infelizmente, eu tenho alguma familiaridade com este tipo de estabelecimento, porque minha família tem um histórico de transtornos mentais e, durante a infância, visitei meus tios nestes locais diversas vezes.
5. A história fala de uma vida que “desmorona em silêncio”. Por que você escolheu trabalhar justamente com uma dor que muitas vezes não é percebida por quem está ao redor?
Gerson Arruda: Porque era o que estava acontecendo comigo quando escrevi esse livro, há sete ou oito anos. Estava passando por um momento muito sombrio e não necessariamente estava sozinho, mas era assim que eu me sentia.
Naquele momento estava me isolando sem perceber, trocava o dia pela noite e quase não encontrava com ninguém, mesmo dentro de casa. Lembro-me de, em certo momento, parar para refletir e perceber que eu já não saía de casa há vários meses, só o fazia quando era realmente essencial.
Fiquei assustado quando percebi tudo isso e decidi fazer algo, alguma coisa que me fizesse pelo menos retomar o sentimento de produtividade. Foi então que comecei a escrever esta história, como uma forma de escapar daquela realidade triste em que me vi.
Mais uma vez, minha intenção não é dar nenhum tipo de aconselhamento médico, porque não tenho nenhuma formação em saúde mental, mas mostrar para meus leitores que é possível superar, é possível persistir, é possível fugir desse local.
Foi preciso que eu passasse por um processo de cura para conseguir concluir a história do Pedro e, se eu consegui, todos conseguem.
6. Em determinado momento, Pedro percebe que “a dor não termina em você. Ela se espalha. Ela contamina. Ela vira ciclo”. O que essa ideia representa dentro do livro?
Gerson Arruda: Na história, o personagem vai percebendo que quanto mais afunda, mais as consequências são visíveis também para seus familiares, ou para as pessoas ao redor em geral.
É impossível que alguém que lhe ama não sinta o seu sofrer e mergulhe também em algum tipo de angústia. As pessoas mais próximas muito provavelmente se sentem impotentes ao presenciar a crueldade da depressão e não saber exatamente o que fazer ou se é possível fazer alguma coisa para ajudar.
E é justamente neste momento que vira um ciclo, pois começa em um, mas vai derrubando os demais.
7. Existe uma tensão constante entre o real e o impossível, o trauma e a sobrevivência. Como você decidiu estabelecer esses limites dentro da narrativa?
Gerson Arruda: Acho que a ideia do livro foi justamente a de não estabelecer limites. É o leitor quem decide o que é real ou não, o que é trauma ou é apenas parte da vida, o que é viver ou o que é sobreviver.
O final da história do Pedro pode ser polêmico, sensível e, com certeza, eu não dou todas as respostas. Vai ser um exercício individual entender se o final é bom ou não, se é feliz ou triste.
Os leitores não podem controlar aquilo que acontece com o Pedro, mas podem tentar definir que linha seguir em suas próprias vidas, caso se encontrem em uma situação parecida.
8. Pedro é um personagem que tenta sobreviver enquanto acredita, em determinados momentos, que não há saída. Como foi escrever a transformação de alguém que está no limite sem reduzir sua experiência a uma simples história de superação?
Gerson Arruda: É aí que está: não existe uma transformação.
Eu sempre quis deixar claro que o Pedro não é um super-herói, porque a realidade é que são raras as pessoas que fazem algo tão grande a ponto de serem consideradas heroínas.
A ideia em As Quatro Mortes de Pedro é relatar a história de uma pessoa comum, assim como eu ou como a maioria de nós. Para este tipo de gente, muitas vezes não se trata de superar, mas sim de continuar, porque precisamos.
Porque temos pessoas que nos amam e a quem nós amamos, porque existem pessoas que dependem de nós, porque existem alguns que seriam destruídos pela ideia de nos perder.
E será que existe superação? Será que não se trata de continuar? De viver um dia após o outro?
