[Entrevista] Entrevista com Plácido Berci: envelhecer, lembrar e resistir em um país que naturaliza a violência
Em “Louca normalidade”, o jornalista transforma luto e memória em romance que articula drama familiar e crítica à corrupção, à especulação imobiliária e à indiferença social no Brasil contemporâneo.
Por Marcela Güther*
Jornalista de 36 anos formado pela PUC-Campinas, Plácido Berci é repórter e apresentador da editoria de esporte da TV Globo desde 2015. Natural de Araraquara e criado em São Carlos, construiu uma trajetória marcada pela diversidade de experiências: já viveu em Campinas, Rio de Janeiro, Manchester (Inglaterra) e Nairóbi (Quênia), onde foi o primeiro correspondente esportivo brasileiro no país africano. Autor dos livros de não ficção "Paixão: uma viagem pelo futebol inglês" e "Nuvem de terra: relatos do primeiro correspondente esportivo brasileiro no Quênia", Plácido agora estreia na ficção com "Louca normalidade", romance publicado pela editora Mondru que nasce de uma inspiração profundamente pessoal: a figura de seu pai, Pedro Berci Filho.
A obra narra a história de Francisco Solano, um jornalista aposentado que, após um AVC, passa a registrar tudo em blocos de notas para preservar a memória. A trama ganha contornos de suspense quando ele acorda com uma anotação enigmática sobre um possível crime, sem saber se testemunhou algo real ou se foi fruto de sua mente fragilizada.A narrativa alterna entre a terceira pessoa e as anotações íntimas de Francisco, aproximando o leitor do confuso universo mental do personagem. O livro aborda ainda dinâmicas familiares complexas, especialmente a relação entre avô, filho e neto, e temas como luto, solidão, amor e saudade.
Ao longo da entrevista, Plácido reflete sobre o oxímoro que dá título ao romance e questiona a normalização da corrupção e da violência no Brasil, discute envelhecimento, dignidade e invisibilidade social, analisa o papel da memória e do jornalismo diante da impotência, comenta a influência da morte do pai em seu processo criativo e aprofunda a dimensão filosófica da obra, que entrelaça drama familiar, crítica política e contemplação existencial para afirmar, ao final, a vida como gesto de aceitação e libertação.
O título do seu romance é um oxímoro fascinante. Na sua visão, o que é mais "louco": a mente fragmentada de Francisco Solano ou a "normalidade" de um mundo que permite a corrupção, a especulação imobiliária que destrói a natureza e a indiferença ao sofrimento alheio, como vemos na trama envolvendo a ativista Daniela?
Certamente a normalidade é mais louca. Infelizmente normalizamos condutas corruptas, crimes hediondos e o preconceito, enquanto rotulamos como loucos indivíduos que tenham um comportamento diferente do tido como convencional, mesmo que essas pessoas “diferentes” sejam íntegras, amorosas e empáticas. É um paradoxo social que me intriga desde que sou jovem e me faz pensar sobre essas noções dicotômicas sobre o bem e o mal, o certo e o errado, o normal e o louco.
Francisco é um homem que lê os estoicos, cita Nietzsche e elabora seus próprios epitáfios. Ele oscila entre o niilismo e uma busca por sentido. Como a trajetória de Francisco dialoga com a questão filosófica de "como envelhecer" e "como morrer" com dignidade em uma sociedade que muitas vezes torna o idoso invisível?
A passagem do tempo nos transforma a cada segundo. Não sou a mesma pessoa que começou a responder essa entrevista, por exemplo. Creio que aceitar que a mudança faz parte do “estar vivo” é o caminho mais saudável para um envelhecimento sereno e esse processo de aceitação é algo muito individual, já que não temos como controlar a ideia coletiva sobre nós. Ao longo do livro, Francisco vive uma jornada intimista de reflexão sobre a própria história e, ao final, consegue compreender seu valor diante do todo, libertando-se da cobrança externa e expectativa alheia, como fica claro neste trecho da obra: “ama aos seus e a si num grau próximo à plenitude, ao passo que é tomado por um entendimento da impermanência dos seres e de sua própria insignificância diante da história da Terra e da infinitude do universo.”
Em uma tradição literária francesa que vai de Proust a Modiano, a memória é um território de reconstrução do passado. Para Francisco, anotar tudo é uma forma de não desaparecer. No entanto, ele joga os blocos fora no final. Essa ação simboliza uma libertação da tirania da memória? A verdade de uma vida está no que lembramos ou no que escolhemos esquecer?
A memória humana é imprecisa para todos e isso é uma verdade indiscutível. Não há quem se lembre de tudo o que viveu. Ao pensar a respeito disso, entendemos que a busca pela memória à prova de falhas pode ser angustiante e aprisionadora, de certa maneira. Gosto da ideia de usar a escrita para consolidarmos lembranças, organizarmos pensamentos e revivermos sensações, mas o gesto de Francisco em se desfazer do bloco de notas é um símbolo libertador de que a vida acontece e é valorosa mesmo que seja esquecida.
Francisco é um jornalista que dedicou a vida à busca da verdade, mas, no fim, a grande reportagem que ele escreve sobre o crime que testemunhou é rasgada e jogada no lixo. Há uma crise de fé no poder do jornalismo como ferramenta de transformação social? Ou a mensagem é que algumas verdades são tão íntimas que só interessam à nossa própria família?
