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Ouça aqui: https://umusicbrazil.lnk.to/ElisMixagem2026PR
Por Julio Maria*
Por limitações tecnológicas ou profissionais, são muitos os reparos acústicos que podem ser feitos na fonografia de alguém que gravou seus discos entre meados dos anos 60 e início dos 80. E a coisa complica quando estamos em 2026 e esse alguém é reconhecido como a “maior voz” da música popular brasileira. No tempo das audições implacáveis, no qual o apuro sonoro determina se alguém vai ouvir ou não até a mais bela das canções em uma plataforma de streaming, não seria justo que Elis Regina continuasse a soar menor do que deveria. Assim, ouvi-la hoje tinindo como cristal em um disco que nasceu nas opacidades sonoras de 53 anos atrás é um ato histórico.
Chamado apenas “Elis”, o álbum lançado em 1973 pela então gravadora Phonogram, uma das coleções de canções mais impecáveis da cantora, então com 27 anos de idade, traz uma qualidade de som apontado por fãs mais atentos como um ponto a ser revisto.
A esperança de que isso acontecesse aumentou depois que João Marcello Bôscoli, produtor e filho da cantora, remasterizou “Elis 72”, em 2021, ao lado do engenheiro de som Carlos Freitas. Agora, ele fez o mesmo ao exumar, com apoio da mesma gravadora Universal Music Brasil, o álbum de 73 para reabrir pista por pista ao lado do engenheiro Ricardo Camera, premiado com trabalhos vencedores de três Grammy® em 2025. Ao final, sua audição é a experiência mais próxima do que seria a sonoridade de um álbum de Elis Regina gravado hoje.
A audição atualizada do disco traz a tecnologia Dolby Atmos, que cria um ‘palco sonoro’ imaginário, com os instrumentos saindo de posições específicas ao redor do ouvinte, como se os músicos estivessem presentes no local da escuta. Até o final do ano sairá a versão em LP do relançamento. “Respeitamos a ideia da gravação original e fizemos a voz de Elis sair de dentro da cabeça de quem a ouve para torná-la ainda mais confidente”, conta Camera. Para João Marcello, a restauração era uma questão de honra: “Sempre achei o áudio desse álbum muito estranho. E muitos fãs me procuravam para dizer o mesmo.”
“Elis 73” é um disco de escolhas mais introspectivas da artista. Depois de ter cantado “Águas de Março” e “Casa no Campo” no ano anterior, ela não estava para festas. Com exceção dos sambas “Ladeira da Preguiça” e “Meio de Campo”, de Gilberto Gil, sua entrega é para temas densos, dividindo o repertório entre canções de Gil (que colaborava também com “Oriente” e “Doente Morena”, parceria com Duda Machado) e da dupla João Bosco e Aldir Blanc (“O Caçador de Esmeralda”, que tem ainda Claudio Tolomei na autoria; “Agnus Sei”; “Cabaré”; e “Comadre”). O samba lento “É com Esse Que eu Vou”, de Pedro Caetano, e a clássica “Folhas Secas”, de Nelson Cavaquinho com Guilherme de Brito, são as exceções que acabaram ganhando grandes destaques.
O trabalho de João Marcello e Ricardo Camera levou quase dois anos para ser concluído. Ao abrir as faixas, eles perceberam que a captação dos instrumentos, feita em oito canais, trazia problemas que comprometiam o resultado. Um deles foi a gravação da bateria, com apenas um microfone. O som do instrumento vaza para o piano, criando um resíduo desconfortável. “Tivemos de separar os sons das peças da bateria e retirar os vazamentos”, conta Camera, mostrando em áudio a quantidade de ruídos que surgem quando o piano é executado isoladamente.
Ao final de um procedimento que não mexe em notas ou outras intenções artísticas de Elis e seu grupo, dirigido pelo então marido da cantora, Cesar Camargo Mariano, a sensação é de que um véu que cobria as canções foi retirado. A voz de Elis ganha profundidade acústica e se posiciona mais à frente, enquanto surgem detalhes dos arranjos que, antes, poderiam passar despercebidos.
À época do lançamento, alguns críticos consideraram a interpretação de Elis fria e técnica demais. Ela mesma riu ao ser confrontada com esta opinião. Hoje, seu filho diz: “Foi a coisa mais estúpida escrita na história da crítica mundial”. Mas, ainda que tal percepção não pareça condizente com a sensibilidade com a qual Elis cante “Folhas Secas”, “Ladeira da Preguiça”, “Cabaré” ou “É Com Esse Que Eu Vou”, ela é uma percepção. E há duas hipóteses do que pode tê-la provocado: a tal escolha de canções mais densas de Elis ou, justamente, por mais fortes que essas canções fossem, o embaçamento do áudio original. A coisa é séria.
A restauração de “Elis 73”, com o respeito arqueológico com o qual foi tratada, é também um trabalho de mediação de eras. O canto de Elis não pode ser represado em um tempo-espaço nem histórico nem tecnológico. E tudo o que ameace restringi-la a qualquer dimensão, como se isso fosse possível, deve ser transposto com tudo o que a humanidade criar de melhor. É o mínimo que se pode devolver à mulher que entregou a própria vida em cada canção para nos salvar.
* Julio Maria é autor da biografia “Elis: Nada Será Como Antes”.
Repertório e-album “Elis 73” – nova mixagem:
1 – “Oriente” (Gilberto Gil)
2 – “O Caçador de Esmeralda” (João Bosco / Aldir Blanc / Claudio Tolomei)
3 – “Doente, Morena” (Duda Machado / Gilberto Gil)
4 – “Agnus Sei” (João Bosco / Aldir Blanc)
5 – “Meio de Campo” (Gilberto Gil)
6 – “Cabaré” (João Bosco / Aldir Blanc)
7 – “Ladeira da Preguiça” (Gilberto Gil)
8 – “Folhas Secas” (Guilherme de Brito / Nelson Cavaquinho)
9 – “Comadre” (João Bosco / Aldir Blanc)
10 – “É Com Esse Que Eu Vou” (Pedro Caetano)
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