[News] Da permuta ao negócio: como microinfluenciadores da periferia estão transformando audiência em renda
Da permuta ao negócio: como microinfluenciadores da periferia estão transformando audiência em renda
Agência criada na Baixada Fluminense aproxima pequenos criadores de marcas e aposta na influência local como ferramenta de negócios.
Fotos: Divulgação
Aos 39 anos, o influenciador digital Bruno TrakyTraky não imaginava que os vídeos gravados dentro de casa durante a pandemia poderiam, alguns anos depois, se transformar em profissão. Morador de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, ele começou a produzir conteúdo ao lado da filha, como uma forma de enfrentar o período de isolamento social. O que nasceu quase por acaso ganhou espaço nas redes, atraiu uma comunidade de 1,7 milhões de seguidores e, aos poucos, abriu caminho para uma nova fonte de renda.
Antes de viver da internet, Bruno passou por diferentes profissões. Foi animador de festas infantis, cerimonialista, DJ, garçom, cabeleireiro e montador de móveis. Na internet, também começou de forma simples, recebendo produtos e fazendo permutas. A profissionalização veio gradualmente, primeiro com a monetização das plataformas e depois com campanhas remuneradas e contratos com marcas. Hoje, ele se define como empreendedor digital. Uma das viradas de sua trajetória aconteceu quando passou a ser conectado a empresas por meio da IN Influencers, agência criada na Baixada Fluminense para aproximar marcas de criadores que, apesar de nem sempre terem milhões de seguidores, possuem algo considerado cada vez mais valioso pelo mercado: uma comunidade que confia neles.
A história de Bruno se repete, com particularidades, na trajetória de Rafaela Lino, 33, influenciadora de Nova Iguaçu, que soma quase 50 mil seguidores no instagram. Formada em Pedagogia e também empreendedora, ela começou compartilhando nas redes a própria rotina, lugares que frequentava e produtos de que gostava. Sem planejar inicialmente transformar aquilo em profissão, percebeu que seus seguidores passaram a procurar suas opiniões e confiar em suas indicações. As primeiras oportunidades vieram por meio de permutas. Com o crescimento da audiência, chegaram as campanhas remuneradas. Hoje, Rafaela enxerga a própria origem como parte importante do trabalho que desenvolve nas redes. “Eu conheço a Baixada porque vivo essa realidade. Sei como as pessoas daqui falam, o que consomem e o que faz sentido para elas. Quando mostro um lugar, uma loja ou uma experiência da região, eu não estou falando de fora. Eu faço parte disso”, afirma.
Fora do eixo: a força de quem influencia a partir da Baixada e da Zona Oeste
É justamente essa relação entre proximidade, influência e consumo que está por trás de um movimento que começa a ganhar espaço no mercado de publicidade: empresas passaram a perceber que, em determinadas campanhas, um criador com uma comunidade menor e altamente conectada pode gerar mais identificação e até mais resultado do que perfis com números muito maiores.
Foi a partir dessa percepção que a empresária Andressa Souza criou a IN Influencers, inaugurada oficialmente em 2026 na Baixada Fluminense. A proposta é aproximar empresas de microinfluenciadores levando em consideração não apenas o tamanho da audiência, mas fatores como localização, comportamento do público, linguagem e afinidade com a marca. “Visitando empresas, percebemos que muitas acreditavam que bastava contratar quem tinha centenas de milhares de seguidores. Mas vimos exatamente o contrário: criadores menores conseguiam gerar mais vendas, mais confiança e mais resultado porque conheciam o bairro, falavam a mesma linguagem do público e tinham uma conexão verdadeira com a comunidade. Foi quando entendemos que não faltavam talentos. Faltava oportunidade”, afirma Andressa.
Em menos de seis meses de atuação, a agência já trabalhou com aproximadamente 100 microinfluenciadores e atendeu mais de dez empresas de diferentes segmentos. Os criadores possuem comunidades que variam de cerca de 30 mil a 1 milhão de seguidores. O trabalho, porém, não se limita à intermediação entre marcas e influenciadores. A agência também atua na profissionalização dos criadores, muitos dos quais chegam ao mercado fazendo apenas permutas. Orientação sobre posicionamento, produção de conteúdo, negociação e precificação faz parte desse processo.
A profissionalização que movimenta a economia local
No caso de Bruno, a aproximação com a agência ajudou a abrir portas para novas marcas. Por indicação de Andressa, ele chegou à Mega Seguros. A parceria também o levou à RRon Autopeças, empresa do mesmo grupo, e o contrato já se aproxima de um ano. “Quando você tem alguém para te apoiar e defender o seu valor profissional, isso muda tudo. Passei a ser mais valorizado e as pessoas começaram a me enxergar como alguém que tem relevância”, conta.
Para Rafaela, que ainda constrói sua trajetória junto à agência, a parceria representa uma possibilidade de ampliar o acesso a marcas sem abrir mão da identidade que construiu junto ao público. O movimento também extrapola os próprios influenciadores. A agência começou com três pessoas e hoje reúne cerca de dez profissionais em áreas como produção, audiovisual, atendimento e marketing, além de movimentar fotógrafos, videomakers, designers, maquiadores e produtores envolvidos nas campanhas.
A aposta da IN Influencers é ampliar o modelo para outras regiões do Rio de Janeiro e, posteriormente, para outros estados. A ideia é mostrar que a influência não precisa estar necessariamente concentrada nos grandes perfis ou nos bairros mais valorizados pelo mercado publicitário. “Influência não é apenas número de seguidores. É confiança, proximidade e verdade”, resume Andressa.
Para Bruno, que começou gravando vídeos em meio à pandemia e hoje consegue viver da internet, a mudança de perspectiva resume o que está acontecendo com uma nova geração de criadores. “Vergonha e timidez não pagam boleto. Dá para viver disso. É uma profissão”, conclui.
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