[News] DOCUMENTÁRIO “ME DEIXA SER” CONCORRE A PRÊMIOS DA CRÍTICA E DO PÚBLICO NA 50ª MOSTRA SP

 DOCUMENTÁRIO “ME DEIXA SER” CONCORRE A PRÊMIOS DA CRÍTICA E DO PÚBLICO NA 50ª MOSTRA SP



Após estreia mundial no Raindance Film Festival, em Londres, documentário sobre a vida de pessoas intersexo no Brasil, na Índia e nos Estados Unidos chega à Mostra Brasil com um olhar sobre identidade, autonomia corporal e direitos humanos.

O documentário Me Deixa Ser (Let Us Be), dirigido pela cineasta brasileira Viviane D'Avilla, produzido por Mariana Marinho, da Dona Rosa Filmes, e coprodução internacional da Social Construct, o filme integra a seleção da Mostra Brasil da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, realizada entre 15 e 29 de outubro. O longa concorre aos prêmios da crítica e do público.

Indicado a Melhor Documentário em sua estreia mundial no Raindance Film Festival, em Londres, e apresentado ao público brasileiro no Festival do Rio, onde recebeu o prêmio de Melhor Filme pela imprensa estrangeira, Me Deixa Ser chega a São Paulo em um momento em que os debates sobre direitos humanos, autonomia corporal e diversidade ganham crescente urgência.

Filmado em três continentes, "Me Deixa Ser" acompanha as histórias, os desafios, as alegrias e as experiências íntimas de pessoas que nasceram em países distintos – Brasil, Índia e Estados Unidos - com características sexuais que não se enquadram nas definições convencionais de masculino ou feminino. Por meio de encontros e relatos pessoais, o documentário aborda pertencimento, afeto, identidade e o direito de existir sem que o próprio corpo seja submetido a padrões impostos pela sociedade.

Estima-se que até 2% da população mundial nasça com variações das características sexuais. Apesar disso, pessoas intersexo continuam enfrentando estigmatização, invisibilidade e intervenções médicas irreversíveis realizadas sem seu consentimento, muitas vezes ainda na infância.

"Queríamos fazer um filme que ultrapassasse a maneira como os corpos intersexo foram historicamente definidos pela medicina ou pela sociedade, permitindo que as pessoas se definissem com dignidade e autonomia. No fundo, o filme faz uma pergunta muito simples: podemos aprender a acolher os corpos humanos como eles são, em vez de forçá-los a caber nas categorias que criamos?", afirma a diretora Viviane D'Avilla.

A pesquisa da cineasta sobre a comunidade intersexo começou em 2017 e deu origem ao curta-metragem GOPI, sobre a trajetória do ativista indiano Gopi Shankar. A investigação se expandiu ao longo dos anos até se transformar em um documentário de longa-metragem.

Entre os protagonistas estão Carolina Iara, ativista brasileira e uma das primeiras pessoas intersexo a ocupar um cargo parlamentar na América Latina; Vidda Guzzo, cofundadora da Intersexo Brasil; Aanandh Rajappan, liderança intersexo na Índia; Hida Viloria, ativista internacional e escritora; Tiger Devore, psicólogo clínico e terapeuta sexual; e Lyss Ball, criadora de conteúdo e educadora norte-americana.

Para Viviane, a chegada do filme ao Brasil ultrapassa o significado de uma estreia cinematográfica.

"Em um momento em que direitos que pareciam conquistados voltam a ser colocados em disputa, Me Deixa Ser nos convida a questionar quem determina o que é considerado um corpo certo, uma identidade legítima ou uma forma aceitável de existir. O filme é uma celebração da diversidade humana, mas também um manifesto pelo direito de existir plenamente. Nenhum corpo deveria precisar ser corrigido para ser aceito, e nenhum direito humano deveria depender de quanto alguém se aproxima de uma ideia de normalidade.", ressalta a diretora.

A deputada Carolina Iara corrobora com Viviane. "Pessoas intersexo são frequentemente submetidas, desde a infância, a intervenções cirúrgicas mutiladoras, hormonização forçada e procedimentos médicos dolorosos ou desnecessários, realizados para adequar seus corpos a padrões sociais rígidos, muitas vezes sem consentimento livre e esclarecido. Por isso, mais do que ampliar a representatividade, o filme contribui para fortalecer a luta pelos direitos humanos da população intersexo e para afirmar que nenhum corpo deve ser tratado como um erro a ser corrigido. Nosso direito é existir plenamente, sem mutilações, imposições ou violências, com liberdade, dignidade e amor.", completa a ativista.

Para Vidda Guzzo, pesquisadora e cofundadora da Intersexo Brasil, o documentário representa uma importante ferramenta de transformação social.

"Let Us Be" irá parecer um pedido até entendermos que na verdade se trata de um manifesto. Um manifesto de memórias futuras mais prósperas e abundantes para as pessoas intersexo do mundo. Para este mundo, mas sobretudo para o Brasil, este documentário cumpre um propósito essencial na luta pelos direitos humanos e contra a tortura. Para as pessoas intersexo que participam ou assistem, ele significa tanto um encontro quanto uma reconciliação com sua própria história e uma ferramenta imprescindível de ativismo por meio da arte. Desde o movimento intersexo no Brasil, celebramos o lançamento dessa obra que nos brinda a direção e a aliança de Viviane D'Ávila."

