10 março 2017

[Resenha] Caixa de Pássaros

Romance de estreia de Josh Malerman, “Caixa de Pássaros” é um thriller psicológico tenso e aterrorizante, que explora a essência do medo. Uma história que vai deixar o leitor completamente sem fôlego mesmo depois de terminar de ler. Basta uma olhadela para desencadear um impulso violento e incontrolável que acabará em suicídio. Ninguém é imune e ninguém sabe o que provoca essa reação nas pessoas. Cinco anos depois do surto ter começado, restaram poucos sobreviventes, entre eles Malorie e dois filhos pequenos. Ela sonha em fugir para um local onde a família possa ficar em segurança, mas a viagem que tem pela frente é assustadora: uma decisão errada e eles morrerão.
O que eu achei?
“Quão longe uma pessoa consegue ouvir?”
Já no inicio de CAIXA DE PÁSSAROS, encontramos a protagonista Malorie fugindo com seus dois filhos – Garoto e Menina – da casa em que estiveram nos últimos quatro anos, aproveitando de uma misteriosa neblina que surgiu.
O enredo intercala o passado e o presente de Malorie. O início de toda a comoção. O surgimento do mal, seus efeitos e a inevitável instalação do caos no mundo. Qualquer um que o visse – seja lá ao que esse o se refira – estaria fadado a cometer atos horríveis. Estaria fadado a morte. Sua proteção fora de casa: vendas nos olhos.

“Num mundo onde não podemos abrir os olhos, uma venda não é tudo que temos para nos defender?”
No passado temos Malorie e sua irmã, Shannon, duas personalidades opostas que volta e meia estão a discutir. Malorie descobre que está gravida no mesmo momento em que a ameaça que paira no mundo e faz as pessoas morrerem começa a surgir. Malorie se vê cética, inicialmente, mas logo perceberá, após uma tragédia, que a ameaça é mais real do que pode imaginar.
Através de um comunicado encontrado em um jornal, ela descobre uma casa que acolhe sobreviventes. Nesta casa, ela encontra mais cinco pessoas. Ali, uma pequena comunidade se forma, em uma casa de portas sempre trancados e janelas sempre obstruídas. Uma fazenda de formigas num mundo pós-apocalítico, tentando sobreviver ao inimigo desconhecido que vaga pelas ruas, a espreita.
Nesta casa vemos os efeitos psicológicos desse confinamento, tendo como plano de fundo um mundo onde a moral, a ética; onde os conceitos mais básicos de convivência parecem não ter mais tanta importância ou relevância. É ali que surgem os questionamentos mais profundos do livro: Qual o limite aceitável nas decisões que devemos tomar para nos protegermos e protegermos quem amamos? Nesse novo mundo, ainda existe algo considerado como maldade, crueldade ou tudo vale pela sobrevivência?

Malorie grávida, luta para entender como será a vida de seu filho neste mundo novo, perigoso e desconhecido. Como viver em um mundo onde não podemos ver nossos inimigos? Seriam inimigos mesmos? Vale a pena lutar para sobreviver em um mundo em que ver, olhar para algo pode significar a sua morte?
Ainda, com a chegada de uma nova sobrevivente, também grávida, dá inicio a uma pequena rachadura na estrutura que se tornará mais frágil com a chegada de Malore. Contudo, a chegada de um homem misterioso, que saiu fugido de uma outra casa com tantas outras pessoas, e sua mala cheia de histórias, abala as estruturas daquela diminuta sociedade de forma avassaladora. Sua fala enfeitada, seu ar plasticamente simpático; tudo nele dispara um alarme em Malorie. Há algo nele. Mas o que?
Este novo integrante trás ainda mais duvidas e questionamentos às mentes da casa – e a mente do leitor, também. Quem serão essas “criaturas” que estão lá fora, vagando? Será que todos são afetados? Será que existe alguém capaz de suportar olhar para eles e sobreviver? Quem, na atuais circunstancias, onde todo mundo é um estranho e a confiança no próxima é algo extremamente frágil, é realmente confiável? Quem é verdadeiro? Quem á mais perigoso: os humanos postos nessas situações extremas, vivendo confinados sobre o mesmo teto tentando sobreviver dia após dias, ou as criaturas do lado de fora?
Nesta casa, Malorie tem exemplos de confiança, liderança, coragem, gentileza; uma pontada de esperança de que ainda haja um pouco de humanidade por aí. Mas também há loucura, o medo escondido em cada ruído externo, em cada olhar por sobre os ombros, em cada passo. Em quem confiar realmente?

“O HOMEM É A CRIATURA QUE ELE TEME”
No presente, Malorie e seus filhos estão fugindo pelo rio que corre atras da casa em que passaram os últimos quatro anos. Desde sempre treinara seus filhos para entenderem o mundo não com os olhos, mas com os ouvidos. Determinada, de forte personalidade, decidida. Ainda assim, é mãe. Seu lado materno luta constantemente contra o seu lado sobrevivente: fez de tudo para treinar os filhos e torná-los aptos a ouvirem e decifrarem o menor dos ruídos. Jamais deveriam abrir os olhos fora de casa. Mas seria isso vida para seus filhos, de apenas quatro anos?
“Como pode esperar que seus filhos sonhem em chegar às estrelas se não podem erguer a cabeça e olhar para elas?”
No processo de fuga, todos estão de olhos vendados – Malorie e seus filhos. Sendo assim, tudo o que temos são noções. As crianças nos descrevem o que ouvem, e nós – leitores -, confiamos. O autor soube, de forma excepcional, criar uma atmosfera angustiante e inquietante de um mundo que só pode – e só deve – ser ouvido, pela sua segurança e de quem está ao seu redor. Tudo é sombra. Tudo é perigo. A única coisa que a faz seguir em frente é a esperança.
Porém, há inimigos invisíveis, loucos que surgem do nada, animais ferozes, a natureza em fúria... O rio é uma área viva, cercada do desconhecido, povoado por sons assustadores. Algo os segue... Às vezes, parece está por todos lados. Às vezes, parece estar tão próximo deles... O que será?

