[News] DOCE ÁRIDO” REESTREIA NO RIO E REVELA VIOLÊNCIAS SILENCIOSAS QUE ATRAVESSAM TRÊS GERAÇÕES DE MULHERES
DOCE ÁRIDO” REESTREIA NO RIO E REVELA VIOLÊNCIAS SILENCIOSAS QUE ATRAVESSAM TRÊS GERAÇÕES DE MULHERES
Criado em Juiz de Fora, espetáculo com texto e direção de Tairone Vale retorna ao Rio de Janeiro de 3 a 26 de setembro
Depois da primeira temporada no Rio de Janeiro, “Doce Árido” reestreia no Teatro Ipanema Rubens Corrêa no dia 3 de setembro, onde fica em cartaz até o dia 26. Criado em Juiz de Fora (MG), o espetáculo tem texto e direção de Tairone Vale e reúne as atrizes mineiras Pri Helena, Rebeca Figueiredo e Layla Paganini como três gerações de mulheres de uma mesma família que sustentam a casa com a produção artesanal de doce de leite em uma pequena roça no interior de Minas Gerais. Desde a estreia, em 2025, mais de 3 mil pessoas já assistiram à montagem, que também integrou a Mostra Insubmissa do Festival de Teatro de Curitiba.
O que você seria capaz de fazer diante da chance de transformar a própria vida? É a partir dessa pergunta que se desenvolve “Doce Árido”. Quando um inesperado pedido vindo do exterior surge como a possibilidade de mudar suas vidas, a família mergulha em uma intensa rotina de trabalho para entregar a encomenda dentro do prazo. Mas o maior obstáculo para essas mulheres não é o tempo, e sim os segredos do passado.
Entre as consequências de um parto complicado e a escassez que ronda a casa, mãe, filha e avó se equilibram entre o peso da tradição e o desejo de liberdade. Pressionada pelo prazo curto, Maria Antônia (Pri Helena) exige dedicação total à produção da encomenda. A jovem Maria Lúcia (Rebeca Figueiredo) se divide entre o tacho de doce e os cuidados com sua frágil recém-nascida, Maria Clara. Observando tudo pelas frestas, a matriarca Maria Quitéria (Layla Paganini) sabe que a fragilidade dessas relações pode colocar tudo a perder.
Por trás do drama familiar, a peça revela diferentes formas de violência que atravessam a vida dessas mulheres e se perpetuam entre gerações. A violência física aparece de maneira velada, enquanto outras formas de opressão estão incorporadas à própria estrutura familiar e às condições sociais em que vivem. O isolamento do meio rural, a falta de recursos, a sobrecarga de trabalho e a naturalização de responsabilidades atribuídas às mulheres compõem esse universo. “Mesmo uma família que consiste apenas por mulheres, o patriarcado está lá presente. Ele está lá presente sendo violento e oprimindo, mesmo numa casa que só tem mulheres”, afirma Tairone.
As diferenças entre as três gerações ajudam a revelar como essas estruturas se transformam, mas permanecem presentes. Maria Quitéria pertence a uma geração que cresceu sem vislumbrar um horizonte fora daquele ambiente. Maria Antônia já reconhece a possibilidade de outra vida, mas permanece presa às condições sociais que a cercam. Maria Lúcia, por sua vez, representa uma geração que consegue olhar para fora e reconhecer o desejo de romper com aquele ciclo. “Ela já se reconhece ali. Enxerga esse horizonte e está disposta a buscá-lo”, explica o dramaturgo.
Criada em 2013, a peça parte de memórias da infância de Tairone e dos afetos construídos pelas matriarcas de sua família. O autor lembra especialmente mulheres que assumiram praticamente sozinhas a criação dos filhos, o sustento e a organização da casa. Para ele, essa responsabilidade frequentemente tratada como uma demonstração de “força feminina” esconde uma estrutura de sobrecarga e renúncia. “É um senso de responsabilidade de que, se ela não fizer, ninguém faz”, afirma. “São funções que deveriam ser divididas, mas acabam assumidas e colocadas como se fossem uma responsabilidade exclusiva da mulher.”
A saúde mental e a maternidade também estão na origem da dramaturgia. Tairone conta que cresceu cercado por histórias familiares em que depressão e ansiedade eram pouco compreendidas e frequentemente estigmatizadas. A partir daí, imaginou como uma situação aguda poderia afetar uma família que vive isolada, sem recursos e cuja sobrevivência depende da continuidade do trabalho. “Um dos motivadores para esse trabalho foi pensar no que aconteceria se uma mulher tivesse depressão pós-parto em um cenário isolado, rural, sem estrutura e recursos”, diz.
Mais de uma década depois da criação do texto, as questões abordadas pela peça permanecem atuais. Segundo o Censo 2022 do IBGE, 49,1% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres, que dedicam quase dez horas semanais a mais que os homens ao trabalho doméstico e de cuidado. Cerca de três em cada dez brasileiras já sofreram violência doméstica, com altos índices de estupro e feminicídio, realidade ainda mais grave entre mulheres rurais, que enfrentam menor acesso a serviços de saúde e proteção, mobilidade restrita e isolamento.
A opressão vivida pelas personagens também ganha forma no espaço cênico. Apoiado numa plataforma móvel, o cenário espelha a instabilidade das relações familiares e, à medida que a trama avança, tomba com o deslocamento das atrizes. Fios vermelhos, fardos e portas transformam continuamente o ambiente. Concebido pela diretora de arte e cenógrafa Cris Bourgeaiseau como um “agente de opressão”, o espaço perde progressivamente a estabilidade e o conforto, materializando aspectos da condição das personagens.
