[News] Crise climática e amor em disputa: romance transforma colapso ambiental em história urgente sobre terra, luto e futuro
Publicada pela Rocco, obra transforma colapso ambiental e conflito fundiário em narrativa contemporânea sobre segunda chance amorosa, luto e os projetos de futuro que estão em disputa no país
Em Foi acabar bem na nossa vez, romance de Mariana Brecht publicado pela Editora Rocco, a crise climática deixa de ser pano de fundo e se torna o eixo central de uma história de amor atravessada por conflito de terras, ansiedade ambiental e disputa por modelos de mundo. A autora, finalista do Prêmio Jabuti (2024) na categoria Infanto-juvenil e finalista do Prêmio São Paulo de Literatura (2021) na categoria Romance de Estreia com Brazza, além de co-roteirista do jogo vencedor do Emmy "A Linha", aposta na ficção climática para narrar não um futuro distópico, mas um presente em colapso, e pergunta: como amar quando o chão está literalmente ruindo?
O aquecimento global, a especulação imobiliária disfarçada de política ambiental e a ansiedade de uma geração que já não consegue se projetar no futuro são o pano de fundo da trama. Mas quem espera uma distopia apocalíptica encontra, nas páginas do livro, uma delicada história de amor, reencontros e a descoberta de que, mesmo diante da escassez, ainda há espaço para a beleza, a comunidade e a esperança.
Passada em meados da década de 2030, no interior do estado de São Paulo, a trama acompanha Maria Clara, uma jovem designer de jogos que, após perder o emprego em meio ao colapso da indústria de tecnologia e ao agravamento da crise ambiental, vê-se obrigada a retornar à cidade do interior onde cresceu. Na Pedreira, o reencontro com o território da infância é também o reencontro com Antônio, seu amor da adolescência, e com uma comunidade em disputa. Enquanto Antônio dedica a vida a cultivar uma agrofloresta que abastece os vizinhos, a prefeitura ameaça despejar sua família para implementar um projeto de "compensação de carbono", uma monocultura de eucaliptos que escancara o greenwashing e a lógica predatória do capital.
"A disputa por esse terreno espelha a disputa de soluções para a crise climática: tentaremos nos reinventar e viver em harmonia com a natureza ou seguir apostando nas soluções do capital para que nada mude?", provoca a autora. "A crise climática é o tema mais importante da contemporaneidade e o maior desafio enfrentado pelas pessoas que imaginam presentes e futuros, como nós, que escrevemos. Trata-se da crise das condições materiais de nossa existência e talvez seja a mãe de todas as crises, ao atravessar questões como justiça social, desigualdade de gênero ou racial, movimentos migratórios, entre outras."
"Solastalgia: a dor de ver o território morrer diante dos olhos"
Com uma estrutura não linear que transita entre o presente do colapso e as memórias da adolescência dos personagens — incluindo um flashback central que remete à época em que Maria Clara e Antônio se conheceram —, o romance aborda temas como luto, memória, conflito de terras e o que o filósofo Glenn Albrecht chamou de solastalgia: a angústia de ver o território que amamos se transformar diante dos nossos olhos, um tipo de sofrimento ainda pouco nomeado, mas que atinge cada vez mais pessoas no planeta. A perda do avô, figura central na formação de Maria Clara, é também uma ferida aberta que a conecta à necessidade de preservar as terras da Pedreira.
"Era essencial mostrar que as histórias de amor, assim como qualquer tipo de história, seguirão acontecendo durante a crise climática e serão, sem dúvidas, atravessadas pelo colapso do clima", afirma Brecht. "É isso que acontece com Maria Clara e Antônio. Ele é o personagem que mostra à Maria Clara e à pessoa leitora que ainda é possível viver (e amar) no mundo em que estamos, apesar da crise. É preciso, porém, se desprender da ideia do mundo de antes, embutido no progresso e no capital, e se deixar imaginar um novo projeto de mundo. Uma história de segunda chance ao amor é também uma história de segunda chance ao mundo."
A escrita da autora, que transita entre a prosa corrida e momentos de lirismo, ganha potência ao incorporar narradores mais-que-humanos: sementes de feijão que dialogam entre si, um carcará que sobrevoa a Pedreira, a água, o sol, a Terra. A escolha reflete uma busca por dissolver as fronteiras entre humanidade e natureza, integrando todas as criaturas na construção de saídas possíveis. "É uma maneira de integrar aquilo que chamamos de natureza às personagens humanas e tentar abolir as fronteiras e hierarquias entre os viventes", explica a autora.
Foi acabar bem na nossa vez é também um livro sobre o poder do coletivo. Em tempos em que o discurso do herói individual ainda impera, a narrativa aposta na assembleia comunitária, nas relações de conflito e cuidado entre vizinhos, e na ideia de que a crise é grande demais para ser resolvida por uma pessoa só. "Não há protagonista", adianta a autora. "Há uma comunidade. A crise climática é um problema grande demais para ser resolvido por uma só pessoa. E também não há uma maneira única de resolvê-lo. O conflito central é resolvido de maneira coletiva e comunitária. A história também mostra que, apesar de coesa, essa comunidade não é uniforme: há conflitos, disputas e, ainda assim, soluções comuns são possíveis."
