[News] Depois do ripado: por que a próxima revolução da marcenaria não será estética
Depois do ripado: por que a próxima revolução da marcenaria não será estética
Por Deiveson Ricardo de Oliveira
Durante muitos anos, as tendências da marcenaria foram reconhecidas quase exclusivamente pela estética. Houve a fase dos tons amadeirados escuros, depois o minimalismo, o acabamento fosco e, mais recentemente, o ripado se consolidou como protagonista em projetos residenciais e corporativos. Agora, enquanto as formas orgânicas começam a ganhar espaço nas principais feiras internacionais de arquitetura e design, vale a pena fazer uma pergunta: será que o futuro da marcenaria continuará sendo definido apenas pela aparência?
Os sinais apontam para outra direção.
A edição mais recente da Houzz & Home Study, pesquisa que acompanha anualmente o comportamento de consumidores que reformam suas residências nos Estados Unidos, mostra que a personalização continua sendo prioridade, mas evidencia um movimento igualmente importante: cresce a preocupação com durabilidade, manutenção e desempenho dos materiais. Em outras palavras, o consumidor continua valorizando um projeto bonito, mas passou a perguntar com mais frequência quanto tempo aquele móvel irá durar, como ele se comportará diante da umidade e qual será seu custo de manutenção ao longo dos anos.
Essa mudança altera profundamente a forma como arquitetos, designers de interiores e marceneiros precisam enxergar as próximas tendências.
Na prática, estamos entrando em um momento em que a inovação estética deixa de ser suficiente. O mercado passa a valorizar projetos que conciliem beleza, desempenho técnico e longevidade.
As formas orgânicas ilustram bem essa transformação. Elas não representam apenas uma nova linguagem visual. Sua popularização está diretamente relacionada ao avanço dos processos produtivos. Equipamentos de usinagem cada vez mais precisos, como as máquinas CNC, permitem executar curvas, encaixes complexos e peças de grandes dimensões com um nível de repetibilidade que até poucos anos atrás era difícil de alcançar. A tecnologia deixa de ser um recurso de produção para se tornar parte do próprio processo criativo. Esse movimento também foi identificado durante a discussão sobre as principais tendências da marcenaria contemporânea, em que o avanço do maquinário foi apontado como um dos fatores que viabilizam essa nova estética.
Ao mesmo tempo, a evolução dos materiais começa a modificar expectativas que durante décadas pareciam inevitáveis. Problemas como empenamento, absorção de umidade e deformações sempre fizeram parte da rotina da marcenaria. Hoje, novas soluções estruturais começam a surgir justamente para enfrentar essas limitações, oferecendo maior estabilidade e ampliando a vida útil dos móveis planejados. Mais do que uma inovação de produto, essa mudança representa uma nova lógica de projeto: o desempenho do material passa a ser considerado desde a concepção do ambiente.
Outro aspecto que tende a ganhar relevância nos próximos anos é a integração de soluções praticamente invisíveis ao usuário. Compartimentos ocultos, mecanismos magnéticos e sistemas de abertura discretos demonstram que inovação não significa necessariamente adicionar tecnologia aparente ao mobiliário. Em muitos casos, a maior evolução está justamente na capacidade de incorporar funcionalidades sem comprometer a linguagem arquitetônica do projeto. Essas soluções, já comuns em mercados mais maduros, começam a despertar interesse também entre profissionais brasileiros.
Isso também muda o papel do marceneiro. Durante muito tempo, o setor foi visto principalmente como a etapa responsável por executar um projeto elaborado por outros profissionais. Hoje, essa divisão se torna cada vez menos rígida. A escolha do material, a viabilidade construtiva, o domínio dos processos produtivos e o conhecimento técnico passaram a influenciar diretamente a qualidade do resultado final. Em projetos mais complexos, a capacidade de transformar uma ideia em uma solução executável tornou-se tão importante quanto a própria concepção estética.
Por isso, acredito que a principal tendência para 2026 e 2027 não será um acabamento específico, uma cor ou um novo desenho de portas.
O que deverá definir a próxima geração da marcenaria será a capacidade de unir design, engenharia e tecnologia em projetos que permaneçam relevantes por muitos anos. Ambientes continuarão mudando de estilo, novas linguagens visuais surgirão e outras deixarão de existir, como sempre aconteceu. O que dificilmente perderá importância é a busca por móveis mais duráveis, inteligentes e preparados para acompanhar a forma como as pessoas vivem.
*Deiveson Ricardo de Oliveira é designer de interiores e especialista em marcenaria de alto padrão, com mais de 18 anos de experiência no desenvolvimento e execução de mobiliário sob medida para projetos residenciais e corporativos. Tecnólogo em Design de Interiores, atua na integração entre concepção criativa e viabilidade técnica, transformando projetos complexos em soluções funcionais e de alto desempenho. É fundador da Estúdio Carioca, empresa sediada em Belo Horizonte, e participou da execução de ambientes em importantes mostras de arquitetura e design, como CASACOR, Modernos Eternos e Morar Mais. Sua atuação acompanha as transformações da marcenaria, com foco em inovação, novos materiais, tecnologia aplicada ao mobiliário e tendências do morar contemporâneo.
Referências
HOUZZ. 2025 U.S. Houzz & Home Study. Palo Alto: Houzz Inc., 2025.
SALONE DEL MOBILE.MILANO. Salone del Mobile 2025: tendências em mobiliário, design e inovação. Milão, 2025.
FORMOBILE. Feira Internacional da Indústria de Madeira e Móveis. São Paulo, 2025.
CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA (CNI). Panorama da Indústria Moveleira Brasileira. Brasília: CNI, edição mais recente.
ABIMÓVEL – Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário. Dados e indicadores do setor moveleiro brasileiro. Bento Gonçalves, edição mais recente.

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