09 junho 2017

[Crítica Musical] Vulnicura - Björk

O que pode surgir do fim de um casamento, do ponto de vista de uma mulher traída? A resposta é Vulnicura, álbum da cantora islandesa Björk, lançado no início de 2015. O título do álbum já deixa claro para o que ele veio – trata-se da união da palavra “Vulnus” (“ferida”, em latim) com a palavra Cura, ou seja, “A cura para as feridas”!!!

Em entrevista, a cantora disse que deseja que “essas música possam servir de ajuda, uma muleta para os outros, e possam mostrar o quão biológico esse processo é: a ferida e a cura da ferida, psicológica e fisicamente. Ela [a ferida] tem um relógio teimoso preso a ela. Mas há uma saída”. E ela nos mostra isso com maestria.

De forma humana e escancarada – como nunca antes vista em sua obra –, Björk expõe todo o turbilhão de sentimentos que a assolaram no período de seu divorcio, fazendo desse seu álbum mais acessível e universal – sem deixar de lado sua criatividade e capacidade ímpar de compor. Quem não se identifica com um coração partido?


Seguindo uma linha cronológica emocional e acidental, o álbum é dividido em três partes: o Antes, que engloba três música compostas em períodos diferentes antes do divórcio; o Depois, as três musicas seguintes compostas depois do divórcio; e a CURA, o caminho das três ultimas faixas – sendo a última o ponto onde a cura é alcançada. E mais: ela voltou com o uso dos instrumentos de corda, utilizados pela ultima vez em Vespertine (2001).

Explorando a si mesma em todos os aspectos, Björk embarca na própria dor de cabeça e nos leva junto numa jornada de dor, sofrimento, auto-descoberta e perdão, mostrando sua faceta mais humana – para quem é fã, sabe o quão enigmática ela é e o quanto sua vida privada é desconhecida do grande público.

Além do que vemos (nos vídeos e na arte visual do álbum), ouvimos todas as mudanças de humor e toda a dor não somente através das letras compostas por Björk; há uma conexão entre letra-voz-melodia, onde estas três se combinam como um só elemento, onde os sentimentos retratados se fazem presentes nas palavras ditas, na forma de cantar e nos acordes: as faixas mais tristes tem vocais e acordes mais melancólicos, já as mais animadas, trazem velocidade e tons altos, além de elementos eletrônicos – porque Björk sem eletrônico não existe, né!?



Contudo, nem todas as faixas são sobre seu divórcio. A faixa denominada Mouth Mantra (Mantra da Boca) retrata o período em que a cantora teve que operar nódulos em suas cordas vocais. A letra mostra bem o sentimento de medo e angústia, quase como se ela estivesse vivendo em um pesadelo. Além desta, há Quicksand (Areia Movediça), a primeira faixa composta para o álbum, quando sua mãe ficou internada por problemas cardíacos. Nesta faixa, questões mais dos tipos existências são levantadas. Ainda assim o foco fica para a quarta faixa, Black Lake, a maior do álbum, da início à segunda parte, onde o fim do relacionamento foi reconhecido, aceito, e tudo começa a desmoronar, para que o processo de cura comece. Nesta faixa, a traição é descoberta, fazendo com que essa música soe quase como um requiem para o fim do relacionamento.

Além de todo o conteúdo verbal/musical, há também a arte visual do álbum que, como a própria Björk diz, “dá dicas do conteúdo abordado”. Ela é o tipo de artista que, para tudo o que faz, há um porquê; nada está ali por acaso, e se existe, tem um motivo muito maior do que imaginamos. Elementos visuais como roupas, acessórios, posicionamento corporal e até mesmo as cores utilizadas têm um significado específico que se une ao todo criando uma coesão impressionante entre o que vemos e o que ouvimos. Tudo isso fica ainda mais emocionante quando é visto o video-clipe para cada faixa single lançada – sim, até nos vídeos há mais significados codificados!

Esse álbum talvez seja o mais amplamente explorado da careira dela, no sentido multimídia. Além do lançamento standard do álbum (9 faixas de estúdio), foi lançado, algum tempo depois, uma versão acústica de estúdio (que ficou lindo demais!), somente com os instrumentos de corda – 9 faixas, sendo 2 instrumentais; foi lançada também uma versão limitada com faixas ao vivo da turnê, e, há algum tempo atrás, essa versão foi relançada mundialmente, em uma edição standard e uma de luxo lindíssima – e caríssima -, além das versões em vinyl colorido para cada álbum (diga-se de passagem que ela relançou todos os seus álbuns antigos em vinyl colorido, cada disco com a cor que representa o respectivo álbum).



E ainda, como se já não bastasse, já começou a ser feita a reedição e criação de vídeos em Realidade Virtual para todas as faixas standard do álbum, tornando Vulnicura o primeiro álbum visual (todas as faixas do cd com um vídeo-clipe específico) em Realidade Virtual DO MUNDO! Tá bom ou quer mais?

Enfim, a era Vulnicura está cheia de símbolos e significados que se estendem do álbum até cada uma de suas performances ao vivo nos palcos (roupas, máscaras...). É uma viagem na mente – e no coração – de uma das artista mais completas, criativas, inovadoras e corajosas que eu já conheci.

Uma carreira impecável de altos e mais altos ainda. E um álbum perfeito do início ao fim, em todos os aspectos.

E no fim, a cura foi alcançada.



TRACKLIST:

01. Stonemilker
02. LionSong
03. History of Touches
04. Black Lake
05. Family
06. NotGet
07. Atom Dance (feat. Antony Hergaty)
08. Mouth Mantra
09. Quicksand



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