18 maio 2017

[Resenha] Coroa Cruel

Duas mulheres — uma vermelha e uma prateada — contam sua história e revelam seus segredos. Em Canção da rainha, você terá acesso ao diário da nobre prateada Coriane Jacos, que se torna a primeira esposa do rei Tiberias VI e dá à luz o príncipe herdeiro, Cal — tudo isso enquanto luta para sobreviver em meio às intrigas da corte. Já em Cicatrizes de aço, você terá uma visão de dentro da Guarda Escarlate a partir da perspectiva de Diana Farley, uma das líderes da rebelião vermelha, que tenta expandir o movimento para Norta — e acaba encontrando Mare Barrow pelo caminho.
O que eu achei?
Por ser um livro fininho (a mete da leitura agradece), pelo desespero plantado pelo livro anterior na história da rainha Coriane — veja que uma personagem há muito morta foi mais interessante que os vivos — e também um receio (preguiça mesmo) de partir logo para o livro seguinte da série, decidi pegar logo esse livro para dar uma sensação de que não estou largando a série, mas também não estou priorizando-a. Aquela enganadinha no subconsciente para manter o interesse em dia.



Ao longo do primeiro livro, por meio de trechos de histórias contadas por diversos personagens, ficamos sabendo que a bondosa rainha Coriane teve uma vida difícil, culminando num fim trágico nas mãos da inveja de Elara, atual de rainha de Norta. Logo, em 'Canção da Rainha' teremos sua história contada pelo ponto de vista da própria, e é de partir o coração. Em uma narrativa crua e melancólica, Coriane mostra-se muito tímida, autocentrada — depressiva até —, sendo assim, muito frágil. O que a torna suscetível às manipulações mentais de Elara, levando-a a loucura.

O que eu amo sobre esse conto é que não se trata de muita ação e acontecimento mirabolantes, mas sim de uma sondagem psicológica, e a imersão na cabeça da personagem é incrível. Aveyard esconde em seu texto a maquinação dos poderes de Elara sobre a mente de Coriane de forma muito sutil, fazendo com que, se não lido com atenção, é possível deixar passar o que realmente aconteceu. É uma história minuciosa e uma abordagem inesperada para o tom mais despojado apresentado na história central da série, e que dá muito certo.

Sem contar que a autora apresenta, não só aqui, mas também no conto seguinte (porém nesse é muito mais interessante) alguns personagens LGBT, como Robert: amante legítimo do Rei (eu disse do REI) e que divide o posto de consorte com sua Rainha. Decidi comentar isso na resenha, pois é muito importante exemplificar o quanto a representatividade é necessária e como ela pode, sim, se enquadrar em qualquer nicho apresentado em uma história. Nunca imaginei que um dia leria sobre um Rei cujo amante é reconhecido pelo seu povo e, mesmo que secretamente desvalorizado pelas massas, é tratado com o devido respeito. Quebra, muito merecidamente, o estigma de que o governante não pode ser feliz com quem deseja.


Já 'Cicatrizes de Aço' contará o passado recente de Farley, capitã da Guarda Escarlate, que se chocará com os acontecimentos iniciais de 'A Rainha Vermelha’. É bem interessante saber um pouco mais sobre os reinos além de Norta e a hierarquia da Guarda, mas, de um todo, esse é um conto que decai muito em relação ao primeiro. São inseridos personagens demais em muito pouco tempo para serem explorados, não é explicado muito bem a intenção da Guarda nas missões aqui presentes e Farley não me cativou tanto quanto Coriane.

As aparições de Shade, irmão de Mare, Tristan, um dos soldados da Guarda que torço para que apareça novamente no futuro e certas partes em formato de carta, mostrando a comunicação de Farley com seus superiores, que por vezes tomavam algumas páginas, fazendo a leitura andar mais rápido, foram pontos bons que, mesmo tendo sido legaizinhos, foram mínimos em relação a muitos nada contados que chegam até a ficar chatos no meio do caminho.


É preciso ressaltar que 1) são apenas dois contos super curtinhos e 2) pelo menos 40 % do livro é, na verdade, prévia de ‘Espada de Vidro’, ou seja, as definições da sua necessidade de existência não estão atualizadas. Mas, mesmo sendo muito desproporcional no mérito qualitativo, é uma leitura bem gostosinha e boa para se fazer num só dia (coisa que eu não fiz, porém confio na capacidade do ser humano).

Postado por Julio Gabriel.

4 comentários

  1. Oi, fiquei até com pena do que a personagem Coriane passou enquanto ainda estava viva.
    E confesso que fiquei um pouco perdida por não ter lido o livro anterior.
    Espero ler em breve!

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    1. Oi Janaina, agora que você falou eu reparei que da mesmo pra se perder na resenha. Eu tinha acabado de ler o primeiro livro e, na minha cabeça, fez sentido não localizar as coisas hauhsaush! Dá pra ler 'Coroa Cruel' sem ter lido 'A Rainha Vermelha' numa boa, afinal se passa antes dele, eu acabei citando-o como livro anterior por ordem de leitura mesmo. E a Coriane é realmente MUITO sofrida mesmo. Enfim, espero que goste <3

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  2. Oi Julio,
    Não imaginava que nesse livro teria personagens LGBT, achei bem diferente. Estou a tempos pra iniciar essa série mas não tinha muita coragem..
    beijos

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    1. Oi Aichha, também fiquei receoso de ler essa série durante um tempo; muitos comentários do quanto arrastava uma asa pro lado mais genérico das distopias e tal, mas eu precisava ver por mim mesmo e acabou valendo a pena. O que me surpreendeu quanto aos personagens LGBT é que estamos tão condicionados a pressupor que apenas autores específicos sentem-se confortáveis ou necessitados de inclui-los em suas histórias que acabamos sendo pegos de surpresa por alguns outros, o que é sempre muito bem vindo, né?

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