[Festival de cinema] TERRINHA À VISTA 2 - mostra de cinema português contemporâneo - a partir do dia 16 de julho
As Meninas Exemplares (Dir. João Botelho)
de 16 a 22 de julho
Trailer youtube: https://youtu.be/w8evEerrZME
Sinopse:
Novo filme do renomado diretor português João Botelho, baseado na obra da Condessa de Ségur. As desventuras de Sofia, Madalena e Camila durante as férias de verão. Entre o desejo, sua repressão e a violência, o filme constrói uma narrativa sobre o inevitável amadurecimento.
Ficha técnica:
86min, 12 anos
Direção:
JOÃO BOTELHO
Roteiro
LEONOR PINHÃO e JOÃO BOTELHO
Elenco:
ALEXANDRA SARGENTO, ANA BUSTORFF, ANDRÉ GOMES, ANTÓNIO DURÃES, CATARINA VICENTE.CATARINA WALLENSTEIN
Nota do diretor:
Sophie Rostopchine nasceu em São Petersburgo, em 1799. Era filha do general Fiódor Rostopchin, governador de Moscou, que, em 1812, ordenou o incêndio da cidade quando as tropas de Napoleão se aproximavam dos portões do Kremlin. Em 1817, Sophie acompanhou os pais no exílio para a França, após a queda em desgraça do general. Ah, os russos! Sophie casou-se com o conde Eugène de Ségur. Negligenciada pelo marido, dedicou sua vida à criação dos sete filhos. Apenas aos 55 anos, incentivada por Louis Veuillot, começou a escrever contos e romances, que dedicaria aos seus vinte netos. Realista, mística e, por vezes, delirante, a obra da Condessa de Ségur é um documento desconcertante e prodigioso que, embora nascido no século XIX, dialoga de forma surpreendentemente atual com o nosso tempo.O longo e doloroso processo de amadurecimento nada mais é do que a perda da liberdade individual e o aprendizado forçado e violento da renúncia de si: “É de pequeno que se torce o pepino!”. Toda forma de resistência deve ser vencida pela fome, pela sede ou pelo chicote, para que, ao final, todos se tornem adultos: derrotados, acinzentados, com a chama viva e gloriosa da irresponsabilidade apagada, assim como sua capacidade revolucionária de se maravilhar e desafiar o mundo.
Ao final de As Férias, o senhor de Rosbourg afirma: “Deus nos envia inúmeros trabalhos, tristezas e sofrimentos para impedir que nos apeguemos demais à vida e para nos acostumar à ideia de que um dia morreremos.” Uma frase aterrorizante em sua simplicidade e, ao mesmo tempo, profundamente verdadeira. A perda que acompanha o crescimento: amadurecer é perder tanto a coragem quanto o medo originais.A Condessa de Ségur escreveu As Boas Meninas (a história central da trilogia) em 1857. Somente em 1858 escreveu As Desventuras de Sofia (que narra os acontecimentos anteriores) e As Férias (que acompanha os acontecimentos posteriores). Li As Desventuras de Sofia quando tinha seis anos de idade. Irmão caçula de três irmãs, cresci cercado pelos livros da chamada “biblioteca azul”, que eram a literatura infantil da nossa casa. Naquela época, aprendi a ler, mas era incapaz de compreender a perversidade daqueles textos. Agora, na idade em que me encontro, parece natural retornar à infância e perceber que as falas das crianças eram, na verdade, falas de adultos. Por isso, neste filme, são atores adultos que interpretam os papéis das crianças.
A expectativa de vida hoje pouco se compara àquela dos portugueses de setenta anos atrás. Se o cinema se tornou, em grande parte, uma forma de entretenimento juvenil, então façamos do entretenimento juvenil cinema em estado puro. E o vento soprará entre as árvores, enquanto os seres humanos vagam, inquietos, entre a luz e a sombra — como o cinema exige. Certo dia, durante a exibição do meu filme Quem És Tu? na mostra competitiva do Festival de Veneza, encontrei Paula Rego na Praça de São Marcos. Conversamos alegremente, taças de vinho à mão. Contei a ela sobre minha ideia de adaptar As Boas Meninas para o cinema. A pintora ficou encantada e chegou a se oferecer para criar os cenários e os figurinos, seguindo o exemplo de David Hockney — por quem tinha grande admiração — quando concebeu a cenografia e os figurinos de The Rake’s Progress, de Stravinsky, para a ópera.
Mas, quando o projeto finalmente foi aprovado, Paula Rego já não estava mais entre nós. Talvez esteja lá em cima, aprontando das suas, criando personagens de cores extravagantes e corpos rechonchudos entre nuvens brancas e leitosas.Resta-me agradecer a Paula Rego, à Condessa de Ségur e às minhas irmãs — e, acima de tudo, a Leonor Pinhão, que assinou comigo a adaptação deste filme. E aceitar aquela frase maravilhosa dita por Clifton Webb em Laura, de Otto Preminger: “Eu não sou gentil. Sou perverso. Esse é o segredo do meu charme.”
