[News] Coletivo Êxodo adapta “Amores Surdos”, de Grace Passô
Coletivo Êxodo adapta “Amores Surdos”, de Grace Passô
Texto de 2006 trata de uma família em conflito, põe em cena um hipopótamo e atores que transitam entre ficção e realidade.
Amores Surdos - Foto Luísa Gastaldi
Montagem combina música ao vivo, absurdo e quebra da ficção para tensionar os limites entre realidade e representação
Uma família vive confinada em uma casa onde faltam dinheiro, espaço e, principalmente, diálogo. A mãe tenta manter o cotidiano sob controle enquanto cada um dos três filhos encontra uma maneira própria de lidar com aquilo que não consegue dizer. Do lado de fora, vizinhos observam, comentam e também interferem nessa dinâmica. É nesse ambiente que o Coletivo Êxodo, dirigido por Luize e orientado por Pedro Haddad, apresenta sua adaptação de “Amores Surdos”, dramaturgia de Grace Passô escrita em 2006. A montagem faz temporada no Teatro Reynuncio Lima, do Instituto de Artes da UNESP, nos dias 30 de setembro, 1º e 2 de outubro, e na Casa Farofa - Sala Teatro da Vertigem, nos dias 6, 7 e 8 de novembro de 2026, com entrada gratuita.
A montagem, dirigida e adaptada por Luize, chega ao palco 20 anos depois da criação do texto original, sem transportar a história integralmente para o presente. A proposta é investigar o que permanece reconhecível na estrutura familiar criada por Passô e, a partir dela, acrescentar procedimentos, linguagens e questões que surgiram durante o processo de criação universitário. O resultado reúne quatro atores e dois músicos em cena, com música original executada ao vivo, dança, partituras corporais, projeções e momentos em que os intérpretes deixam os personagens para falar diretamente com o público.
Sobre a montagem
Em cena, a família central é formada pela mãe, Joaquim, o Pequeno e Graziele. O quarto filho está ausente e sua presença é estabelecida pela comunicação por telefone. Cada personagem desenvolve uma estratégia para não encarar os conflitos da casa. Joaquim assume responsabilidades que ultrapassam seu lugar de filho; o Pequeno se recusa a crescer; Graziele se refugia na música para não ouvir o que acontece ao redor; e a mãe tenta sustentar sozinha uma estrutura familiar marcada por ausências e segredos.
A situação financeira da família também aparece menos nas falas do que nas ações e rubricas da dramaturgia original, aspecto que o grupo decidiu enfatizar na montagem. Caixas espalhadas pelo cenário sugerem a possibilidade de despejo, enquanto objetos domésticos pendurados compõem uma casa que parece estar sempre prestes a se desfazer. Uma porta vermelha, quadros vazios, panelas e caixas completam a cenografia de Gustavo Feitosa.
A montagem também amplia uma presença que, no texto original, permanece fora de cena: os vizinhos. Dois músicos ocupam outro espaço do palco e assumem simultaneamente a função de músicos e personagens. Associados a uma família de perfil elitista e conservador, eles observam e comentam a família que vive abaixo deles. A escolha também estabelece uma relação de opressão pelo som, já que a música da família vizinha atravessa fisicamente o espaço dos protagonistas.
“Amores Surdos: O Balde de Lama e o (Ch)amado Silêncio” ganha, assim, música ao vivo composta especialmente para o espetáculo por Caos Nicioli. Além da sonoridade erudita, utiliza-se também de músicas e ritmos populares para costurar a narrativa. A trilha não funciona apenas como acompanhamento: acompanha as ações e contribui para a construção dos climas da narrativa. A presença dos músicos também nasceu de uma característica do próprio espaço do Teatro Reynuncio Lima, que possui diferentes patamares ao redor da área cênica, permitindo que os vizinhos sejam vistos em outro plano.
A adaptação mantém a estrutura fundamental da dramaturgia de Grace Passô, mas incorpora cenas e situações criadas pelo próprio coletivo a partir das rubricas e dos conflitos identificados no texto. Uma dessas mudanças está na relação entre ator e personagem. Os intérpretes não permanecem o tempo inteiro dentro da ficção: em determinados momentos, apresentam-se como atores, recebem o público, comentam acontecimentos e depois entram novamente na narrativa. O procedimento estabelece uma distância em relação à história e reforça a dimensão política da encenação.
A montagem também preserva a presença do absurdo, característica da dramaturgia de Grace Passô. O hipopótamo que aparece no texto é tratado pelo grupo como uma imagem que permite diferentes interpretações: pode ser um animal concreto ou representar aquilo que a família esconde e que cresce até não poder mais ser ignorado. Para o coletivo, essa combinação entre cotidiano e fantasia está relacionada à própria escrita da dramaturga, que constrói situações familiares reconhecíveis atravessadas por acontecimentos que deslocam a realidade.
Coletivo Êxodo
Criado no segundo semestre de 2025, o Coletivo Êxodo reúne estudantes vindos de diferentes regiões do Brasil e de São Paulo que se encontraram no curso de Artes Cênicas da UNESP. O grupo surgiu do interesse em experimentar o fazer teatral de maneira coletiva e horizontal, permitindo que seus integrantes ocupem diferentes funções artísticas e técnicas ainda durante a graduação. “Amores Surdos: O Balde de Lama e o (Ch)amado Silêncio” inaugura essa pesquisa, que articula formação acadêmica, experimentação de linguagem e criação teatral.
A temporada integra um projeto de extensão universitária contemplado em edital da UNESP e prevê apresentações gratuitas na universidade e na Casa Farofa, na Sala Teatro da Vertigem, ampliando a circulação da produção realizada no ambiente universitário para outros espaços e públicos.
Ficha Técnica
Direção e adaptação: Luize
Assistente de direção e iluminação: Dafne Ohana
Elenco: Débora Oliveira, Pedro Urbano, Lorena Rodrigues e Helena Bechara Nacarato
Músicos: Caos Nicioli e Caetano Nicioli
Composição musical: Caos Nicioli
Produção fonográfica: Adelmo Henrique
Cenografia: Gustavo Feitosa
Produção: Annaís Ballaminut
Coreografia: Giovanna Gomes
Assistente de coreografia: Maria Vintana
Fotos: Luísa Gastaldi e Thaina Tibana
Figurino: Anna Madrid
Confecção de Figurino: Rafaela Aventurato
Divulgação: Lorena Rodrigues e Helena Bechara
Designers: Luiza Latorre e David Horeglad
Orientação: Pedro Haddad
Provocação Vocal: Sofia Vilasboas Slomp
Serviço
Amores Surdos: O Balde de Lama e o (Ch)amado Silêncio
Duração: 60min | Classificação: 12 anos
Datas: 30 de setembro, 01 e 02 de outubro
Teatro Reynuncio Lima – Instituto de Artes da UNESP
Rua Jornalista Aloysio Biondi, 120, Barra Funda, São Paulo, SP
Horário: Quarta a sexta, às 20h
Entrada: gratuita, com ingressos via Sympla
Datas: 6, 7 e 8 de novembro de 2026
Casa Farofa - sala Teatro da Vertigem
Rua Treze de Maio, 240 - 1º Andar
Horário: Sexta a domingo, às 19h
Entrada: gratuita, com ingressos via Sympla
Informação aos jornalistas
Canal Aberto Comunicação

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