[News] Sob a ameaça de um novo El Niño, Mariana Brecht transforma a emergência climática em ficção para diferentes gerações
Do romance sobre colapso ambiental e greenwashing à aventura infanto-juvenil sobre ação coletiva, autora finalista do Jabuti aposta na imaginação como resposta à crise
Enquanto especialistas alertam para a possível volta do El Niño ainda em 2026 e para seus potenciais impactos sobre o clima global, a escritora Mariana Brecht (@mariana.brecht) transforma a emergência ambiental em matéria-prima literária. Finalista do Prêmio Jabuti, a autora chega ao biênio 2025-2026 com dois livros que exploram, para públicos distintos, os dilemas, afetos e possibilidades de um Brasil atravessado pela crise climática.
No romance "Foi acabar bem na nossa vez" (Rocco, 2025), a água observa os dramas humanos com a indiferença de quem já viu mundos nascerem e desmoronarem; testemunha encontros e despedidas, cicatrizes e recomeços, enquanto segue seu curso alheia à pressa das criaturas que dependem dela para viver. Já em "Cyber PANC e Só Zé" (Escarlate/Companhia das Letras, 2026), a aventura infanto-juvenil parte do resgate de um rio soterrado, metáfora da memória, do afeto e da vida que insiste em brotar mesmo sob camadas de concreto e esquecimento. Cada uma voltada a um público, mas unidas pela mesma urgência: imaginar futuros possíveis quando o presente já não oferece mais garantias.
Um romance sobre território, greenwashing e a segunda chance que ainda podemos dar ao mundo
Para o público adulto, Mariana lançou em 2025 "Foi acabar bem na nossa vez", romance publicado pela Editora Rocco que parte de um reencontro amoroso para escancarar as disputas em torno de território, memória e as diferentes soluções propostas para a crise do clima. A trama se passa em meados da década de 2030, no interior de São Paulo, e acompanha Maria Clara, uma designer de jogos que perde o emprego em meio ao colapso da indústria de tecnologia e é forçada a retornar à cidade da infância. Lá, reencontra Antônio, seu amor da adolescência, e uma comunidade em tensão: enquanto ele dedica a vida a cultivar uma agrofloresta que abastece os vizinhos, a prefeitura ameaça despejar sua família para implementar um projeto de compensação de carbono, uma monocultura de eucaliptos que expõe a lógica do greenwashing e a permanência de velhas estruturas de poder travestidas de solução ambiental.
A obra transita entre o presente do colapso e as memórias da adolescência dos personagens, incluindo um flashback central que remete ao momento em que Maria Clara e Antônio se conheceram. Mais do que uma história de segunda chance no amor, o livro propõe uma reflexão sobre a segunda chance que ainda podemos dar ao mundo. Ao longo da narrativa, a autora incorpora vozes mais que humanas, como sementes de feijão que dialogam entre si, um carcará que sobrevoa a Pedreira, a água, o sol e a Terra, numa aposta estética e política para dissolver as fronteiras entre humanidade e natureza. É também um romance sobre o luto, pela perda do avô, figura central na formação de Maria Clara, e pela transformação irreversível do território afetivo, um sentimento que o filósofo Glenn Albrecht nomeou como solastalgia, a angústia de ver o lugar que amamos morrer diante dos olhos.
Uma aventura infanto-juvenil que transforma ecoansiedade em ação coletiva
Agora em 2026, Mariana Brecht dirige seu olhar aos leitores em formação com "Cyber PANC e Só Zé: O resgate de um poder pifado e outras caraminholas", que será publicado pelo selo Escarlate, da Companhia das Letras, com ilustrações de Lumina Pirilampus. A obra conta com apoio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB/2024), do Governo Federal.
No livro infanto-juvenil, a crise climática também deixa de ser pano de fundo e ganha centralidade, agora vista pela perspectiva da infância e juventude. A narrativa se passa em uma São Paulo de futuro próximo, onde a cidade se reorganizou para enfrentar a emergência ambiental: cada pessoa precisa plantar o que come, a gestão de resíduos é parte do cotidiano escolar e as soluções dependem menos de grandes promessas tecnológicas e mais do manejo da terra e do apoio comunitário.
É nesse cenário que se encontram Cyber PANC, menina extrovertida que cresceu em uma fazenda com educação domiciliar e carrega o dom de fazer plantas brotarem com as mãos, poder que pifa após a morte da tia, e Só Zé, garoto tímido e ansioso que vive na comunidade urbana de Minhoquinha e enxerga motivos para se preocupar em tudo. Entre humanos com características híbridas de animais, uma escola com currículo adaptado à crise climática e o manejo cotidiano da terra, os dois personagens descobrem que seus superpoderes, inclusive o de Só Zé, que a princípio parece não ter nenhum, só fazem sentido quando compartilhados. Não há heroísmo isolado, mas redes de cuidado, conflitos, assembleias e a descoberta de que a amizade pode ser também uma forma de tecer futuros possíveis.
