[News]Georgia Szpílman, soprano do Theatro Municipal RJ, fala sobre longevidade artística, preparo físico e liberdade
Georgia Szpílman, soprano do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, fala sobre longevidade artística, preparo físico e a liberdade que o tempo trouxe à interpretação Ela apresenta Domitila: a paixão proibida de Dom Pedro I e a Marquesa de Santos em ópera de câmara - Dias 30 de outubro e 1º de novembro, na Sala Mário Tavares | |
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(foto: Ana Clara Miranda) - Georgia Szpílman (soprano) no papel-título do espetáculo Domitila | |
Rio de Janeiro – Há três décadas, Georgia Szpílman faz parte da história do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Soprano e intérprete do papel-título de “Domitila”, ópera de câmara de João Guilherme Ripper, a cantora volta à Sala Mário Tavares, anexo do teatro, nos dias 30 de outubro e 1º de novembro, para encarnar a Marquesa de Santos na história de amor proibido com Dom Pedro I. A montagem tem direção cênica de Isabel Guéron. A longevidade no palco trouxe para Georgia uma relação cada vez mais consciente com o próprio corpo e com a voz. Para ela, o canto lírico exige do intérprete um preparo semelhante ao de um atleta. “Hoje nós, cantores, temos plena consciência que somos atletas, principalmente em se tratando de Ópera. E, sendo atletas, temos que ter uma alimentação adequada, exercício físico regular e, sobretudo, usar toda a tecnologia e profissionais que estão hoje à nossa disposição.” A cantora resume a complexidade desse trabalho em uma frase: “A voz é músculo e ar.” E explica por que manter a atividade vocal ao longo dos anos exige atenção permanente ao preparo físico: “Logo, sincronizar a tensão da prega vocal com a passagem do ar exige muita tonicidade física.” O envelhecimento, segundo Georgia, traz desafios específicos para as cantoras. “Estamos envelhecendo todos os dias. E a voz, resultado da tensão muscular e ar, logo começa a apresentar falhas. Nós, mulheres, sofremos muito com o envelhecimento de uma forma geral.” Ao mesmo tempo, ela ressalta os recursos disponíveis atualmente para quem trabalha profissionalmente com a voz: “Hoje a tecnologia e os medicamentos nos dão suporte para produzirmos um som perfeito e de qualidade.” A preocupação com o condicionamento físico acompanha a soprano desde o início da carreira. Ela lembra a orientação que recebeu do médico Pedro Block, quando começou a cantar: “quando comecei, Dr. Pedro Block me orientava com exercícios físicos voltados para a qualidade da voz.” Três décadas de experiência no Theatro Municipal também modificaram sua maneira de estar em cena. “O tempo adicionou muita experiência, leveza e me deixou mais solta para interpretar, e não ficar focada no som, uma vez que o material foi preparado, podemos ser mais nós mesmas no palco”, declara. É essa experiência acumulada que Georgia leva para “Domitila”. Baseada nas cartas apaixonadas que Dom Pedro I escreveu à sua amante, a ópera reconstrói o último dia de Domitila na corte, quando ela é obrigada a se despedir do imperador. O relacionamento entre os dois se estendeu de 1822 a 1829 e terminou por imposição da Casa dos Bragança, que exigia que o jovem imperador viúvo se casasse com uma princesa de estirpe real, D. Amélia de Leuchtenberg. Em cena, a soprano interpreta uma Domitila marcada pelas lembranças de um amor que começa com a paixão juvenil, quando o imperador assinava as cartas como “Demonão” e “Fogo Foguinho”, e se transforma diante das obrigações políticas. A direção de Isabel Guéron conduz a personagem por um limbo espaço-temporal, enquanto ela arruma as malas e revive angústias, alegrias e decepções. As próprias cartas que deram origem à obra têm uma história peculiar. O acordo entre os amantes era que fossem queimadas depois de lidas. Dom Pedro I cumpriu a promessa, mas Domitila guardou as 94 cartas que recebeu. Perdidas por décadas, elas foram encontradas pelo historiador Paulo Rezzutti na Hispanic Society of America, em Nova York, e hoje estão no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, e no Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora. Para Georgia, a relação com o canto ultrapassa a própria profissão. “O canto para mim, é missão. Minha felicidade é ver o público chegar de um jeito e sair totalmente modificado. Leve, mais tranquilo. Isto me dá muito prazer.” A trajetória de Domitila também provoca na cantora uma reflexão sobre a condição feminina. Georgia afirma que a personagem continua dialogando diretamente com o presente: “Mas o que mais me impacta nessa trajetória é como ela foi, no fim, descartada. E isso me faz olhar para os dias de hoje e ver que a realidade não mudou: nós, mulheres, continuamos sendo usadas e deixadas de lado quando não convém. Essa não é uma questão do século XIX. É uma questão atual, urgente, viva. É por isso que canto Domitila: para lembrar que a mulher — amante ou não — sempre foi muito mais do que o papel que tentaram lhe dar.” Com aproximadamente 60 minutos de duração, “Domitila” tem direção musical de Maria Luisa Lundberg e participação dos instrumentistas Nayara Tamarozi, no violoncelo, e Moises Santos, no clarinete. A obra foi agraciada com o Prêmio Circuito FUNARTE de Música Clássica 2010 e também passou por Portugal e Espanha.
Serviço Espetáculo: Domitila – Ópera de Câmara Compositor: João Guilherme Ripper Elenco: Georgia Szpílman (soprano), Maria Luisa Lundberg (piano), Nayara Tamarozi (violoncelo), Moises Santos (clarinete) Direção cênica: Isabel Guéron Datas e horários: 30 de outubro, às 19h, e 1º de novembro, às 11h Local: Sala Mário Tavares – anexo do Theatro Municipal do Rio de Janeiro Endereço: Rua Almirante Barroso, 14/16, Centro Ingressos: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia), disponíveis na plataforma Feverup Classificação: Livre |

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