[Artigo] Novos Mundos
Por Roberto T. G. Rodrigues
Terminei recentemente um livro que, na verdade, começou a nascer em 2006. Durante quase vinte anos, E.O.N. A Origem ficou guardado, esperando que eu voltasse a ele com a maturidade e as inquietações que acumulei nesse intervalo. Quando retomei o texto, atualizei principalmente o cenário climático. O mundo mudou, os sinais de desequilíbrio ficaram mais próximos e aquilo que antes parecia uma ameaça distante passou a fazer parte das nossas conversas diárias. Mas a pergunta que sustenta a história permaneceu a mesma: o que somos quando retiramos o corpo da equação? A ciência consegue observar a atividade elétrica do cérebro, as reações químicas, as sinapses e as redes que se ativam quando percebemos, lembramos ou decidimos. Também consegue alterar a sensação de presença no corpo ao interferir na integração entre visão, equilíbrio e percepção espacial. Isso ajuda a entender por que algumas pessoas relatam experiências de estar fora de si. Ainda assim, localizar mecanismos relacionados à consciência não é o mesmo que explicar por completo a experiência íntima de existir.
Esse é o ponto que sempre me inquietou. Posso apontar para um cérebro, medir impulsos e acompanhar mudanças de comportamento, mas não consigo colocar sobre uma mesa a sensação de ser eu. A consciência é conhecida diretamente por quem a vive e inferida nos demais por palavras, gestos e sinais do organismo. Existem várias teorias para explicar como ela surge, porém nenhuma resolveu de forma definitiva a passagem entre processos físicos e a experiência subjetiva. Não uso essa lacuna como prova de que a alma exista separada do corpo. Seria trocar uma dúvida honesta por uma certeza conveniente. O que faço é escolher, como autor e como pessoa, uma possibilidade que me parece fascinante: talvez o corpo seja a primeira morada da consciência, e não sua última fronteira.
Foi dessa possibilidade que nasceu E.O.N. No livro, o corpo é a Origem Natural, feito da mesma matéria do planeta e submetido ao tempo, às doenças e à morte. A Essência Consciente desperta nele, aprende por meio dele e, em determinado momento, pode se desprender. Essa libertação não acontece como fuga da vida, mas como continuidade. A consciência leva emoções, vínculos, medos e escolhas, encontra outras consciências e descobre mundos que nenhuma nave alcançaria. O cenário de colapso ambiental reforça essa ideia. A humanidade de E.O.N. quase perde a própria casa antes de compreender que nunca foi dona dela. Enquanto a Terra se reorganiza e mostra seus limites, os personagens descobrem outra forma de existência. O contraste me interessa porque une duas escalas: a fragilidade do corpo e do planeta diante do tempo, e a possibilidade de que a consciência atravesse distâncias que a matéria não consegue vencer.
Também há um cuidado importante nessa fantasia. Se a consciência pudesse viajar sem o corpo, ela não deixaria automaticamente de ser humana. Continuaria carregando amor e compaixão, mas também medo, arrogância e ódio. Conhecer outros mundos não nos tornaria melhores por si só. A verdadeira evolução estaria em aprender a lidar com aquilo que levamos conosco. Não acredito que a morte encerre tudo. Reconheço que essa é uma convicção pessoal, não uma conclusão científica. Talvez morrer seja perder a âncora física e descobrir que o horizonte era muito maior do que imaginávamos. Talvez a consciência permaneça, encontre outras formas de vida e compreenda que a Terra foi apenas o começo. E.O.N. nasceu dessa esperança misturada com dúvida. Não escrevi para afirmar como será a morte, mas para explorar o que poderia existir depois do limite conhecido. Se um dia pudermos ir a qualquer lugar sem o corpo, quantos mundos nos aguardam? E, antes de alcançá-los, estaremos preparados para levar até eles aquilo que somos?
Sobre o autor
Roberto T. G. Rodrigues é escritor de literatura fantástica. Autor da série “A Era de Ouro da Magia”, atualmente trabalha no quarto volume da saga, “Silas”. Em setembro de 2026, lançou “E.O.N. – A Origem”, romance de ficção científica que parte de uma grande catástrofe ambiental para explorar questões sobre consciência, existência, crenças e reconstrução da sociedade.


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