[News] Duas conferências de Claude Lévi-Strauss revelam a formação e a maturidade de um dos maiores antropólogos do século XX
Em De Montaigne a Montaigne, pensador francês revisita o legado do autor dos Ensaios e reflete sobre alteridade, etnologia e a construção da antropologia moderna
Separadas por mais de meio século, duas conferências de Claude Lévi-Strauss delimitam um arco singular de sua trajetória intelectual. Em De Montaigne a Montaigne, lançamento da Editora Unesp, o antropólogo francês aproxima dois momentos decisivos de sua obra: o primeiro, em 1937, pouco depois de suas expedições pelo Brasil central; o segundo, em 1992, quando já era reconhecido como um dos maiores nomes das ciências humanas. Reunidos pela primeira vez em português, os textos revelam a permanência de um diálogo intelectual que acompanhou toda a sua vida: o encontro com o pensamento de Michel de Montaigne.
Na conferência de 1937, dirigida a um público de militantes sindicais em Paris, Lévi-Strauss questiona a ideia de superioridade da civilização ocidental e defende a etnologia como instrumento para compreender a diversidade das sociedades humanas. O texto registra um momento raro de sua produção, anterior à consolidação do estruturalismo, quando o jovem pesquisador ainda elaborava as bases de uma crítica ao evolucionismo linear e aos pressupostos do pensamento colonial.
Mais de cinco décadas depois, a conferência de 1992 retoma essas inquietações sob outra perspectiva. Ao refletir sobre os quinhentos anos da chegada europeia à América e o quarto centenário da morte de Montaigne, Lévi-Strauss identifica no humanista francês uma das origens da atitude antropológica moderna. Ao confrontar os relatos de viajantes como Jean de Léry e André Thevet, mostra como o encontro com os povos americanos obrigou a Europa a rever suas próprias certezas e inaugurou uma nova forma de pensar a alteridade.
Com tradução de Pedro Paulo Pimenta e apresentação de Emmanuel Désveaux, o volume constitui uma porta de entrada privilegiada para compreender como experiência etnográfica, filosofia e história convergiram na construção da antropologia contemporânea. Ao reunir textos escritos em momentos tão distintos da carreira de Lévi-Strauss, a edição evidencia a coerência de uma obra dedicada a compreender, na diversidade das culturas, aquilo que permanece comum à experiência humana.
“Seja diante dos quadros de operários da CGT, seja em um círculo de veneráveis médicos, Lévi-Strauss se põe sempre ao alcance de seu auditório, parece querer lhe oferecer o seu íntimo. Mas, se o toma pela mão, é in fine para melhor surpreendê-lo a contrapé”, anota Emmanuel Désveaux. “Do mesmo modo, os seus escritos, mesmo os mais árduos, parecem revelar um cuidado constante de manter o leitor a seu lado, de não o abandonar a meio caminho. Tudo isso sem rebaixar a língua, mas ao contrário, servindo-se dela integralmente, quer dizer, de fato, servindo-a. Lévi-Strauss se situa assim nos antípodas de numerosos escritores atuais, que escrevem como se falassem e que falam não importa o quê. Ele é o último dos clássicos.”
Sobre o autor
Claude Lévi-Strauss (1908-2009) foi um antropólogo e filósofo francês, fundador da antropologia estrutural. Sua obra, centrada na análise dos mitos e das estruturas de parentesco, revolucionou as ciências humanas no século XX ao investigar as leis universais do espírito humano.
Título: De Montaigne a Montaigne
Autor: Claude Lévi-Strauss
Tradução: Pedro Paulo Pimenta
Estabelecimento de edição e apresentação: Emmanuel Désveaux
Número de páginas: 98
Formato: 11 x 18 cm
Preço: R$ 49
ISBN: 978-65-5711-344-8


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