A Vida de Marie (Dir. João Marques)
de 23 a 29 de julho
Trailer Youtube: https://youtu.be/MEKEOqxVGGU
Sinopse:
Uma jovem artista destemida, Maria Manuela recusa-se a conformar. Filmado ao longo de quatro anos, o filme acompanha a sua jornada para encontrar seu lugar no mundo na fase mais sensível da vida: a entrada na vida adulta.
70min.
Diretor: João Marques
Produtor: Justin Amorim
Protagonista: La Vie de Marie aka Maria Manuela
Notas do diretor:
Em 2020, Maria, uma jovem artista natural da aldeia de Estela, no norte de Portugal, mudou-se para Lisboa em busca de uma oportunidade de desenvolver a sua carreira. Ao tornarmo-nos vizinhos surgiu uma amizade. Em 2021, participamos juntos num festival
comunitário que nos levou a um período exploratório de trabalho de cura com práticas meditativas. Passámos neste por uma experiência catártica que despertou em mim o desejo de filmá-la. O filme nasceu de uma curiosidade genuína pela Maria que ali vi, tal como pela sua persona digital La Vie de Marie, que partilha uma abordagem irreverente e vulnerável nas redes sociais. Ambos crescemos em meios rurais com uma sensação de alienação e com uma necessidade de nos expressarmos criativamente, o que moldou tanto a nossa amizade como a narrativa do filme. A Vida de Marie insere-se numa reflexão sobre a Geração Z, marcada pela presença das redes sociais e pelas formas de vida que surgem com este novo contexto.
Na sua aldeia natal, a sua forma de ser se choca com a tradição e os costumes portugueses, enquanto Maria incorpora tanto as suas raízes nortenhas como as influências da cultura digital. Há uma procura pelo seu sentido de identidade ao crescer neste meio rural e com a presença de uma educação religiosa. O filme reflete também sobre a ideia de “Casa”, tanto no sentido físico como psicológico. Maria, ao transformar os seus espaços e a sua realidade, procura um conforto em resposta à solidão e ao caos interno, navegando pelas dificuldades relacionadas com a saúde mental e a complexa relação com a sua família. O filme tomou forma organicamente ao longo de quatro anos, com as filmagens e a montagem a acontecerem em simultâneo e a revelarem-se gradualmente numa expressão contínua e intuitiva. Este processo refletiu-se no meu crescimento pessoal e da Maria, desafiando o objeto final. Esta viagem tornou-se um reflexo honesto e vulnerável
de um processo criativo em constante mutação - para além de um agente importante na minha jornada de auto-descoberta e crescimento.
As Aves (Dir. Pedro Magano)
de 30 de julho a 05 de agosto
Trailer Youtube: https://youtu.be/M0KTC6v3Q2M
Sinopse:
Inspirada no conto “A Morte, o Tempo e o Velho”, de Mia Couto, e na peça “Os Pássaros”, de Aristófanes. Um velho homem que despreza os deuses vive isolado em uma ilha, sua única companheira é uma calopsita enjaulada. Ao pássaro, ele confia seus sonhos de escapar da sua rotina monótona e fundar uma cidade onde humanos e pássaros possam viver livremente.
73min
Direção: Pedro Magano
Produção Pedro Sá
Elenco: Gustavo Sumpta e Mafalda Rocha
Notas do diretor:
Os contos são narrativas simples e acessíveis, escritas para todas as idades, cuja magia reside na interpretação da mensagem universal que evocam. Em seu livro Na Berma de Nenhuma Estrada (2001), Mia Couto escreveu o conto "A Morte, o Tempo e o Velho", que narra a história de um velho que procura a Morte para se libertar do peso da existência. Mas, quando finalmente a encontra, na forma de um cão selvagem, acompanhada pelo Tempo, a Morte o torna imortal, contrariando seu desejo fatalista, substituindo-o pelo Tempo após se encantar com os relatos de seus sonhos. Os deuses têm fascínio pelos seres humanos.
Aristófanes, conservador, crítico dos deuses e defensor da Atenas do passado e de seus valores democráticos tradicionais, escreveu a peça As Aves, na qual critica a sociedade ateniense marcada pela corrupção. Nela, dois atenienses desiludidos com sua cidade, auxiliados por Tereu e Procne — transformados em aves pelos deuses —, sonham em fundar uma nova cidade para homens e pássaros: Nefelocucolândia. Essas duas obras constituem a base do argumento deste longa-metragem, intitulado As Aves.
