19 maio 2017

[Resenha] Extremamente Alto & Incrivelmente Perto

Nunca é possível reconhecer o último momento de felicidade que antecede uma tragédia. Seja ela o ataque às torres do World Trade Center, seja o cruel bombardeio aliado sobre Dresden, que arrasou a cidade e a população civil da histórica cidade alemã na Segunda Guerra Mundial. Portanto, dificilmente há tempo de verbalizar o amor que se sente pelas pessoas próximas que, por um golpe do destino, tornam-se distantes. Esta constatação e os dois acontecimentos históricos guiam 'Extremamente alto & incrivelmente perto'. O principal narrador do livro, Oskar, é um menino extremamente inteligente de 9 anos de idade, sofre com a morte do pai, uma das vítimas do ataque ao World Trade Center, que estava no local da tragédia por um mero acaso - uma reunião no Windows of the World, o restaurante no último andar de uma das torres.
O que eu achei? 
Oskar Schell perde seu pai, Thomas Schell, pelas mãos macabras do acaso no atentado do dia 11 de Setembro – Thomas teve uma reunião no ultimo andar de uma das Torres Gêmeas. Oskar chama esse dia de O Pior Dia.

Quando Oskar chega em casa, liberado mais cedo da escola, vê que a secretaria eletrônica possui mensagens gravadas. É seu pai. Ele ouve todas as mensagens até que o telefone toca e ele se sente incapaz de atender àquela ligação. Ele esconde o telefone com as gravações. A ultima lembrança de seu pai seria dele, em segredo.

Em um dia de saudades sufocantes, ele vai ao closet do pai e revira suas roupas e bolsos e sapatos, até ver um vaso no alto de uma prateleira. Ao tentar pegá-lo, ele cai, derrubando o vaso e quebrando. Dentro, há um envelope com o nome Black. E dentro do envelope, uma chave.

Numa busca incansável, Oskar usa toda sua inteligencia para descobrir a que fechadura pertence aquela chave. Depois de tantos jogos de caça ao tesouro e desafios intelectuais entre ele e seu pai, ele decidiu que essa deveria ser mais um dos desafios de seu pai. Sendo assim, Oskar sai pelos distritos de Nova York e arredores em busca de todas as pessoas com nome Black, tentando descobrir se a chave lhes pertencia, e/ou se eles conheciam seu pai.

O livro é dividido em três partes que se intercalam – a parte do Oskar, a de sua avó e a de seu avô.

Os relatos do menino são repletos de sentimentalismo, verdade e aventuras – mas não do tipo “perdido na cidade”, uma aventura dentro de si, num turbilhão de sentimentos e caos emocional; um caminho de auto-descoberta com o auxílio dos estranhos com quem cruza o caminho em sua jornada. Dotado de uma inteligência extrema e uma sensibilidade transbordante – e um possível caráter manipulador (mas sem maldade) -, ele luta consigo mesmo, tentando entender o mundo ao seu redor e seu lugar nele, quase torturando-se mentalmente. Porque seu pai não era importante para os outros quanto era pra ele? Além disso, cada um dos Black são extremamente importantes no caminho de Oskar, fazendo com que ele questione a si e ao seu plano a cada instante, tentando entender tudo o que se passa, tudo o que sente, tudo que aconteceu e tudo o que está vivendo.

As cartas de sua vó retratam toda a vida dela, desde sua infância até seu casamento, e são endereçadas a Oskar. São cartas extremamente pessoais e sem pudor, onde ela revela sua vida nos mínimos detalhes, retratando seu tempo com seu marido. 

Já as carta de seu avô são endereçadas ao pai de Oskar – Thomas -, e seguem basicamente a mesma linha da de sua esposa. Contudo, apesar de os dois retratarem, além de suas vida juntos, o seu passado, cada um se despe por completo em seus relatos, expondo o mais íntimo de si em cada palavra, cada linha. Suas cartas são tão intensas que se torna palpável angústia de cada um. Seus medos, seus erros, a jornada de suas vidas até o encontro dos dois, e a luta pessoal para manterem-se juntos, um amando o outro, da sua maneira, quase como se não soubessem como amar direito, se é que isso faz sentido. A vida do casal se encontra em um caos silencioso imposto por eles mesmo.

Ainda, o que mais me chamou atenção foi o fato de a personalidade dos avós ser explorada tão detalhadamente que, aos olhos mais atentos, é possível ver o quanto Oskar herdou na inteligencia, atitude, caráter e em seus hábitos. Uma personalidade sólida e forte, mas sem perder um pouco da inocência da infância. O autor criou uma Árvore Genealógica da personalidade desses três de uma forma que eu jamais vi.

O livro é recheado de imagens aleatórias - fotografias mesmo! - que nos faz ver o mundo pelos olhos e pela lenta da câmera de Oskar (câmera essa que também foi de seu avô; ou seja, as imagens também podem ser dele), enquanto ele busca incansavelmente pela fechadura da chave que encontrou e encontra o que não procurava.

A história desse livro é incrivelmente emocionante e extremamente envolvente, carregada de momentos dramáticos e pesados, seguindo uma narrativa bastante poética e comovente onde nada parece falso ou artificial; tudo foi construído com tanto sentimento que, mais humano que isso, apenas a vida real.

Uma trajetória que nos mostra o quão importante é para nós mantemos viva a memória daqueles que amamos intensamente; uma trajetória de auto-conhecimento, perdão, redenção e, acima de tudo, amor.

Sem dúvidas, um dos mais emocionantes livros que já li, do início ao fim.

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