08 maio 2017

[Resenha] Cinder

Cinder tem dezesseis anos e é considerada uma abominação tecnológica pela maior parte da sociedade e um fardo por sua madrasta. Por outro lado, ser ciborgue tem suas vantagens: a interface de seu cérebro lhe deu a capacidade sobre-humana de consertar tudo — robôs, aerodeslizadores, os próprios membros cibernéticos quebrados—, tornando-a a melhor mecânica de Nova Pequim. Sua reputação faz com que o herdeiro do império, o príncipe Kai em pessoa, apareça em seu estande na feira, solicitando o conserto de um androide antes do baile anual. Embora esteja ansiosa para agradar o príncipe, Cinder é impedida de trabalhar no androide quando Peony, sua meia-irmã e única amiga, é infectada por uma peste fatal que tem assolado a Terra por anos. Culpando-a pelo destino da filha, a madrasta de Cinder a entrega como voluntária para as pesquisas da doença, uma “honra” a qual ninguém sobreviveu até então. Logo, porém, os pesquisadores descobrem algo de incomum na cobaia recém-adquirida. Algo pelo qual há quem esteja disposto a matar.
O que eu achei? 
Aquela leiturinha tranquila, entre um livro maçante e outro: essa é uma boa definição para Cinder. Com uma escrita muito ágil, forçando as páginas a continuarem virando sem cessar, Marissa Meyer cria aqui um universo viciante, divertido e muito gostoso de ler.

O reconto em si, a forma como Marissa escolheu para retratar Cinderela no futuro é bem interessante, pois ela ambienta um clássico numa localidade completamente diferente. Nessa história, Cinderela (Cinder) é uma ciborgue ASIÁTICA (!!!) que trabalha numa oficina como mecânica. Sem contar que ela apresenta motivos muito mais convincentes para os maus tratos sofridos pela personagem (convenhamos que era mole Cinderela mandar aquele povo para vários lugares e seguir a vida dela de boa). 


A personagem Cinder mostrou-se um meio termo bem confortável. Na mesma medida em que ela se revelava uma personagem mediana — legal, mas nada demais —, era gostosinho ter seu ponto de vista sobre o mundo em questão. O mais interessante sobre ela é o questionamento “racial” que emprega à história. Cinder é uma ciborgue em uma sociedade que os minimiza a uma sub-raça, considerando-os humanos com sentimentos artificiais, incapazes de possuírem relações verdadeiras. E como ela é submetida aos absurdos por parte de sua família só por existir é muito relacionável aos dias de hoje e seus ataques às minorias desfavorecidas. Isso emprega um ar mais sério ao fator clássico de madrasta + irmãs de Cinderela, que, mesmo que ao longo do texto de Marissa torne-se algo apegável, em certos momentos aparentava muita banalidade em contrapartida de todo o conflito que era adicionado ao contexto central das Crônicas Lunares. 

De todos os personagens, as melhores, sem sombra de duvida, são Iko, uma robô servente da família de Cinder e sua amiga, e Levana, a Rainha Lunar. Mesmo que tenha sido uma preciosidade, senti que a participação de Iko nesse livro foi bem limitada se comparado ao que tanto falam dela, então espero por mais nos próximos. Já Levana mantinha o ritmo constante. Tenho uma queda por vilãs e toda sua aura de segredos e tramoias me deixaram simplesmente aguando para acompanhar seu desenvolvimento daqui para frente. 

Dentre o circulo de principais, Kai é o menos desenvolvido, então não consegui me apegar muito a ele. Sua relação com Cinder também não convence muito, principalmente pelo instalove que rola logo nas primeiras páginas. Cinder praticamente se desmonta na primeira vez que Kai aparece e no decorrer do livro, em que eles passam grande parte dos acontecimentos separados, sem se conhecerem profundamente, invalida o tanto que sentem um pelo outro no fim das contas. E suas partes mais interessantes sempre envolviam Levana sendo rainha de toda a existência botando ele no chinelo, ou seja, avulso assim mesmo. 




Cinder é uma ficção científica para os simplistas. Nada de muito inovador, nada de muito absurdo, principalmente pelo fato de que uma revelação bombástica feita no fim do livro já tinha sido entregue de mão beijada ao leitor desde o início. Finca-se bem naquela linha mediana, possuindo seus clichês, mas sabendo trabalha-los muito bem, tornando-os seu grande destaque. Um fator muito legal é que, como nos próximos livros são inseridas novas protagonistas, nesse primeiro a autora teve o cuidado de contextualizar as possibilidades de direções que a história pode seguir. O que cria mil teorias, logo preciso continuar essa série urgentemente.
Postado por Julio Gabriel. 

4 comentários

  1. Olá Julio,
    Gosto de livros assim para ler entre um livro e outro. Provavelmente esse foi mais tranquilo por ser o primeiro e nos próximos com a introdução de novos personagens pode ganhar um encorpamento maior. Bacana que retrata questões sociais relacionadas as minorias.
    Beijos

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  2. Júlio, nunca gostei muito de releituras de clássicos. Mas apesar de Cinder ser inspirada na Cinderela, achei essa nova história muito mais interessante.
    E também gostei por ser um livro mais simples.
    Depois de ler tramas mais densas, acho que " Cinder" , é a escolha perfeita!

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  3. Olá Júlio!
    Então, nunca gostei de contos de fadas, nem quando era criança.
    Acho algo escrito para manter o controle, além de serem tão alienadores...
    Mas gosto quando vejo releituras, tornando as histórias não só realista, mas trazendo para um contexto social mais atual.
    Já li alguns bem interessantes.
    Gostei desse! Uma amiga havia me indicado.
    Abraços!

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  4. Gosto de clássicos com nova cara. Apesar de, muitas vezes, não gostar muito.

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