17 maio 2017

[Resenha] O Menino Que Desenhava Monstros

Jack Peter é um garoto de 10 anos com síndrome de Asperger que quase se afogou no mar três anos antes. Desde então, ele só sai de casa para ir ao médico. Jack está convencido de que há de monstros embaixo de sua cama e à espreita em cada canto. Certo dia, acaba agredindo a mãe sem querer, ao achar que ela era um dos monstros que habitavam seus sonhos. Ela, por sua vez, sente cada vez mais medo do filho e tenta buscar ajuda, mas o marido acha que é só uma fase e que isso tudo vai passar. Não demora muito até que o pai de Jack também comece a ver coisas estranhas. Uma aparição que surge onde quer que ele olhe. Sua esposa passa a ouvir sons que vêm do oceano e parecem forçar a entrada de sua casa. Enquanto as pessoas ao redor de Jack são assombradas pelo que acham que estão vendo, os monstros que Jack desenha em seu caderno começam a se tornar reais e podem estar relacionados a grandes tragédias que ocorreram na região. Padres são chamados, histórias são contadas, janelas batem. E os monstros parecem se aproximar cada vez mais. Na superfície, O Menino que Desenhava Monstros é uma história sobre pais fazendo o melhor para criar um filho com certo grau de autismo, mas é também uma história sobre fantasmas, monstros, mistérios e um passado ainda mais assustador. O romance de Keith Donohue é um thriller psicológico que mistura fantasia e realidade para surpreender o leitor do início ao fim ao evocar o clima das histórias de terror japonesas.

O que eu achei?
Com uma história inquietante e misteriosa, Keith Donohue nos faz viajar para uma terra fria e isolada, onde o perigo espreita ao redor da casa, surgindo súbita e inesperadamente, onde o jovem Jack Peter, um menino de dez anos com síndrome de Aspenger, preso em seu próprio mundo, em sua própria mente, morando com seus pais na costa fria do Maine, três anos após sobreviver a um afogamento – o que piorou muito sua condição -, apresenta sua nova mania: desenhar monstros.


Jack nunca fora uma criança “normal” (Lê-se 'como as outras crianças'); era distante, quieto demais. Vários médicos foram visitados até que um diagnostico preciso fosse dado, o que fez com que seus pais começassem a ver seu filho de maneiras diferentes. O pai, idealizava seu filho e lamentava; a mãe, temia e sofria. Ao passar da história, vemos que, com o avanço do mistério, vemos os pais de Jack Peter cada vez mais mergulhados em suas própria crenças acerca do seu filho. Por vezes é possível se pegar pensando se eles são bons pais, se suas atitudes são corretas, ou o que faríamos no lugar deles, uma vez que, como pais de primeira viagem, estavam lidando com duas novidades ao mesmo tempo, sem saberem o que fazer: um filho e uma doença. Além disso, coisas estranhas começam a acontecer, como o surgimento, no meio da estrada, de -aparentemente – um homem branco e barbado, de aparência monstruosa, enquanto o pai de Jack levava Nick, o único amigo de Jack Peter de volta para casa. E aí que todo mistério começa a aparecer...

Bom, a narrativa segue uma linha meio lenta, mas não digo isso como uma crítica. Durante a leitura, toda atmosfera criada me remeteu ao silêncio, como uma sala vazia, com uma parca luz, silenciosa, onde há aquele receio de que, subitamente, algo assustador apareça e te assuste. Ainda assim, há uma certa leveza na forma como é contada, pois o livro não busca o horror do sangue, das extremas deformidades e do gore. É mais uma expectativa do medo, uma certa angústia do não saber o que está acontecendo e o que há porvir, e o quão envolvido está o pequeno Jack Peter – ou até mesmo o Nick. A personalidade dos pais poderiam ter sido mais bem estruturadas, pois em algumas vezes eram muito apáticos ou lentos. Jack e Nick foram lindamente construídos, e por vezes eu tive medo de Jack Peter e algumas de suas atitudes – é fácil se questionar, durante a leitura, se Jack Peter age daquela forma por causa de sua doença ou há algum outro mistério ou poder nele. Nick também é um personagem perfeito, extremamente realista e fiel a personalidade de uma criança, com todas as suas duvidas, medos e atitudes comuns a essa idade. O mistério dos monstros realmente me cativou pela forma como foi criado e contado, pois, como é tudo a criação de um menino de dez anos, existe aquele ar lúdico misturado ao terror, como são os medos de qualquer criança – só que, neste caso, um pouco pior. 

Ainda, não somente as família dos dois meninos fazem parte da história. Absolutamente todos os cenários e pessoas têm uma importância enorme para a construção da história, e são tão relevantes para o desenvolvimento quanto o menino. É como se, além dos monstros, toda a natureza invernal ao redor da isolada casa ganhasse vida, uma vida sinistra. Em busca de explicações e conforto, a mãe de Jack Peter vai atrás de respostas para suas desconfianças acera de seu filho e sua obsessão por monstros, além de procurar entender os mistérios que a cercam, como sons e vozes que somente ela escuta, e acaba descobrindo um passado sombrio do lugar onde mora.

No geral, o livro conseguiu me deixar ansioso e levemente angustiado com algumas cenas, principalmente a dos monstros – e mais ainda quando Jack Peter estava de certa forma, sinistro. Alguns pontos, acredito, ficaram soltos, sem uma conclusão concreta, mas nada que afete muito o rumo da história, e muitas vezes a história se arrasta demais, deixando de lado o mistério, que acaba por se afrouxar, ficar um pouco esquecido. Contudo, devo dizer que o fim desse livro foi um dos mais surpreendentes que eu li nos últimos tempos, e, sem duvidas, digo que valeu por toda a leitura.

4 comentários

  1. Oi Irlan!
    Uma pena que o livro em partes se demostrou arrastado, isso muitas vezes me faz não gostar tanto do livro. Porém a premissa que envolve monstros e a síndrome de asperger me chamou bastante a atenção.
    Beijos

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    1. Ola, Aichha. Realmente uma pena. Até desanimei um pouco na leitura. Mas esse link entre Asperger e monstros é ótima, e ele até que soube construir bem a questão do "até onde aquilo tudo era real ou nao"

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  2. Já faz um tempinho que tenho vontade de ler esse livro.
    E fico aqui me perguntando se esse mistério é fruto da imaginação do garoto, ou de fato acontecem coisas sinistras.
    E essa curiosidade me deixou ainda mais na expectativa para ler.

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    1. Quanto mais você lê, mais dúvidas desse tipo surgem e você questiona a sanidade da personagem o tempo todo

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