16 março 2017

[Resenha] A Menina Sem Qualidades

Ada e Alev se conhecem na escola Ernst Bloch e descobrem muitas coisas em comum. A afinidade entre eles torna-se uma dependência obsessiva, que passa a exigir demonstrações de amizade, alheias a barreiras morais ou compaixão. Um romance surpreendente que reflete o status quo da nova Europa, regido pela ausência de responsabilidade acerca do futuro. Considerada a revelação da literatura alemã, a escritora Juli Zeh estreiou no Brasil com sua angustiante parábola sobre questões do mundo contemporâneo.

O que eu achei?
Como já está dito na capa, este livro é “uma crítica feroz à sociedade contemporânea”. E, num mundo de história rasas, com personagens insosso e futuros previsíveis, que melhor maneira há de criticar uma sociedade se não com adolescentes, o futuro de toda e qualquer nação!?

Em A MENINA SEM QUALIDADES, somos apresentados, primeiramente, a Ada, uma jovem de 14 anos, dotada de uma inteligência quase sobre-humana, extremamente articulada e questionadora; uma menina perigosamente versada e mentalmente ágil.
Em seguida, conhecemos Alev, um jovem de 18 anos, cuja mente é igualmente brilhante à de Ada, porém com características mais dominadoras e manipuladoras. A força motriz que guiará e manipulará o futuro dos envolvidos nessa trama.
Juntos, Ada e Alev atraem o professor Smuteck para o seu “jogo”, trazendo à nossa mente questões que nos cercam a cada instante de nossa vida não apenas como indivíduos, mas, também, como cidadãos.

Sigamos, então, as regras do jogo da mente matemática de Alev e nos perguntemos: o que é moral? Quão frágil ela é? Quem ou o que definem seus limites, e, ainda, quais são esses limites?
Dentro dessas páginas, nos vemos questionado a individualidade, a moral, a ética, a responsabilidade coletiva... Quem são os jovens para os quais os pais mal olham e o que eles se tornarão com essa total liberdade, com essa total falta de amarras? O que diferencia uma jovem adolescente de uma criminosa? Até onde podemos ir sem sermos agarrados pelas mãos da lei, da consciência ou da justiça divina pesando em nosso espírito?

Bem, não sei muito como falar desse livro se não por questionamentos, pois é isso o que ele faz com os leitores: os faz questionar a sociedade em que vive e o caminho que ela está seguindo. E ainda mais, quem somos diante desse mundo, o nosso papel nessas mudanças – sejam elas para melhor ou para pior. O quão nossas atitudes – pensadas ou espontâneas – definem quem somos realmente? Será que sabemos quem realmente somos e até onde somos capazes de ir por aquilo em que acreditamos e defendemos?
Do mais, é uma história fascinante, com uma escrita por vezes pesadas, com conceitos difíceis de se digerir de primeira. Mas é, sem dúvida, o melhor livro que já li em toda minha vida. É preciso ler e se entregar de mente aberta a essa experiência, sem preconceitos nem moralismo, para compreender o quão sem palavras eu fico ao ter de falar dele.
Um livro arrebatador, feroz, cru ao máximo, desligado de todo clichê e à milhas de distância do senso comum e da zona de conforto. Um livro necessário a todas as mentes inquisidoras, questionadores e inquietas. Um banho frio no “belo, recatado e do lar”...

Obs.: a MTV, em 2014, se não me engano, produziu uma minissérie inspirada nesse livro – foi como fiquei sabendo dele. A série está lindamente produzida, e muito fiel ao livro. Mas nem tudo são flores... Os atores que interpretam Alev (Alex na versão brasuca, pelo ator Rodrigo Pandolfo) e Ada (Ana pra nós, pela Bianca Comparato) deixaram muito a desejar em suas atuações... Mas, apesar disso, a série é ótima!

16 comentários

  1. Posso dizer que amei a resenha e quero ser você quando crescer? Adorei sua análise crítica da proposta do livro e sua visão de mundo.

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    1. Haha muito muito obrigado. Fico muito feliz que tenha gostado

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  2. Oi Irlan,
    Banho frio no belo, recatado e do lar? AMOOO
    Adoro livros que nos fazem questionamentos, que nos coloca como pensadores e articuladores e não apenas uma história a ser passada.
    Fiquei curiosa por esse livro.
    Beijos

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    1. Aichha, um livro que nos faz pensar... o que há de melhor nesse mundo do que isso?? Só dois disso haha até porque, essa deveria ser uma das funções da leitura, não?

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  3. Pela capa percebe-se que a história é densa .
    Livros assim ,cheios de questionamentos sempre nos fazem refletir sobre nossas atitudes e também na de outras .
    Falsos moralistas existem aos montes... E até onde todos nós vamos para conseguir algo.

    Bela dica!

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    1. Oi, Janaina.
      Disse tudo! Esse livro de falso não tem nada... so há verdades (ou pontos de vista muito verdadeiros e honestos)

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  4. adorei sua resenha, apesar do que era dito na capa se fosse só por causa disso eu não leria, no começo eu achei muito teen
    mas depois da sua resenha eu percebi como estava enganada que a história é justamente para nos mostrar a superficialidade das coisas e nos fazer questionar
    espero ler em breve

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    1. Essa é exatamente a essência de todo o livro ❤
      Leia tão logo quanto puder. Não irá se arrepender

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  5. Temos aqui um livrinho bem polêmico não é mesmo, até porque hoje qualquer crítica ela é tratada de forma polêmica :-\ Eu vou te dizer que se não fosse pela sua resenha eu nem ia imaginar a existência desse livro, então vamos dizer um Amém a ela kkkkk.

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    1. Amém, Rissia hahaha
      Polêmico é pouco! Pense num livro que te põe pra questionar a si mesmo... pois é este!

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    2. Amém, Rissia hahaha
      Polêmico é pouco! Pense num livro que te põe pra questionar a si mesmo... pois é este!

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  6. Irlan!
    Na verdade não conhecia o livro e fiquei fascinada, porque qualquer leitura que nos leve a reflexão e questionamentos, tanto sobre a sociedade, como sobre os limites entre o ser 'normal' e o delinquente, é de grande conhecimento.
    Vou ver se acho a série para assistir.
    Semaninha cheia de felicidade!!!
    “Não ganhe o mundo e perca sua alma; sabedoria é melhor que prata e ouro.” (Bob Marley)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de MARÇO, livros + KIT DE PAPELARIA e 3 ganhadores, participem!

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    1. Espero que adore esse livro, que é maravilhoso ao extremo! Um livro cheio de questionamentos, filosofias e tabboos hahaha

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  7. Oi Irlan!
    Eu já vi esse livro em livrarias, mas sempre pensei se tratar de mais drama adolescente e super cliché, com certeza me equivoquei! Enredos que nos trazem grandes questionamentos como nesse caso, que nos faz pensar sobre ética, moral, dualidade são sempre bem vindos. Adorei a resenha!

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    1. Eu o conheci pela série (que pelo título, me fez pensar o mesmo que você)... mas foi uma surpresa incrível! Um livro que indico para todo mundo que conheço

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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