A decisão de Francisco de não tornar pública a denúncia sobre o crime que testemunhou diz respeito ao sentimento de impotência pelo qual o protagonista é inundado. Ele entende que as convenções sociais não o veriam com a credibilidade necessária para escrever uma reportagem investigativa, afinal, Francisco é idoso, aposentado e possui sequelas de um AVC. Ali, o personagem questiona sua própria missão coletiva, num momento pessimista sobre sua capacidade de colaborar com a transformação positiva do mundo. O plano de compartilhar o que descobriu apenas com os familiares é uma mensagem de que certos assuntos talvez só ganhem a devida atenção de quem nos ama verdadeiramente.
A trama policial do livro expõe uma chaga brasileira: a ligação entre políticos, milícias e a especulação imobiliária que leva ao assassinato de uma ativista. Ao entrelaçar esse crime com a história íntima de Francisco, você sugere que, no Brasil, a violência política não é um evento isolado, mas um ruído de fundo constante, uma "loucura" ambiental que acaba por moldar a psique de todos os cidadãos?
É exatamente isso. Louca Normalidade sugere que a "loucura social” faz parte da alma brasileira. A história do nosso país é marcada por abusos, distinções sociais e crimes desde o início da colonização portuguesa e a normalização da injustiça acabou se perpetuando ao longo dos séculos a ponto de tornar-se uma marca do nosso povo. Podemos não concordar com certos temas, mas rotineiramente passamos pano para ações controversas por entendermos que “é assim que funciona”, “não vai mudar”, “sempre foi assim". Assim como Francisco Solano é um indivíduo atormentado pelo medo de estar louco, o Brasil é um país conflituoso por ter pavimentado ideias loucas de normalidade.
A morte é uma presença constante no livro: a dos pais de Francisco, a de Daniela, a iminência da própria morte do protagonista. Em vez de um tabu, ela é tratada quase como uma companheira de reflexão. Você acredita que a literatura ocidental contemporânea perdeu a capacidade de dialogar com a morte de forma serena? Seu livro tenta resgatar essa conversa?
A morte marcou profundamente meu processo de escrita, afinal o protagonista é inspirado no meu pai e ele faleceu enquanto eu escrevia o livro. Foi um processo de muita reflexão pessoal e busquei diversas leituras que abordassem o luto. Creio que isso trouxe uma camada filosófica essencial ao Louca Normalidade. Vejo que há um movimento literário crescente de normalizar o diálogo sobre a morte, talvez influenciado pelo aumento recente da busca por terapia após a pandemia. A crise global da Covid-19, que assolou o mundo em 2020, nos aproximou da morte e jogou luz sobre a importância do cuidado com a saúde mental, ajudando a desmistificar o trabalho psicoterápico. Claro que ainda existe um recorte de classes nessa discussão e a “normalização” da terapia e do interesse reflexivo a respeito de temas profundos ainda está restrito à pessoas com boas condições financeiras, mas vejo com otimismo esse avanço.
A Praia da Reserva é um paraíso natural que serve tanto como local de introspecção para Francisco quanto como palco de um crime ambiental e político. O que a natureza representa em um país fraturado como o Brasil? Um último refúgio para a sanidade ou a vítima mais eloquente da nossa "loucura" social?
Ambos. A natureza brasileira é o maior patrimônio do nosso país e sofre profundamente com as ações oriundas da ambição dos homens. Intencionalmente, fiz desse paraíso tropical o cenário-chave para um dos grandes conflitos da trama: a paz natural versus o caos humano. Quem ganha? Eu ainda tento ser otimista, mas o caminho de conscientização para o cuidado com o meio-ambiente ainda me parece bastante tortuoso e longo.
Eduardo, o filho, repete o ciclo de vergonha em relação ao pai, e vemos o perigo de Santiago repeti-lo. O livro é uma reflexão sobre como os traumas e os afetos são herdados? Até que ponto estamos condenados a repetir as dinâmicas de nossos pais?
O principal conflito do livro é o drama familiar, já que a grande inspiração para a escrita foi a minha experiência pessoal ligada ao meu pai, que era um homem genial e com um comportamento fora dos padrões. Ver como ele sofreu por ser diferente me marcou muito. E enxerguei como fundamental para uma tentativa de evolução pessoal, admitir que isso também trouxe impactos para mim, para minha mãe e para pessoas próximas. Convivemos com sentimentos conflituosos como amor e culpa, admiração e vergonha… Creio que quase todo tipo de comportamento pode ser alterado. Que padrões podem ser rompidos e que é possível melhorar e não repetir erros, desde que nos coloquemos numa posição de vulnerabilidade e admitamos que não somos perfeitos.
O romance termina com a palavra "Vivi". Depois de 258 páginas de dúvidas, paranoias, dores e buscas, o que significa esse verbo no passado? É um testamento de resistência, uma constatação de plenitude ou a aceitação serena de que a vida, por mais caótica que seja, simplesmente foi?
A mensagem final é exatamente um combo dessas três possíveis interpretações, mas se eu tivesse que apontar uma, seria a aceitação serena de que a vida, por mais caótica que seja, passa para todos e vale a pena ser vivida. Preciso aqui confessar que o fim do livro é uma segunda chance ao meu pai. Como se eu o libertasse do sofrimento por ter sido diferente e lhe desse um caminho plácido para seguir adiante, seja onde e como for. Louca Normalidade é, ao final, uma obra sobre amor, saudade e libertação. Para ele, para mim e, espero, que para o leitor também.
*Marcela Güther é jornalista, gestora de comunicação e especialista em relacionamento com a mídia e influência na editora orlando e na com.tato, empresa especializada em comunicação para editoras e autores independentes. Com mais de 10 anos de experiência no setor de comunicação, atua também como mediadora de clubes e mesas literárias, combinando paixão por leitura com expertise em comunicação e curadoria de conteúdo literário.
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