Para a produtora Mariana Marinho, o desafio foi construir uma narrativa capaz de aproximar o público de uma temática ainda pouco discutida, sem perder a singularidade de cada personagem.

"Tivemos muito cuidado em criar um filme para um público amplo e apresentar um tema ainda pouco conhecido de forma clara e íntima, aproximando o espectador do universo dos personagens. A escolha de filmar em países tão distintos nasceu do desejo de trazer para a tela a estética e os conhecimentos de outras culturas, além de diferentes cores e luzes. Os personagens do Brasil, da Índia e dos Estados Unidos oferecem perspectivas diversas sobre o tema e encontram pontos em comum em meio às suas diferenças. Produzimos um filme para o mundo.", afirma Mariana.

A trajetória internacional do documentário ganhou um novo capítulo com a aquisição de seus direitos de distribuição internacional pela Off the Fence, companhia responsável pelo documentário vencedor do Oscar My Octopus Teacher. A distribuidora apresentará o filme ao mercado internacional durante o MIPCOM, em Cannes.

Ao colocar as próprias pessoas intersexo no centro de suas narrativas, Me Deixa Ser transforma histórias frequentemente silenciadas em um convite à escuta, ao reconhecimento e à construção de uma sociedade em que a autonomia sobre o próprio corpo seja um direito de todos.

SOBRE O FILME:

Me Deixa Ser (Let Us Be) Direção: Viviane D'Avilla
Produção: Mariana Marinho, Dona Rosa Filmes
Produtores: Iz web, Social Construct e Marco Abujamra, Dona Rosa Filmes
Produção executiva: Hida Viloria e Zak Kilberg

Distribuição Brasil: Utopia Docs
Distribuição internacional: Off the Fence
Festival: 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo
Seção: Mostra Brasil
Premiações em disputa: Prêmios da Crítica e do Público
Estreia mundial: Raindance Film Festival 2026, Londres
Estreia brasileira: Festival do Rio 2026, Prêmio Melhor Filme Imprensa Estrangeira

O filme foi produzido com recursos públicos administrados pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), com investimentos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) e da RioFilme.

PERSONAGENS RETRATADAS:

BRASIL — Identidade, representatividade e resistência política

Carolina Iara é uma ativista intersexo, mulher trans, negra, HIV positiva e ligada às religiões de matriz africana. Primeira parlamentar intersexo eleita da América Latina, transformou sua trajetória em uma luta por representatividade e direitos humanos. Submetida na infância a decisões médicas sobre seu corpo sem seu consentimento, Carolina desafia as estruturas sociais que historicamente determinaram quais identidades e corpos são considerados legítimos. Sua atuação política amplia o debate sobre diversidade corporal, violência médica e autonomia.

Vidda Guzzo é pesquisadora, escritora e uma das principais vozes do ativismo intersexo brasileiro. Doutoranda em Ciência Política pela Universidade de Brasília e cofundadora da Intersexo Brasil, atua na defesa da autonomia corporal, da justiça de gênero e dos direitos humanos, participando de debates internacionais em espaços como a ONU, o Mercosul e o G20. No documentário, Vidda contextualiza a luta por direitos da população intersexo e a necessidade de romper com décadas de invisibilidade institucional e social.

ÍNDIA — Entre tradição, espiritualidade e liberdade de escolha

Aanandh Rajappan cresceu em uma sociedade marcada por tradições religiosas e rígidas expectativas sociais sobre gênero e sexualidade. Diferentemente de muitas crianças intersexo, não foi submetido a cirurgias de adequação corporal, graças à decisão de sua mãe de preservar seu direito de escolha. Sua trajetória revela os conflitos entre família, espiritualidade, identidade e pertencimento na Índia contemporânea. Ao compartilhar sua história, Aanandh confronta o estigma e a discriminação enfrentados por pessoas intersexo em seu país.

ESTADOS UNIDOS — Pioneirismo, memória e novas gerações

Hida Viloria é uma das figuras pioneiras do movimento intersexo internacional. Escritora, ativista e autora do livro Born Both: An Intersex Life, cresceu sem ser submetida a cirurgias de adequação genital, experiência que marcou sua compreensão sobre autonomia corporal. Ex-dirigente da Organization Intersex International (OII) e fundadora da Intersex Campaign for Equality (IC4E), foi uma das primeiras lideranças a levar a pauta dos direitos intersexo às Nações Unidas. Sua trajetória atravessa décadas de mobilização política e transformação da percepção pública sobre a diversidade corporal.

Tiger Devore, psicólogo clínico, terapeuta sexual e ativista histórico do movimento intersexo norte-americano, carrega as marcas de múltiplas cirurgias realizadas desde a infância para adequar seu corpo às expectativas convencionais de masculinidade. Sua história expõe as consequências físicas e emocionais de intervenções médicas irreversíveis e de uma cultura que frequentemente privilegia a normalização dos corpos em detrimento da autonomia individual.

Lyss Ball representa uma geração que utiliza as plataformas digitais para transformar o diálogo sobre identidade e autoaceitação. Criadora de conteúdo, professora de yoga e educadora comunitária baseada em Nova York, nasceu com Síndrome da Insensibilidade Completa aos Andrógenos (CAIS). Por meio de suas redes sociais, onde reúne mais de 100 mil seguidores, aborda espiritualidade, diversidade corporal e pertencimento, contribuindo para ampliar a visibilidade intersexo entre novas gerações.

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