A peça grega inspirou os monólogos, os diálogos, o imaginário e o conceito estético do filme. A antiga guerra entre homens, deuses e aves é o tema central da obra. Na Grécia Antiga, o conflito entre deuses e homens era objeto de profundas reflexões que buscavam explicar o sentido da existência. Hoje, essas relações sobrevivem como metáforas cômicas, ainda recorrentes na busca pelos "porquês" da vida, refletindo séculos da história do comportamento humano e das divindades que os próprios homens criaram. O conto de Mia Couto inspirou a construção dos personagens e a forma narrativa do filme. Nesta adaptação, porém, a história se afasta do original quanto às intenções dos personagens, preservando apenas suas funções dramáticas. Diferentemente do conto, não é o Velho quem procura a Morte; é a Morte que vai ao seu encontro, acompanhada pelo Tempo, chegando a bordo de um moliceiro para zombar da mortalidade desse humano ingênuo. Ao perceber que não passa de um peão nas mãos da Morte e que sua vida é cíclica e repetitiva — como a de todos nós —, o Velho tenta desafiar e controlar o próprio destino. A Morte não aceita essa afronta e, ao final, decide não levá-lo consigo, por considerar que aquele simples mortal ousou desrespeitá-la como deusa
O Velho vive no Purgatório, isolado e cercado pelas águas de um rio morto, de margens lamacentas. Preso a uma rotina incessante de hábitos que se repetem sem fim — tal como acontece em nossas próprias vidas —, ele sonha em escapar daquele lugar para fundar uma cidade para homens e aves: Nefelocucolândia. O Velho odeia os deuses e desabafa suas frustrações com uma cacatua chamada Poupa, mantida presa em uma gaiola, metáfora de sua própria condição: encarcerado em um lugar hostil, sem compreender por que ali está. Ainda assim, encontra uma forma de liberdade nas palavras dos livros que descobre na biblioteca durante suas andanças furtivas pela cidade. A narrativa do filme é cíclica e dialoga com a ideia de uma existência humana infinita, repetitiva, e com a dimensão circular do Tempo. Sua estrutura divide-se em três partes de igual forma narrativa, que se distinguem, no entanto, pelo conteúdo e pela maneira como os personagens são interpretados.
Filmes do Estação | Distribuidora
A Filmes do Estação é o braço de distribuição cinematográfica do Grupo Estação, empresa carioca de referência no Brasil para cinema independente e de qualidade. O grupo também opera o circuito de salas Estação Claro de Cinema no Rio de Janeiro e foi um dos fundadores do Festival do Rio. Criada em 1990, foi responsável pelo lançamento de grandes sucessos brasileiros e internacionais, distribuindo cerca de 300 títulos no Brasil, além de se especializar no relançamento de diversos clássicos.
Após um hiato, a Filmes do Estação retomou suas atividades em 2024 com o lançamento de Orlando, Minha Biografia Política, dirigido pelo filósofo Paul B. Preciado. Em seguida, lançou o aclamado Malu, de Pedro Freire, e O Diabo Na Rua No Meio do Redemunho, de Bia Lessa, por meio de uma estratégia inovadora de distribuição, inspirada nas temporadas teatrais.
Em 2025, a empresa também lançou Uma Bela Vida, do renomado diretor Costa-Gavras, apresentou retrospectivas de cineastas como Charles Chaplin, François Truffaut e Agnès Varda, e lançou mais de dez novos títulos adicionais.
Em 2026, a Filmes do Estação lançou, A Cronologia da Água, estreia de Kristen Stewart na direção, exibido mundialmente em Cannes 2025; e Nino, primeiro longa de Pauline Loquès, vencedor do César de Melhor Primeiro Filme e do prêmio de Ator Revelação para Théodore Pellerin. Ainda este ano, a distribuidora prepara os lançamentos dos brasileiros As Vitrines, de Flavia Castro; Pequenas Criaturas, de Anne Guimarães, vencedor de Melhor Filme no Festival do Rio 2025; Quatro Meninas, primeiro longa de Karen Suzane, exibido na seção Generation 14plus da Berlinale e Oceânico, de Guilherme Coelho, thriller político centrado numa pesquisa de ponta com psicodélicos em uma universidade pública carioca em meio ao desmonte da ciência. A lista inclui ainda Magalhães, de Lav Diaz, épico histórico e crítico sobre Fernão de Magalhães, escolhido como representante das Filipinas ao Oscar; In-I In Motion, primeiro longa dirigido por Juliette Binoche, no qual a atriz e cineasta revisita, o processo físico e emocional de criação da performance In-I, ao lado do coreógrafo Akram Khan; e Promised Sky, de Erige Sehiri, filme de abertura da mostra Un Certain Regard, no Festival de Cannes de 2025.



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