09 fevereiro 2017

[Resenha] O Exorcista


Nos Estados Unidos da América, algo muito estranho acontece. Atingida por uma doença que os melhores especialistas não conseguem descobrir, uma criança caminha para a morte, semeando a destruição à sua volta, ao mesmo tempo que se vai apagando numa agonia atroz.







O que eu achei?
Regan Teresa MacNiel, doze anos, filha de Chris MacNiel, ateísta, atriz de sucesso.

Em sua casa em Gerogetown, Washington D.C., Chris mora com sua filha, Regan, e seus dois empregado, Willie e Karl, e tem a visita frequente de sua assistente, Sharon enquanto trabalha como atriz em seu novo filme. O convívio harmônico e regular de todos eles se vê afetado quando Regan começa a ter seu comportamento alterado, sem nenhuma explicação aparente. Com a piora de menina, sua mãe busca ajuda na ciência, vistando médicos e mais médicos, de varias especialidades, tentando compreender e ajudar sua filha – tudo em vão. Há explicações, mas nenhum tratamento para surtir efeito. Tabuleiro Ouija, espíritos, sons vindos sabe-se lá de onde... O que estatia acontecendo?

A história mostra, dentre outras coisas, dois pontos interessantíssimos: a mãe de Regan Chris, que luta para tentar entender e ajudar sua filha, sem conseguir entender o que há de errado nela – problema psicológico? Demônio? Histeria? Como ateia, no que acreditar, uma vez que a medicina em nada tem ajudado?
Há também o padre/psicologo/professor Damien Karras, que luta contra sua consciência e sua falta de fé, carregando o peso de uma grande culpa que o atormente a cada instante. Tentando encontrar explicações para o caso de Regan, ele se vê ainda mais confuso, questionando a si mesmo, a sua falta de fé, a sua ciência.

O enredo é sombrio, com uma atmosfera extremamente pesada, quase como se você estivesse presenta no local. Extremamente detalhado, nossos sentidos são explorados ao extremo quando o autor expões minuciosamente os acontecimentos, principalmente envolvendo a menina possuída. E permeando todo o drama de que está ao redor, temos o emocional e o mental de Chris e Kerras, que parecem lutar contra si mesmos diante dos acontecimentos que antes pareciam tão surreais, absurdos, fantasiosos. Quase mitológicos.
Um dos pontos que mais me chamou atenção, o ponto que eu mais admirei na escrita de William Peter Blatty, foi como ele conseguiu criar a personalidade do demônio, assustadora, repulsiva, repugnante, onde, durante a leitura, é impossível não sentir um frio na espinha, um leve medo e fascínio. A inteligencia e a destreza do mal foi construída não apenas para confundir o padre, mas também para mexer com o leitor, brincar e questionar seus conceitos de bem e mal. Além disso, temos uma visão mais ampla sobre a possessão, seus efeitos não somente no possuído, mas em como afeta os outros. Quem nunca se perguntou o porque disso acontecer?
Por vezes, mesmo conhecendo a história, me pegava questionando a veracidade da possessão de Regan. Os fatos e constatações médicas são tão bem elaboradas e explicadas, que é quase impossível aquela ponta de dúvida não surgir quanto a veracidade do caso. Mas, ainda assim, também é impossível não se questionar: e se for verdade?

Regan é ambígua, sendo ela a causa do mal e sua vítima. Sentimentos conflitantes surgem nos momentos em que ela aparece. As descrições físicas são assustadoramente detalhadas; as reações físicas da menina enquanto possuída são horripilantes. Não há filtro nessa história. Não há sutileza. O mal não é sutil; é violento, sujo, feroz, e o autor soube, de maneira ímpar, demonstrar o lado corruptor do “inimigo do homem”. Mostrou a angustia e a tortura. A profanação. O divertimento e os jogos mentais que o mal é capaz de fazer para iludir quem o ouve. E o padre Karras, com sua fé abalada e sua alma cheia de culpa, será capaz de resistir ao joguetes do demônio?

Essa história vai muito além da luta do bem contra o mal, da fé contra o descrente, Deus e Diabo. Isso seria algo muito superficial e clichê, e não faria desse livro um dos maiores sucessos do gênero. Questões pessoais são muito mais relevantes nessa história. Para mim, algumas dessas histórias – incluindo essa – não são apenas sobre o diabo, suas ações e como ele quer dominar o mundo – isso seria, como disse, algo muito superficial e simplório. Elas tratam da fé, e da renovação da fé, ainda que não se acredite em nada. Mas o questionamento sempre fica, para aqueles que possuem a mente mais aberta.

Envolvendo suspense, drama, terror, segredos obscuros, questionamentos morais e levemente filosóficos e personagens cativantes, com uma escrita abrangente, detalha e inteligentíssima, que destrincha a mente dos personagens pouco a pouco, O Exorcista é um livro fantástico, um clássico eterno, um dos melhores livros que já li – e o primeiro do gênero.

Como diz na capa, “poucos leitores sairão ilesos.”

Um comentário

  1. Irlan, confesso que tenho um pouco de receio em ler esse livro.
    Nunca me sinto muito bem , quando leio livros assim ou assisto filmes do gênero.
    Fico incomodada!
    E fico horas pensando em tudo.
    Para se ter uma ideia, até a capa me incomoda.

    Tenho vontade de ler. Mas tenho medo também! ;)

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