Autora usa ecoansiedade como motor da escrita: "Era minha estratégia para mergulhar no tema"
A publicação chega em um momento em que o Brasil enfrenta ondas de calor extremo, enchentes e a intensificação do debate sobre emergência climática. Para Brecht, a ficção pode ser uma ferramenta poderosa para lidar com a ecoansiedade. "Escrever foi minha estratégia para mergulhar num assunto que me angustiava. A escrita do livro foi motivada pela minha vontade de me aprofundar no tema da crise climática, que sempre me causou muito assombro. A escrita é minha maneira de formular o que está à minha volta, por isso me comprometi a mergulhar no processo profundo de um romance a fim de melhor poder manejar o tema. Foi também a minha estratégia para lidar com minha própria ansiedade climática, que me assolava desde 2017, quando vivia na França e comecei a me inteirar e participar de práticas ecológicas, como 'lixo zero' ou veganismo, e também de discursos de colapsologia de autores como Pablo Servigne. Desse mergulho, emergi, não com uma solução, mas com ideias, companhias, perguntas, formulações."
A obra já conta com elogios de escritoras contemporâneas. Para Fabiane Guimarães, autora de Apague a luz se for chorar e Como se fosse um monstro, o livro "aborda a urgente crise climática de maneira inédita e sensível" e confirma Mariana "como uma das autoras mais talentosas da literatura brasileira contemporânea". Ana Rüsche, autora de A telepatia são os outros e Carga viva, destaca que o romance "entrelaça histórias de amor e de amizade dentro de um mundo afetado pela crise climática. Mas não espere uma obra pessimista: é uma travessia cheia de sonhos, amadurecimentos e encontros, que celebra a vida que insiste em permanecer". Já Julia Dantas, de A mulher de dois esqueletos, define a obra como "às vezes melancólico, às vezes incendiário, num estilo repleto de metáforas deliciosas e com a capacidade de nos emocionar até com o relato de um grão de feijão", classificando-o como "uma distopia tão realista que talvez venha a se provar premonitória".
Escrito ao longo de dois anos, em paralelo ao trabalho como designer de narrativas para jogos digitais — área em que a autora acumula prêmios como o Primetime Emmy pelo jogo A Linha —, o livro passou por diferentes versões de escaleta antes de chegar à forma final. Com formação em roteiro, Mariana estruturou cuidadosamente os conflitos e as camadas narrativas. "Como sou roteirista de ofício e formação, para mim é muito importante estruturar a história antes de passar à escrita de fato. Por isso, escrevi algumas versões de uma escaleta e, só então, comecei de fato a desenvolver os capítulos. É claro que o processo não é hermético, há abertura para mudanças e vai e vens, mas, para mim, trata-se de uma estratégia importante para garantir uma história com começo, meio e fim."
O resultado é um romance que combina tensão política, intimidade afetiva e reflexão ecológica, oferecendo uma alternativa narrativa para falar da crise ambiental sem negar sua gravidade. Ao deslocar o foco do "fim do mundo" para as escolhas possíveis no presente, Mariana Brecht entrega uma história urgente sobre amor, território e sobrevivência, colocando a literatura no centro do debate sobre o futuro que ainda podemos construir.
Sobre a autora
Mariana Brecht (ela/dela) é escritora, roteirista, narrative designer de jogos digitais e pesquisadora, nascida em São Roque (SP), entre a Mata Atlântica e o Cerrado. Atua na interseção entre literatura, jogos, audiovisual e música, com uma produção marcada pela linguagem poética, pela experimentação formal e pela presença constante da temática da crise climática, da ecoansiedade e da solastalgia.
É autora dos livros Brazza (Editora Moinhos, 2020), romance de autoficção finalista do Prêmio São Paulo de Literatura (2021) na categoria Romance de Estreia, e Labirinto (Editora Jandaíra, 2021), livro-jogo de poesias, ambos contemplados pelo ProAC. Publicou também o livro infanto-juvenil A Menina com os Pés no Chão (Editora Florear, 2023), finalista do Prêmio Jabuti (2024) na categoria Infanto-juvenil. Em 2025, lança pela Editora Rocco o romance Foi acabar bem na nossa vez. Em 2026, lança pela Editora Escarlate Cyber PANC e Só Zé: O resgate de um superpoder pifado e outras caraminholas, obra infanto-juvenil que mistura humor, aventura e imaginação ecológica.
No campo dos jogos digitais, é referência em narrativa e roteiro. Foi co-roteirista e narrative designer de A Linha, jogo em realidade virtual vencedor de um Primetime Emmy Award e do prêmio de Melhor Experiência em Realidade Virtual no Festival de Veneza. Atuou como narrative designer em jogos premiados e de grande alcance como YUKI (finalista do DICE Awards), PK XD, Relic Hunters: Legend e Hell Clock, além de projetos independentes e experimentais. Trabalhou em estúdios como ARVORE Experiências Imersivas, Afterverse e Rogue Snail, e desde 2025 é narrative designer e roteirista do jogo Loftia.
Mariana é bacharel em Audiovisual pela ECA-USP, mestre em Estudos Internacionais pela Université de Toulouse e mestranda no Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais da ECA-USP, onde pesquisa as relações entre estruturas narrativas e a crise climática. Atua também como professora de roteiro para jogos, palestrante em eventos como Gamescom Latam e Bienal do Livro, e participa de debates sobre narrativa contemporânea, jogos e emergência ecológica.
Como compositora e intérprete, integra o projeto musical-literário-performático Intraterrestres, que une canções, poemas e jogos voltados à reflexão sobre o colapso ambiental. Seu trabalho transita entre diferentes linguagens, dissolvendo fronteiras entre arte, tecnologia e pesquisa, sempre com o objetivo de imaginar outros modos de sentir, narrar e habitar um mundo em crise.
Adquira o livro no site da editora: https://rocco.com.br/produto/foi-acabar-bem-na-nossa-vez/



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