[Artigo] Mulheres negras na ciência: integrando vivência acadêmica e atuação social
No imaginário social a figura do cientista é um homem branco de jaleco, encerrado em seu laboratório, controlando máquinas e experimentos. O agente do processo de construção do fazer científico e do progresso da ciência.
Das atividades classificadas com base em critérios de gênero, o ser cientista é provavelmente aquela que mais marginaliza mulheres. Não performamos o estereótipo de cientista e não somos reconhecidas como seres pensantes capazes de analisar dados e abstrair para construir interpretações sobre fenômenos e a realidade.
Se a História da Ciência não incluiu mulheres em suas narrativas, imagine as mulheres negras que numa leitura interseccional são duplamente afetadas pelos processos discriminatórios, de raça e gênero.
A nota técnica do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), publicada em 2025, sobre o censo dos grupos de pesquisa (GPs) do CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico) revela evolução no número de mulheres cadastradas nos GPs entre 2000 e 2023, sendo respectivamente, 44% e 52%. Os dados, no entanto, não informam sobre a proporção entre mulheres negras e brancas.
Já os dados para líderes dos grupos de pesquisa registram aumento do número de mulheres negras no período de 2000 para 2023, um aumento, respectivamente, de 3,2% para 10,4%. Quando observamos as informações sobre bolsistas de produtividade em pesquisa (PQ/CNPq) o número de mulheres negras é de apenas 5,6% do total.
O aumento do número de mulheres negras nos GPs evidencia o efeito das políticas públicas. A lei de cotas que institui reserva de vagas para negros nas instituições federais no ensino superior (2012), o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), de 2007, que duplicou o número de vagas para estudantes e alocou 20 mil novos professores na carreira do magistério de nível superior. Essas ações do governo federal podem explicar os números acima relatados, bem como justificam o crescimento de mulheres negras bolsistas de iniciação científica, mestrado e doutorado nos últimos anos.
A marginalização e a invisibilidade das mulheres negras na ciência não é só sobre o número reduzido de pesquisadoras. É também sobre a desconfiança acerca dos resultados de pesquisas e sobre as escolhas dos temas de estudo. Pois, a entrada das mulheres negras na pós-graduação agrega aos programas na área de ciências humanas e sociais questões que nos atravessam enquanto sujeitos e quando as pesquisas são conduzidas por mulheres pertencentes às comunidades tradicionais, na busca por técnicas e conhecimentos que auxiliem na convivência com seus territórios de origem, a desconfiança é sobre a validade do conhecimento pela falta de neutralidade científica.
Nas ciências exatas cientistas negras têm suas descobertas e propostas questionadas pela dúvida na competência técnica para conduzir um estudo.
Em qualquer das situações as mulheres negras são suspeitas ao confrontarem o papéis que o imaginário social determinou para elas, resumido na expressão “incapazes de conhecimento abstrato”.
Os impactos epistêmicos do machismo e do racismo nas Ciências podem ser observados no apagamento dos conhecimentos quilombolas, indígenas, de terreiros e periféricos. Etnosaberes, que auxiliaram por séculos povos a viverem em seus territórios e transformá-los em locais de preservação e sobrevivência, não são reconhecidos ou são considerados parte de uma ciência menor, por não estarem fundados no uso de metodologias e técnicas de validação tradicionais.
Além disso, as mulheres negras enfrentam barreiras institucionais e sociais para ingressar e se manterem na pesquisa científica. Socialmente precisam dar conta da dupla, às vezes, tripla jornada de trabalho, com maternidade, trabalho doméstico e cuidados com idosos. Institucionalmente são minoria nos cargos de liderança nos setores administrativos das universidades, nos quais são delineadas as políticas para professores e estudantes. Para termos uma ideia, só em 2018 uma mulher negra assumiu o cargo de reitora numa universidade federal, Joana Angélica Guimarães da Luz, e apenas em 2020 foi empossada a primeira pró-reitora negra na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, instituição pioneira na implementação de cotas sociais e raciais no Brasil.
A ciência produzida por mulheres negras e sua presença na administração universitária permite trazer a público a complexidade e a pluralidade das contribuições humanas ao autorizar vozes e experiências dissonantes na pesquisa e política acadêmica. Propostas e estudos que atravessam as experiências de vida dessas mulheres e respondem a questões sociais próprias de populações subalternizadas e vulnerabilizadas.
As conquistas obtidas nas pesquisas são consideradas coletivas porque há o reconhecimento das contribuições do outro na construção do conhecimento e há a premissa da importância dos estudos para a coletividade. A ciência criada por mulheres negras nasce no território e nas lutas comuns por direitos e indica um caminho alternativo ao modo de produção acadêmica tradicional, ao reconhecer a pluralidade e a diferença nos temas e no modo de fazer ciência.
Exemplo são as mulheres negras de terreiro cujo objetivo na universidade é construir conhecimento para apoiar as comunidades tradicionais às quais pertencem. Suas pesquisas buscam impactar os territórios e os sujeitos ao reconhecerem os saberes compartilhados nos terreiros e propor respostas às questões sociais enfrentadas no cotidiano. Desafios ampliados pelas diferentes temporalidades e ritmos de criação do conhecimento produzido em territórios tradicionais, onde as ações e os eventos precisam ser maturados para serem compreendidos e repassados, seja para ensinamento interno das comunidades seja para coleta e análise de dados de pesquisa. Acrescente-se a necessidade de validar dados e interpretações com os grupos e sujeitos mais experientes a fim de construir narrativas que apoiam a reivindicação e a luta por direitos.
Mulheres negras buscam horizontalizar as relações de poder na coleta e interpretação dos dados e dar suporte aos colaboradores do estudo, para garantir que esses possam conhecer e corroborar os dados divulgados, um dos, muitos, caminhos metodológicos utilizados para promover uma ciência menos elitista e excludente.
Para termos mais mulheres negras, de diferentes origens, nas ciências precisamos indagar: é possível construir uma ciência inclusiva? Que atende as diferentes experiências sociais dos sujeitos e considere os aspectos de classe, gênero, idade, raça e território? Uma ciência que não seja um empreendimento apenas ocidental? Podemos fazer ciência para abraçar a diversidade humana?
*Ilaina Damasceno é doutora em Geografia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde integra o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB). Com trajetória acadêmica focada em relações étnico-raciais e espaço público, atua também como cambone na Tenda Espírita do Boiadeiro, em Niterói, no Rio de Janeiro. É autora do "Iemanjá em Mares Verdes", livro que nasceu de pesquisa de doutorado na UFF e investiga como as religiões de matriz africana utilizam o espaço público como palco de resistência e afirmação cultural. Seus trabalhos anteriores incluem coletâneas sobre juventude de terreiro, com enfoque nas dinâmicas culturais e políticas das periferias.

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