Sinceramente, não sei se isso é algo comum para todos que viveram ou vivem com a depressão, mas posso dizer que, para mim, os lapsos existem, continuam me assombrando, por momentos ou ciclos muito menores do que o ponto alto da doença, claro.
9. A frase “viver não é vencer. Viver é não se render” parece sintetizar uma das ideias centrais da obra. O que significa, para você, continuar vivendo quando a vida não oferece uma sensação imediata de vitória?
Gerson Arruda: Eu preciso ser muito sincero ao dizer que continuar, depois de enfrentar tudo isso, significa não perder.
Sou uma pessoa orgulhosa, competitiva e, no maior jogo que existe, o jogo da vida, ganhar é realizar sonhos. Estes sonhos não são só meus, são compartilhados com a minha família, com as pessoas que eu amo, até mesmo com o mundo.
Eu gostaria de continuar vivo para realizar alguns desejos pessoais, como viajar, publicar livros e sentir que as pessoas gostam deles, de me tornar alguém que é referência em algo, de apoiar causas que colaborem para o bem coletivo.
Gostaria de estar vivo para ver meus sobrinhos crescerem e se tornarem adultos melhores do que eu sou, de cultivarem seus talentos e seus próprios sonhos. Quero poder proporcionar alguma melhora de vida para meus pais e minha família em geral.
Espero presenciar o mundo se tornando um lugar melhor, com o fim das guerras, o fim da fome e o resgate do meio ambiente.
É triste imaginar isso tudo acontecendo e eu não estando mais aqui.
10. O livro parece questionar a ideia de que sobreviver significa necessariamente estar bem. Você acredita que a literatura pode ajudar a mostrar as partes menos romantizadas da sobrevivência?
Gerson Arruda: A literatura é poderosa e acredito que ela tem não só esse, mas vários papéis na construção da nossa sociedade.
A literatura percorre vários caminhos e precisa alcançar a todos, por isso é importante que os autores retratem temas importantes de maneiras não tão comuns.
Eu confesso que tentei me afastar deste local de fala sobre saúde mental por não ser profissional no assunto, mas algumas pessoas começaram a me procurar para falar que se identificaram com as dores que eu estou apresentando na divulgação do livro.
Disseram que é importante sentir que alguém fala sobre isso de maneira verdadeira, relatando o lado real da depressão.
Eu estou realmente feliz de sentir que posso contribuir um pouquinho que seja para acabar com esse sentimento de solidão que as cercam.
11. O que você gostaria que um leitor que já se sentiu como Pedro encontrasse ao terminar o livro?
Gerson Arruda: Gostaria que encontrasse o que lhe motiva a seguir em frente.
Cada pessoa é única, tem seus próprios desafios, seus próprios sonhos e seus próprios anseios. Acredito que se agarrar nestas coisas é o que lhe proporcionará enxergar um futuro. Um futuro onde existem momentos bons, momentos felizes, pessoas que se somam em nossas vidas.
Conhecer a si mesmo é o primeiro passo na jornada da cura, mesmo que eu acredite que ela não existe de forma plena, mas sim de forma constante.
12. E para aquele leitor que nunca passou por uma experiência semelhante, o que você espera que ele compreenda depois de acompanhar a trajetória de Pedro?
Gerson Arruda: Talvez existam pessoas que não passaram pelo conjunto de coisas que o Pedro passou e pela doença em sua forma completa, mas com certeza já viveram, vivem ou vão viver com uma ou mais das situações.
Mas, mesmo que não viessem a passar, espero que elas possam olhar com mais carinho para os lados, para enxergar pessoas que precisam.
Não é necessário oferecer uma cura, porque não existe um único remédio para tratar as dores universais, mas oferecer acolhimento e amor ao próximo todos podemos.
Uma palavra, um abraço ou apenas um sorriso pode ser o sol na escuridão de alguém, pode ser a lâmina que destrói os monstros de uma mente cansada.
