[News] Dependente de crack, Andrea Bico Doce lança na Bienal livro escrito nas ruas de São Paulo


"A Esperança Ainda Existe" é um relato autêntico, direto e sem enfeite de uma vida marcada por privações e adversidades

A escritora Andrea Bico Doce irá lançar seu primeiro livro na Bienal de São Paulo em 11 de setembro. Entre os tantos autores presentes no evento, porém, a história de Andrea é única. Com anos de vivência na rua, é dependente de crack e moradora de um barraco em uma favela no Parque Novo Mundo, Zona Norte de São Paulo.

“A Esperança Ainda Existe" é um relato autêntico, direto e sem enfeite de uma vida marcada por privações e adversidades. Oferece uma oportunidade rara de se conhecer uma existência dura que está ao nosso lado, todos os dias, mas da qual desviamos apressadamente o olhar. O livro é um lançamento da editora Selo da Rua, do Instituto de Políticas Relacionais. 
 
Crédito: Julia Sugimoto
 

“Foi no Glicério e na Liberdade que a rua começou a me ensinar coisas que ninguém devia aprender tão cedo. Eu ainda era nova, mas já andava sozinha por lugares que não eram para criança. Tinha gente de todo tipo: quem só passava, quem dormia, quem vendia coisa errada, quem vivia de restos", escreve a paulistana Andrea.

Apesar da realidade continuamente lhe negar esse direito, Andrea sempre teimou em sonhar com algo melhor. “Eu não era só tristeza. Eu ria. Eu brincava. Eu sonhava. Eu inventava histórias na cabeça. Criava finais felizes pra mim mesma".

A escrita entrou na vida de Andrea para se tornar um refúgio, mas também um apoio. “Escrever é como uma terapia, tem me ajudado muito a crescer", afirmou. Quando se dedica às palavras, Andrea vislumbra uma alternativa às pedras de crack que a recrutam diariamente.

Andrea foi encorajada a escrever por Daniela Greeb e Vanessa Mary, fundadoras do Relacionais, que a conheceram em um dos territórios onde a organização realiza o projeto Banho Pra Geral, que atende pessoas em situação de rua em São Paulo oferecendo banho, roupa, higiene, escuta e presença. Elas criaram um esquema para troca de cadernos antes que os escritos se perdessem pelas ruas e a obra pudesse ser concluída.

A comparação com Carolina Maria de Jesus surge fácil na mente, mas para além das características em comum, mulheres negras de contextos vulneráveis, a história e a escrita de Andrea têm sua própria identidade.

“Eu escrevo para quem acha que quem mora na rua não tem história. Tem sim. Cada um carrega um mundo nas costas. Carrega infância, família, sonhos quebrados, escolhas erradas, falta de escolha também.”
 

Lançamento “A Esperança Ainda Existe", de Andrea Bico Doce, na Bienal do Livro

Data e horário: 11/09 às 18h

Local: Bienal Internacional do Livro de São Paulo
Avenida Olavo Fontoura n. 1209 - Santana - São Paulo - SP (Distrito Anhembi) CEP 02001-900

Localização dentro da Bienal
Estande Diversa - Rua CC 17
Selo da Rua = do número 31 ao 45
Lateral Direita de Fora para Dentro (visto de frente) C- Selo da Rua

Sobre a editora Selo da Rua

Com mais de dez títulos lançados, a editora do Instituto de Políticas Relacionais nasceu com o propósito de trazer narrativas ficcionais e reais de vozes marginalizadas que têm dificuldade de serem ouvidas.

Seu catálogo inclui obras como “Coragem, Amor e Compaixão", biografia do Padre Júlio Lancelloti escrita por Eliseu Labigalini, e “O Psicopata", de Jaci de Oliveira Junior, também autor em situação de rua. Na Bienal deste ano, o Selo da Rua também lança o livro “Povos Indígenas e Justiça de Transição - Registros de Memórias que Denunciam Violências", coletânea de artigos de autores indígenas.

Sobre o Relacionais

Fundado em 2001, o Instituto de Políticas Relacionais construiu expertises em diferentes áreas, como memória, patrimônio histórico, cultura, direitos humanos e movimentos sociais.

Um dos principais projetos do Relacionais é o projeto Banho Pra Geral, A iniciativa atende pessoas em situação de rua na cidade de São Paulo com banho, doação de roupas, kits de higiene, alimentos, além de escuta e presença.

Em julho, o IPR ajudou a organizar o Encontro de Lideranças da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) por uma Comissão Nacional Indígena da Verdade em parceria com a APIB (Associação Brasileira dos Povos Indígenas) e o Obind (Observatório dos Direitos e Políticas Indigenistas da UnB), com o apoio da Embaixada da Noruega.

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