A obra dialoga com a mesma base teórica que sustentou a escrita do romance para adultos, mobilizando conceitos de pensadores como Ailton Krenak, Antônio Bispo, Donna Haraway e Timothy Morton, agora traduzidos para uma linguagem acessível a crianças e jovens. A ansiedade climática, tema recorrente nos debates contemporâneos, ganha contornos lúdicos e afetivos nas angústias de Só Zé, personagem que a autora criou como espelho de sua própria relação introvertida com o mundo. Mariana afirma que quis imaginar um futuro que tivesse lugar para pessoas como Só Zé, como ela, e que o livro permitiu abrir essa janela. A quarta capa é assinada por Keka Reis, referência na literatura infanto-juvenil brasileira, e a edição conta ainda com glossário e área interativa que fogem do formato convencional.
Ficção climática como elaboração simbólica do colapso e ponte entre gerações
As duas publicações, cada uma a seu tempo, chegam em um momento particularmente sensível para o debate ambiental no país. A ficção climática ganha espaço nas prateleiras como ferramenta não apenas de denúncia, mas de elaboração simbólica de um fenômeno que já não pode ser ignorado. Se adultos de trinta e quarenta anos sofrem com a ecoansiedade, crianças e adolescentes vivenciam essa tensão de maneira ainda mais latente, e é para elas que Mariana endereça uma narrativa que, sem negar a gravidade da crise, aposta na potência do coletivo e na imaginação de outros modos de habitar o mundo. A autora provoca que a crise climática é grande demais para ser resolvida por uma só pessoa, e que também não há uma maneira única de resolvê-la.
Escritos em paralelo à sua atuação como narrative designer de jogos digitais, área em que acumula prêmios como o Primetime Emmy pelo jogo em realidade virtual A Linha, os dois livros representam um mergulho profundo de Mariana nas questões que a acompanham desde 2017, quando vivia na França e começou a se envolver com práticas ecológicas e discursos da colapsologia. A pesquisa acadêmica que desenvolve no mestrado da ECA USP, investigando as relações entre estruturas narrativas e crise climática, atravessa diretamente sua produção literária e a consolida como uma das vozes contemporâneas mais atentas às intersecções entre arte, tecnologia e emergência ecológica.
Sobre a autora
Mariana Brecht nasceu em São Roque, no interior de São Paulo, território de fronteira entre a Mata Atlântica e o Cerrado. É escritora, roteirista, narrative designer de jogos digitais e pesquisadora, com uma produção que transita entre literatura, jogos, audiovisual e música. Estreou na literatura com "Brazza", romance de autoficção publicado pela Editora Moinhos em 2020 e finalista do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Romance de Estreia, e publicou também "Labirinto", livro jogo de poesias lançado pela Editora Jandaíra em 2021, ambas as obras contempladas pelo ProAC. No segmento infanto-juvenil, lançou "A Menina com os Pés no Chão" pela Editora Florear em 2023, obra finalista do Prêmio Jabuti em 2024. Em 2025, lançou o romance "Foi acabar bem na nossa vez" pela Editora Rocco. Em 2026, chega às livrarias "Cyber PANC e Só Zé: O resgate de um poder pifado e outras caraminholas", publicado pela Editora Escarlate com ilustrações de Lumina Pirilampus.
No campo dos jogos digitais, Mariana é referência em narrativa e roteiro. Foi corroteirista e narrative designer de "A Linha", jogo em realidade virtual vencedor do Primetime Emmy Award e do prêmio de Melhor Experiência em Realidade Virtual no Festival de Veneza. Atuou em estúdios como ARVORE Experiências Imersivas, Afterverse e Rogue Snail, e desde 2025 integra a equipe de narrative design do jogo Loftia. É bacharel em Audiovisual pela ECA USP, mestre em Estudos Internacionais pela Université de Toulouse e mestranda no Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais da ECA USP, onde pesquisa as relações entre estruturas narrativas e crise climática. Como compositora e intérprete, integra o projeto musical literário performático Intraterrestres, que une canções, poemas e jogos voltados à reflexão sobre o colapso ambiental.
Serviço
"Foi acabar bem na nossa vez", de Mariana Brecht. Editora Rocco. Romance. Público jovem e adulto. Disponível em https://bit.ly/4ry5LFG
"Cyber PANC e Só Zé: O resgate de um poder pifado e outras caraminholas", de Mariana Brecht, com ilustrações de Lumina Pirilampus. Selo Escarlate, da Companhia das Letras. Literatura infanto-juvenil. Pré-venda disponível em https://bit.ly/4rc76AV.





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