“... é melhor enfrentar a loucura com um plano do que ficar parado e deixar que ela nos alcance aos poucos.”
O que é mais assustador – o desconhecido ou o que ele causa? Ainda valeria a pena viver (sobreviver) no que restou do planeta? Quando não sabemos contra quem lutamos, como e com o que podemos nos defender? O som que segue Malorie pelo rio, o que será? Será alguém que quer feri-la? Uma criatura? Ou será um velho conhecido em busca de vingança?
CAIXA DE PÁSSAROS foi uma leitura inquietante, de tirar o fôlego e acelerar o coração a cada página virada. Se mostra ao nossos olhos quase como um estudo da mente humana, posta a prova, lutando contra seu inimigo mais primitivo: o medo. Uma escrita que soube explorar de forma impecável as sensações humanas, a psique em colapso, o nosso auto-proclamado trono no topo da cadeia alimentar, caído por terra ao encontro de “seres” que sequer sabemos o que são.


Muitos detalhes foram deixados de fora dessa resenha, dos dois momentos da história, não porque não importam, mas simplesmente para não escrever mais do que já escrevi.
Para terminar: quando tive contato com esse livro por meio de grupos de leitura, vi que muitos reclamaram de pontos soltos na história que mereciam uma continuação. Para mim, no mundo em que se desenrola toda a trama, alguns pontos inevitavelmente devem ficar soltos, no ar. Não se pode abrir os olhos e buscar por conclusões lógicas e rápidas na situação em que se encontram. Às vezes, deve-se aceitar as coisas como elas são. Buscar por essas respostar pode custar caro.
Entretanto, se é isso que você procura, saiba que você estaria morto assim que seus olhos se abrissem, mesmo que por um segundo.

13 comentários

  1. Oi Irlan!
    Já ouvi muitos comentários sobre esse livro. é o tipo de história que deixa a gente ansioso pelas próximas páginas.
    Achei um enredo bem criativo e nunca li nada parecido.
    Apesar de não ter lido faz todo sentido ficarem pontas soltas devido a forma em que eles se encontram no livro.
    Beijos
    Aichha Carolina Pereira
    aichha_carolina_p@hotmail.com

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    1. Oi Aichha. Eu nunca fiquei tão angustiado lendo um livro quanto fiquei com esse (talvez só com O Exorcista). E o final cabe perfeito na proposta do enredo; é um linha lógica, não? Não pode ver, não tem como saber.
      Um dos meus livros favoritos do ano ❤

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    2. fiquei ainda mais curiosa para ler, nunca vi proposta tão diferente!

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  2. Irlan!
    Parece ser um daqueles thrillers psicológicos que envolvem mais o leitor do que os protagonistas, afinal, vivemos 'sem os olhos deles' cada sentimento e angústia que passam em um mundo pós-apocalíptico que não se sabe se vale a pena continuar vivendo...
    “Não confunda jamais conhecimento com sabedoria. Um o ajuda a ganhar a vida; o outro a construir uma vida.” (Sandra Carey)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de MARÇO, livros + KIT DE PAPELARIA e 3 ganhadores, participem!

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    1. Parece e é! Uma leitura inquietante ao extremo, de deixar o coração a mil por hora

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  3. Assim que esse livro foi lançado,fiquei quase que psicótica para adquirir logo. E foi o que aconteceu!
    E não me arrependo.
    Quando eu tinha que parar de ler para fazer alguma coisa,não pensava em mais nada a não ser em terminá-lo logo para descobrir o que viria depois.

    Eu adorei!

    janaina silva
    silvajanaina576@gmail.com

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    1. Janaina, eu ficava do mesmo jeito quando tinha que parar de ler pra fazer algo hahaha
      Era impóssivel me desconectar da história antes de chegar ao fim. Também adorei :3

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  4. eu estou louca para ler esse livro
    sempre acontece alguma coisa que não deixa eu começar..
    achei bastante interessante seu comentários sobre as pontas soltas, que foi uma das maiores críticas que eu li, tanto que por causa de algumas dessas eu ia desistindo de ler, mas vou ler para tirar minhas próprias conclusões, mas pelo que eu conheço do livro talvez tenha sido intenção do autor

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    1. Oi, Mariana. Eu também li todas essas críticas antes de ter os livros, mas só me deixaram mais curioso ainda haha
      E pelo que li, foi completamente intencional mesmo. Afinal, é um thriller psicológico, é pra fazer pensar e queimar neurônios haha :p

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  5. Eu tenho um colega que já leu esse livro e me disse que era maravilhoso mas e todo ano eu digo que vou ler e sempre esqueço. Em relação as pontas soltas talvez o autor queria tirar as suas próprias conclusões, bem eu vou tentar ler esse livro e talvez aí analisar melhor a sua resenha.

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    1. Realmente é! Acredito que as pontas soltas façam parte da história, propositalmente, até mesmo pelo gênero dela.
      Espero que goste do livro :3

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  6. Uau!
    Essa é a primeira resenha que leio desse livro. E fiquei boquiaberta! Não fazia idéia que se tratava de uma história tão densa e tão tensa. Fiquei curiosa para saber o que é que as pessoas não poderiam ver, para não se suicidaram e os mistérios que o novo integrante, que não desperta bons sentimentos em Malorie esconde.

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    1. São muitos muitos MUITOS mistérios nessa história. É tensa, inquietante, instigante, um desassossego só hahaha espero que goste da leitura

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