A trilha sonora original, da cantora e compositora Laura Jannuzzi, reforça essa atmosfera. A viola caipira, que poderia remeter apenas ao regionalismo mineiro, ganha contornos opressores ao acentuar a aridez do ambiente, enquanto a flauta destaca a solidão que mães e filhas, mesmo juntas, não conseguem evitar.
Em sua primeira temporada carioca, o espetáculo recebeu elogios da crítica. Paty Lopes classificou “Doce Árido” como um dos melhores espetáculos que viu em 2026 e comparou a dramaturgia de Tairone Vale aos grandes épicos da literatura brasileira, destacando a construção das relações familiares, dos segredos e da tensão entre as personagens. Já o crítico Gilberto Bartholo ressaltou a capacidade do texto de criar questionamentos e sustentar o clima de mistério ao longo dos 90 minutos de espetáculo. Também elogiou a direção de Tairone, as soluções simbólicas da encenação e o trabalho de Pri Helena, Rebeca Figueiredo e Layla Paganini, que, segundo ele, defendem suas personagens com “total verdade cênica e perfeição”.
FICHA TÉCNICA
Texto: Tairone Vale
Colaboração dramatúrgica: Layla Paganini, Léo Cunha, Pri Helena e Rebeca Figueiredo
Direção: Tairone Vale
Codireção: Léo Cunha
Elenco: Pri Helena, Rebeca Figueiredo e Layla Paganini
Stand in: Livia Gomes
Direção de arte: Cris Bourgeaiseau
Cenário: Cris Bourgeaiseau
Núcleo de cenografia: Cris Bourgeaiseau, Rebeca Figueiredo, Tairone Vale, Marcella Calixto, Amanda Corrêa e Vitória Vargas
Iluminação: Nitay Krishna
Figurino: Cris Bourgeaiseau
Trilha sonora original: Laura Jannuzzi
Preparação corporal: Letícia Nabuco
Programação visual: Marcella Calixto e Vitória Vargas
Fotografia: Marcella Calixto
Assessoria de imprensa: Fernanda Lacombe
Mídias sociais: Rebeca Figueiredo
Direção de produção: Cris Bourgeaiseau
Produção Local RJ: Bárbara Montes Claros, Renata Valois e Thaís Pinheiro
SERVIÇO
Espetáculo: “Doce Árido”
Temporada: 3 a 26 de setembro de 2026
Local: Teatro Ipanema Rubens Corrêa, Rua Prudente de Morais, 824, Ipanema
Dias e horários: quinta a sábado, às 20h; domingo, às 19h
Ingressos: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia)
Vendas online: Sympla
Duração: 90 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Gênero: Drama
Instagram: @docearido
BIOGRAFIAS
PRI HELENA – “Doce Árido” marca o retorno de Pri Helena aos palcos depois de dar vida à Zezé, de “Ainda Estou Aqui”, e de Cacá, da novela “Volta por Cima”, da Rede Globo. Atriz, roteirista, diretora e produtora, Pri Helena compõe também o elenco da série “Os Outros” (2ª temporada) na Globoplay. Atuou nos longas “Turvo”, de Murillo Sued, e “Cabrito”, de Luciano de Azevedo; no média-metragem “Cyclone”; e nos curtas “Moscas Mortas, Trancinhas e Ondas”. Pri Helena encabeça o “Grilla!”, coletivo de mulheres que explora, em suas criações, o diálogo entre teatro e audiovisual. No teatro, destacam-se os espetáculos “O Rinoceronte”, indicado ao Prêmio Shell 2019, “Os Impostores”, “Nerium Park” e “Antes da Chuva”, sob direção de Rodrigo Portella. Atualmente, está no ar na novela “Quem Ama Cuida”, como Lyris, na Rede Globo.
REBECA FIGUEIREDO – Atriz formada pela Escola de Teatro PUC Minas e graduada em Comunicação Social pela UFMG. Rebeca estudou Arte Dramática na Escola de Teatro Martins Penna, no Rio de Janeiro, e também atua nas áreas de produção e direção de arte. É uma das idealizadoras do “Grilla!”, coletivo artístico encabeçado por mulheres cujo foco principal é experimentar o diálogo entre teatro e audiovisual a partir de perspectivas femininas. Seus trabalhos mais recentes são os curtas “Cadê Minha Filha, Bob?” e “Pão com Ovo”, do Grilla!, e “Meio Éden”, de Clara Estolano, exibido na 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
LAYLA PAGANINI – Formada pela Escola Técnica de Teatro Martins Penna e bacharel em Teatro pela Faculdade CAL, onde também concluiu pós-graduação em Direção Teatral. Com passagem pelo Tablado, atuou em musicais infantis como “Bituca”, “Tropicalinha”, “Raulzito Beleza” e “Pimentinha”, além da peça “Open Bar” e da novela “Verão 90”.
TAIRONE VALE (Autor e Diretor) – Ator, produtor, diretor, roteirista e dramaturgo. Com Rodrigo Portella, coescreveu e atuou em “Uma História Oficial” e integrou montagens como “Alice Mandou um Beijo”, “Quase Nada é Verdade”, “4x Nelson” e “Os Impostores”. Também atuou em “Insetos”, da Cia dos Atores, com texto de Jô Bilac. Atualmente, circula com seu primeiro solo autoral, “Versão Demo”, dirigido por Suzana Nascimento. Na TV, participou de “Justiça”, “O Outro Lado do Paraíso”, “Segundo Sol” e “Terra e Paixão”. Escreveu os curtas “Sinopse” e “Aqueles Cinco Segundos”, vencedor de dois Kikitos em Gramado, além do espetáculo “Big Bang” e do infantil “Como Cozinhar uma Criança”. Em 2025, levou aos palcos “Doce Árido”, texto autoral gestado em 2013.
Fernanda Lacombe
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