[News] Quem constrói o Brasil não está nas placas: novo livro de Igor dos Santos Mota confronta apagamentos históricos pela poesia
Em “Se essa Rua fosse minha”, autor baiano transforma memória, classe trabalhadora e crítica ao cânone em uma escavação política do país
O que sustenta o Brasil quando se olha para além de suas superfícies? Em Se essa Rua fosse minha (https://mondru.com/produto/se-essa-rua-fosse-minha/), terceiro livro de Igor dos Santos Mota, a resposta não se organiza como síntese, mas como escavação. Publicado pela Mondru, o livro parte de uma investigação poética que atravessa história, linguagem e experiência, propondo uma leitura do país a partir de suas camadas menos visíveis.
A edição conta com capa ilustrada por Gabriel Bastos e texto de quarta capa assinado pela escritora Jarid Arraes, vencedora dos prêmios APCA e Biblioteca Nacional e finalista do Jabuti, que define a obra como “o que sonho e o que desejo para a poesia brasileira”. Segundo ela, “a escrita de Igor me chega tão nova, corajosa. É de uma genialidade chocante”.
Finalista do DPF Prize for Poetry 2025/26, semifinalista do New Writers UK Poetry Competition 2025 e primeiro lugar no Concurso Literário Noite da Poesia (2024), o autor chega ao novo livro após Gravar o Instinto (em parceria com Danielle Tosta) e meu pescoço cansado de seguir teu rastro.
Entre memória, identidade e território
Os três eixos que atravessam o livro — memória, identidade e território — se articulam como dimensões inseparáveis da experiência histórica e da formação cultural brasileira.
Organizado em três “fiadas”, em referência direta à construção civil, o livro constrói uma arquitetura própria. A escolha formal não é decorativa, mas estrutural: nasce de uma relação íntima do autor com o universo do trabalho. “Minha família tem uma ligação muito forte com a construção civil: caminhoneiros, pedreiros, mineradores”, afirma. Ao deslocar essa herança para o campo da linguagem, o livro transforma memória familiar em princípio de composição.
A primeira parte, Confissões do Lodo, propõe uma recontação da história do Brasil a partir de traumas e violências que persistem como matéria não resolvida. A escrita se organiza por acúmulo e tensão, operando na fricção entre o que foi narrado e o que permaneceu soterrado. Não por acaso, o livro se inicia com uma afirmação que atravessa toda a obra: “todo poema começa com um engasgo”.
Na segunda parte, Autópsia das Entranhas, a estratégia se desloca para a sátira. A criação de um crítico fictício permite tensionar um modelo de leitura que, sob a aparência de neutralidade, desconsidera os atravessamentos históricos e políticos da arte. “Essa ideia de ignorar completamente a vida do artista e só focar na obra se torna meio ofensiva”, afirma. O alvo é um modo de legitimação que, segundo ele, ainda marginaliza produções fora do eixo dominante.
A terceira parte, Poética das Fissuras, concentra o movimento mais radical do livro. Nela, surgem nomes próprios, vozes familiares e personagens que não costumam ocupar o centro da narrativa literária. A linguagem se aproxima da oralidade, incorporando o que o autor define como uma “língua caatingueira”. Ao fazer isso, o livro não apenas representa essas vozes, mas reorganiza o próprio campo de enunciação da poesia.
Uma poesia entre deslocamentos geográficos
Nascido em 2000 e criado no povoado de Bela Vista, às margens do açude Jacurici, em Cansanção (BA), Igor dos Santos Mota é doutorando em Educação pela Universidade de Derby, na Inglaterra, para onde se mudou em 2024. Foi a experiência de imigrante — primeiro em Portugal, depois no Reino Unido — que fez borbulhar os temas centrais do livro.
Escrito ao longo de três anos, em diferentes países, o projeto amadurece a partir dessa vivência. “Foi fora do Brasil que percebi tanto a permanência da ferida colonial quanto uma solidariedade possível entre trabalhadores de diferentes países”, afirma.
Além da atuação como poeta, o autor é professor, tradutor e pesquisador. É licenciado em Letras com Inglês pela Universidade Estadual de Feira de Santana e foi bolsista de mobilidade acadêmica na Universidade do Minho, em Portugal. Também conquistou o 2º lugar no Festival de Poesia de Lisboa (2025), entre outras premiações.
Entre as referências assumidas, escritores nordestinos como Adelaide Ivánova, Paulo Freire e Nêgo Bispo aparecem como presenças formativas. A leitura de Asma, de Ivánova, foi decisiva para o projeto. “Quando li, entendi que meu livro podia existir”, afirma. Um conselho da poeta pernambucana é, inclusive, citado em um dos poemas do livro: “como Adelaide / me ensinou / e repito / apois escreva / você / escreva”.
Com esse lançamento, Igor dos Santos Mota consolida uma poética que articula experiência, linguagem e crítica, deslocando o olhar para aquilo que estrutura o Brasil e permanece, em grande medida, invisível.
Ficha catalográfica
Título: Se essa Rua fosse minha
Autor: Igor dos Santos Mota
Editora: Mondru
Gênero: Poesia
Ano: 2026
Número de páginas: 144
Preço de capa: R$59,90
Preço com desconto na pré-venda: R$49,90
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