13. Existe uma preocupação em mostrar que a dor de uma pessoa também afeta familiares, amigos e pessoas que a amam. Como trabalhar essa dimensão sem transformar o sofrimento do protagonista em culpa?
Gerson Arruda: Na verdade, o protagonista sente sim essa dor em alguns momentos, mas ele também sente a dor que seria deixá-los.
Ele vive exatamente essa bifurcação de caminhos: continuar vivo traz dificuldades e impotência para seus entes queridos, mas desistir também traz sofrimentos e dor.
No fim das contas, não sei se sou a pessoa certa para falar sobre como não sentir essa culpa, mas tentei descrever de forma genuína a forma como o personagem enfrenta e toma suas decisões.
14. Se você pudesse resumir a mensagem de As Quatro Mortes de Pedro em uma única pergunta para o leitor levar consigo depois da última página, qual seria?
Gerson Arruda: Você é capaz de transformar a visão de um futuro lindo, no qual você vive dias felizes na companhia de pessoas amadas, em uma arma maior do que os monstros que vivem na sua mente?
Sobre As Quatro Mortes De Pedro
Sinopse: Pedro é um jovem comum, que trabalha, se apaixona, tenta caber no mundo e faz o máximo para não ser um problema. Mas existe algo dentro dele que não sabe explicar nem controlar: Ansiedade, Tristeza, Solidão e Desesperança não são apenas sentimentos, são presenças na sua rotina. Monstros que aparecem para convencer.
Conforme a vida de Pedro desmorona em silêncio — com perdas, culpa, vergonha, medo e amor —, ele descobre que o pior não é querer morrer, é perceber que a dor não termina em você. Ela se espalha. Ela contamina. Ela vira ciclo.
Entre um romance que parece salvação e um sistema que o trata como número, Pedro atravessa o limite entre o real e o impossível, entre o trauma e a sobrevivência. E, quando chega ao fundo, entende uma verdade que ninguém gosta de admitir: viver não é vencer. Viver é não se render.
As Quatro Mortes de Pedro é uma história intensa, humana e assustadoramente familiar sobre o que acontece quando a mente vira território, e a única vitória possível é continuar respirando.
Gerson Arruda: Acho que meu maior objetivo desde sempre foi justamente gerar identificação com os leitores. O Pedro é reflexo de vários dos meus próprios sentimentos e enfrenta algumas situações que eu mesmo enfrentei, embora esta história não seja sobre mim.
Então, o fato de ele se sentir sozinho, deslocado, isolado, é muito do que eu já senti em alguns momentos da minha vida. Meu objetivo é fazer com que as pessoas que se sintam assim e venham a ler meu livro tenham a oportunidade de olhar ao redor e não se sintam como eu me senti.
Isso não necessariamente significa que eu não tive apoio das pessoas que me amam, mas a depressão tende a nos isolar e causar este sentimento.
Eu sempre me senti estranho, não entendia o motivo de me sentir tão diferente dos outros. Quero que meus leitores saibam que não são estranhos, existem outros como nós. Se isso for diferente, abrace as diferenças e faça algo de bom com elas, como escrever um livro.
2. Na história, Ansiedade, Tristeza, Solidão e Desesperança aparecem quase como personagens ou monstros. O que levou você a transformar sentimentos em presenças concretas dentro da narrativa?
Gerson Arruda: Quando eu personificava estes sentimentos, quis ilustrar as consequências que eles trazem para a vida do personagem e das pessoas ao redor dele através de ações físicas.
Os sentimentos por si só já são muito poderosos, mas achei importante dar corpo para eles, para que o leitor entenda o tamanho do poder que possuem.
Em termos de narrativa, era interessante que as cenas tivessem as presenças daquilo que assombra Pedro, para construir o sentimento de luta, de batalhas. Eles ainda fazem parte da construção do que é um “thriller psicológico”, essa eterna dúvida do que é real ou não.
