[Artigo] O que é ser pai na contemporaneidade?
Psicóloga Denise Fleury Curado* discute sobre o papel do pai no momento contemporâneo
O que é ser pai na contemporaneidade? Essa pergunta me fez parar e prestar atenção ao cotidiano. Acredito que eu poderia falar, do lugar de filha, o que é ser pai, mas sou de outra geração e não teria mais o que dizer além do que já vem sendo dito. O lugar mais comum de muitas infâncias de minha geração foi conviver com a brutalidade de homens: foram marcadas, muitas vezes, pela violência, pela dureza, pelo abandono afetivo. Que bom que agora podemos reivindicar outro lugar, outro tempo e espaço para pensar e refletir o que é ser pai. É desse novo lugar que gostaria de falar.
Como já dizia Alejandro Zambra: “esta manhã quis transformar os poemas falsos em poemas verdadeiros […] estraguei os poemas, mas […] intitulei ‘literatura infantil’. Nenhum desses esboços poderia ser considerado literatura infantil. Apesar de todos remeterem à infância. A sua, incipiente, e a minha, distante. Minha infância ou minha ideia de infância a partir da sua chegada”.
Na mesma semana em que sento para abordar este assunto, me deparo com duas cenas tão antagônicas entre si que me fizeram pensar no que estamos vivendo em tempo real, na pergunta e na cena de uma geração que está nascendo agora, de uma geração que está sendo feita em tempo real, em ato. As cenas são, de um lado, um pai que chuta a cara de sua própria filha de três anos, que estendia seus bracinhos e chorava demonstrando sua vulnerabilidade diante de um outro grande e que, a princípio, é quem estava lá para escutar e responder às suas demandas. A cena é brutal e me autorizo apenas a citá-la para abrir um outro capítulo. Uma outra cena ocorre num tempo e espaço quase que simultâneos: uma criança engasga-se com um objeto pequeno (se não estiver enganada, um isopor). O pai (salvo engano, é médico) segue prontamente o protocolo de desobstrução. Até aqui, “tudo bem”, entre aspas, pois depende de uma familiaridade com a técnica e de uma ação calculada. Que sorte dessa criança! Então, o que me chamou atenção é que, logo após o pai salvar a vida do filho, e isso dura segundos, ele cai aos prantos. O choro!
E homem não chora?
Homem chora, sim! O choro de um pai que salva seu filho na iminência de quase tê-lo perdido, na iminência da morte. São desses atos que quero e escolho falar, deixando a outra cena para a justiça. Aquela de que escolho falar é a que me inspira; a cena que se abre à pergunta do que é ser pai na contemporaneidade. O que sei é que essa figura está por ser construída, antecipada e desejada a partir do lugar desses pais. O que sei, também, é que ser pai não se separa de ser homem e essa é uma pergunta que cabe aos homens e aos respectivos pais responderem. Também acredito que, mesmo as gerações que nos precederam e repetiram a violência que funda certos caráteres e modos de ser homem na nossa sociedade, também carecem de participar, de fazer, de se abrir a este lugar que lhes compete do que é ser pai nos dias de hoje.
Recorro a Alejandro Zambra, que, em sua obra magistral e irresistível Literatura Infantil: cartas ao filho (2024), aborda o lugar do pai na atualidade. Esse livro me fez ter vontade de estar aqui falando e tentando dar conta dessa pergunta. É uma obra que traz um misto de diário — sua própria experiência com o nascimento do filho —, de contos e ensaios, tratando de forma poética essa relação que se inaugura. Há uma combinação de intimidade com o inconsciente que este autor permite e autoriza ser publicado ao dar vazão às suas memórias como filho e as histórias de seu pai para resgatar e recontar, falar e repetir algo que se atualiza. Quando um filho nasce, nasce um pai também e, para cada filho, diria que há outra versão que pode, e deve, se atualizar diante de um ser pequeno e potente que invoca este outro, o pai, o homem, o filho que um dia foi e seu próprio pai.
Se permitir se abrir para ser responsável com o outro
O nascimento de um filho pode atualizar feridas que nunca foram cicatrizadas. O convite que faço é que o pai não reproduza cegamente uma ferida aberta, mas que se permita, como faz Zambra com seu literar, exercer a paternidade e recordar para, quem sabe, fazer algo novo e abrir para seu filho, com gestos, atos e palavras, a antecipação do que é e do que pode ser esse pai. Para terminar, recorro à frase da primeira página de Literatura Infantil que me toca profundamente: “Com você no colo, vejo pela primeira vez, na parede, a sombra que formamos juntos. Você tem vinte minutos”. Mais à frente, Zambro provoca: “O nascimento de um filho anuncia um futuro vasto do qual não faremos parte totalmente”.
O que é ser pai na contemporaneidade? É o pai que chora porque teme perder o filho. Ser pai na contemporaneidade é o pai que cuida, faz laço, faz presença, escuta e se doa para que aquele pequeno ser possa florescer. Esse caminho está por ser feito, basta se abrir a essa pergunta; querer saber e fazer um caminho e uma história que estão ao alcance de quem, de fato, quer ser pai. Que a sombra projetada na parede seja a figura do que pode ser começado hoje. Feliz dia do pai que cuida e está presente não só nos cuidados físicos, mas no cuidado afetivo, no paternar, no laço, na escuta, na proteção, nos limites e no abraço.
*Denise Fleury Curado é psicóloga, pedagoga, mestre em educação e psicanalista goianiense. Com uma trajetória que une a clínica psicológica à paixão pela literatura, ela escreve crônicas, contos e livros infantis, sempre com foco na subjetividade humana e em suas relações. É autora de “Senhora M e outros contos” (Editora Caravana, 2024) e “Quem conhece os gatos do vovô?” (Semibreve, 2022), “Benjamin” (Semibreve, 2025) com “Giralda & Geraldo” no prelo. Sua crônica “O cortejo” foi premiada com menção honrosa pela Academia Feminina Mineira de Letras no Concurso Adélia Prado (2019).
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