3. O título, As Quatro Mortes de Pedro, desperta imediatamente uma pergunta: o que, afinal, significa “morrer” quatro vezes dentro da história?
Gerson Arruda: Na história, as quatro mortes são representadas diretamente pelos quatro monstros, os sentimentos que assombram o protagonista ao longo de sua depressão.
Simbolicamente, também representam quatro momentos marcantes de sua vida que levam o personagem à grande angústia que ele vive durante a narrativa.
Existem vários acontecimentos dentro da história que podem ser interpretados como “pequenos”, não tão “dramáticos”, a depender dos olhos de cada leitor, mas que para o Pedro são duros golpes e vão construindo sentimentos ruins e negativos.
É mais uma forma de entender que a vida é sentida de diferentes formas por cada pessoa: o que parece ser pequeno para um, é grande para o outro. O que não importa para alguém é muito importante para outra pessoa.
4. Pedro tenta caber no mundo e fazer o máximo para não incomodar. Existe uma crítica à maneira como a sociedade ensina as pessoas a esconder a própria dor para continuarem funcionando?
Gerson Arruda: Existe uma crítica a uma sociedade extremamente patriarcal, em que meninos são ensinados a serem fortes o tempo todo, não chorar, não falar de sentimentos.
Para Pedro, existe um peso ainda maior, que é o de ser um jovem LGBTQIA+, com todo aquele peso do descobrimento da orientação sexual, a luta para entender o que acontece, de aceitar o “ser diferente” e de ter que se assumir para a família.
Este não é o tema central da narrativa, mas precisa ser falado, pois é parte grande e importante da história do Pedro.
Existe ainda uma crítica à estrutura de saúde mental que existiu em nosso país, com o sistema manicomial que funcionava como asilo sem antes testar outras abordagens médicas para tratamentos psiquiátricos.
Infelizmente, eu tenho alguma familiaridade com este tipo de estabelecimento, porque minha família tem um histórico de transtornos mentais e, durante a infância, visitei meus tios nestes locais diversas vezes.
5. A história fala de uma vida que “desmorona em silêncio”. Por que você escolheu trabalhar justamente com uma dor que muitas vezes não é percebida por quem está ao redor?
Gerson Arruda: Porque era o que estava acontecendo comigo quando escrevi esse livro, há sete ou oito anos. Estava passando por um momento muito sombrio e não necessariamente estava sozinho, mas era assim que eu me sentia.
Naquele momento estava me isolando sem perceber, trocava o dia pela noite e quase não encontrava com ninguém, mesmo dentro de casa. Lembro-me de, em certo momento, parar para refletir e perceber que eu já não saía de casa há vários meses, só o fazia quando era realmente essencial.
Fiquei assustado quando percebi tudo isso e decidi fazer algo, alguma coisa que me fizesse pelo menos retomar o sentimento de produtividade. Foi então que comecei a escrever esta história, como uma forma de escapar daquela realidade triste em que me vi.
Mais uma vez, minha intenção não é dar nenhum tipo de aconselhamento médico, porque não tenho nenhuma formação em saúde mental, mas mostrar para meus leitores que é possível superar, é possível persistir, é possível fugir desse local.
Foi preciso que eu passasse por um processo de cura para conseguir concluir a história do Pedro e, se eu consegui, todos conseguem.
6. Em determinado momento, Pedro percebe que “a dor não termina em você. Ela se espalha. Ela contamina. Ela vira ciclo”. O que essa ideia representa dentro do livro?
Gerson Arruda: Na história, o personagem vai percebendo que quanto mais afunda, mais as consequências são visíveis também para seus familiares, ou para as pessoas ao redor em geral.
É impossível que alguém que lhe ama não sinta o seu sofrer e mergulhe também em algum tipo de angústia. As pessoas mais próximas muito provavelmente se sentem impotentes ao presenciar a crueldade da depressão e não saber exatamente o que fazer ou se é possível fazer alguma coisa para ajudar.
E é justamente neste momento que vira um ciclo, pois começa em um, mas vai derrubando os demais.
7. Existe uma tensão constante entre o real e o impossível, o trauma e a sobrevivência. Como você decidiu estabelecer esses limites dentro da narrativa?
Gerson Arruda: Acho que a ideia do livro foi justamente a de não estabelecer limites. É o leitor quem decide o que é real ou não, o que é trauma ou é apenas parte da vida, o que é viver ou o que é sobreviver.
O final da história do Pedro pode ser polêmico, sensível e, com certeza, eu não dou todas as respostas. Vai ser um exercício individual entender se o final é bom ou não, se é feliz ou triste.
Os leitores não podem controlar aquilo que acontece com o Pedro, mas podem tentar definir que linha seguir em suas próprias vidas, caso se encontrem em uma situação parecida.
8. Pedro é um personagem que tenta sobreviver enquanto acredita, em determinados momentos, que não há saída. Como foi escrever a transformação de alguém que está no limite sem reduzir sua experiência a uma simples história de superação?
Gerson Arruda: É aí que está: não existe uma transformação.
Eu sempre quis deixar claro que o Pedro não é um super-herói, porque a realidade é que são raras as pessoas que fazem algo tão grande a ponto de serem consideradas heroínas.
A ideia em As Quatro Mortes de Pedro é relatar a história de uma pessoa comum, assim como eu ou como a maioria de nós. Para este tipo de gente, muitas vezes não se trata de superar, mas sim de continuar, porque precisamos.
Porque temos pessoas que nos amam e a quem nós amamos, porque existem pessoas que dependem de nós, porque existem alguns que seriam destruídos pela ideia de nos perder.
E será que existe superação? Será que não se trata de continuar? De viver um dia após o outro?
Sinceramente, não sei se isso é algo comum para todos que viveram ou vivem com a depressão, mas posso dizer que, para mim, os lapsos existem, continuam me assombrando, por momentos ou ciclos muito menores do que o ponto alto da doença, claro.
9. A frase “viver não é vencer. Viver é não se render” parece sintetizar uma das ideias centrais da obra. O que significa, para você, continuar vivendo quando a vida não oferece uma sensação imediata de vitória?
Gerson Arruda: Eu preciso ser muito sincero ao dizer que continuar, depois de enfrentar tudo isso, significa não perder.
Sou uma pessoa orgulhosa, competitiva e, no maior jogo que existe, o jogo da vida, ganhar é realizar sonhos. Estes sonhos não são só meus, são compartilhados com a minha família, com as pessoas que eu amo, até mesmo com o mundo.
Eu gostaria de continuar vivo para realizar alguns desejos pessoais, como viajar, publicar livros e sentir que as pessoas gostam deles, de me tornar alguém que é referência em algo, de apoiar causas que colaborem para o bem coletivo.
Gostaria de estar vivo para ver meus sobrinhos crescerem e se tornarem adultos melhores do que eu sou, de cultivarem seus talentos e seus próprios sonhos. Quero poder proporcionar alguma melhora de vida para meus pais e minha família em geral.
Espero presenciar o mundo se tornando um lugar melhor, com o fim das guerras, o fim da fome e o resgate do meio ambiente.
É triste imaginar isso tudo acontecendo e eu não estando mais aqui.
10. O livro parece questionar a ideia de que sobreviver significa necessariamente estar bem. Você acredita que a literatura pode ajudar a mostrar as partes menos romantizadas da sobrevivência?
Gerson Arruda: A literatura é poderosa e acredito que ela tem não só esse, mas vários papéis na construção da nossa sociedade.
A literatura percorre vários caminhos e precisa alcançar a todos, por isso é importante que os autores retratem temas importantes de maneiras não tão comuns.
Eu confesso que tentei me afastar deste local de fala sobre saúde mental por não ser profissional no assunto, mas algumas pessoas começaram a me procurar para falar que se identificaram com as dores que eu estou apresentando na divulgação do livro.
Disseram que é importante sentir que alguém fala sobre isso de maneira verdadeira, relatando o lado real da depressão.
Eu estou realmente feliz de sentir que posso contribuir um pouquinho que seja para acabar com esse sentimento de solidão que as cercam.
11. O que você gostaria que um leitor que já se sentiu como Pedro encontrasse ao terminar o livro?
Gerson Arruda: Gostaria que encontrasse o que lhe motiva a seguir em frente.
Cada pessoa é única, tem seus próprios desafios, seus próprios sonhos e seus próprios anseios. Acredito que se agarrar nestas coisas é o que lhe proporcionará enxergar um futuro. Um futuro onde existem momentos bons, momentos felizes, pessoas que se somam em nossas vidas.
Conhecer a si mesmo é o primeiro passo na jornada da cura, mesmo que eu acredite que ela não existe de forma plena, mas sim de forma constante.
12. E para aquele leitor que nunca passou por uma experiência semelhante, o que você espera que ele compreenda depois de acompanhar a trajetória de Pedro?
Gerson Arruda: Talvez existam pessoas que não passaram pelo conjunto de coisas que o Pedro passou e pela doença em sua forma completa, mas com certeza já viveram, vivem ou vão viver com uma ou mais das situações.
Mas, mesmo que não viessem a passar, espero que elas possam olhar com mais carinho para os lados, para enxergar pessoas que precisam.
Não é necessário oferecer uma cura, porque não existe um único remédio para tratar as dores universais, mas oferecer acolhimento e amor ao próximo todos podemos.
Uma palavra, um abraço ou apenas um sorriso pode ser o sol na escuridão de alguém, pode ser a lâmina que destrói os monstros de uma mente cansada.
13. Existe uma preocupação em mostrar que a dor de uma pessoa também afeta familiares, amigos e pessoas que a amam. Como trabalhar essa dimensão sem transformar o sofrimento do protagonista em culpa?
Gerson Arruda: Na verdade, o protagonista sente sim essa dor em alguns momentos, mas ele também sente a dor que seria deixá-los.
Ele vive exatamente essa bifurcação de caminhos: continuar vivo traz dificuldades e impotência para seus entes queridos, mas desistir também traz sofrimentos e dor.
No fim das contas, não sei se sou a pessoa certa para falar sobre como não sentir essa culpa, mas tentei descrever de forma genuína a forma como o personagem enfrenta e toma suas decisões.
14. Se você pudesse resumir a mensagem de As Quatro Mortes de Pedro em uma única pergunta para o leitor levar consigo depois da última página, qual seria?
Gerson Arruda: Você é capaz de transformar a visão de um futuro lindo, no qual você vive dias felizes na companhia de pessoas amadas, em uma arma maior do que os monstros que vivem na sua mente?
Sobre As Quatro Mortes De Pedro
Sinopse: Pedro é um jovem comum, que trabalha, se apaixona, tenta caber no mundo e faz o máximo para não ser um problema. Mas existe algo dentro dele que não sabe explicar nem controlar: Ansiedade, Tristeza, Solidão e Desesperança não são apenas sentimentos, são presenças na sua rotina. Monstros que aparecem para convencer.
Conforme a vida de Pedro desmorona em silêncio — com perdas, culpa, vergonha, medo e amor —, ele descobre que o pior não é querer morrer, é perceber que a dor não termina em você. Ela se espalha. Ela contamina. Ela vira ciclo.
Entre um romance que parece salvação e um sistema que o trata como número, Pedro atravessa o limite entre o real e o impossível, entre o trauma e a sobrevivência. E, quando chega ao fundo, entende uma verdade que ninguém gosta de admitir: viver não é vencer. Viver é não se render.
As Quatro Mortes de Pedro é uma história intensa, humana e assustadoramente familiar sobre o que acontece quando a mente vira território, e a única vitória possível é continuar respirando.


Nenhum comentário