[Teatro] Comédia “Édipo de novo?” reestreia com piadas atualizadas no calor do ano eleitoral

 

Elenco Édipo de Novo. Fotos Pedro Nicoll


Como renovar o interesse por uma história escrita há cerca de 2.500 anos? A resposta do grupo de atores que vem lotando teatros no Rio é clara: transformar uma das maiores tragédias gregas em uma comédia atualizada semanalmente com os memes e absurdos do noticiário brasileiro. Sem trair a essência da saga criada por Sófocles, Édipo de novo? nunca é exatamente o mesmo espetáculo.  E desta vez, a nova temporada que reestreia dia 31 de julho na Casa de Cultura Laura Alvim, acontece com o tempero extra da campanha eleitoral.  

“Estamos afoitos para iniciarmos a temporada porque o Brasil não para de nos dar material. Eleição é um prato cheio. Antes mesmo de sabermos desta nova temporada, já estávamos trocando mensagens como ‘essa notícia naquele momento da peça seria ouro’. Agora vamos ter a chance de colocar tudo que pensamos em cena. Não podíamos estar mais animados”, revelam.

Dirigida por Thiago Bomilcar Braga, a montagem explora a percepção de que a política brasileira e a tragédia grega têm muito mais em comum do que parece. Reviravoltas, improváveis e acontecimentos absurdos que parecem ficção criam o terreno ideal para transportar o mito de Édipo para o Brasil de hoje. Assim, em meio ao clássico, surgem referências ao cotidiano nacional. Édipo promete não taxar as "blusinhas importadas de Atenas", enquanto a Esfinge pode surgir defendendo a privatização das praias ou sonhando em anexar a Groenlândia.

“É um novelão, cheio de reviravoltas, com elementos místicos, monstros, vilões e mocinhos. Até o próprio herói que seguimos, Édipo, está longe de ser bonzinho, já que carrega em si uma enorme soberba. E temos que convir que as notícias políticas do Brasil são tão trágicas ou tão cheias de reviravoltas quanto à trama grega”, comenta.

Relembre o clássico

Na saga criada por Sófocles, antes mesmo de nascer, Édipo já carregava uma profecia terrível: mataria o próprio pai e se casaria com a mãe. Na tentativa de escapar do destino, sua família toma uma série de decisões questionáveis, que acabam por empurrá-lo exatamente para aquilo que queriam evitar. Criado como príncipe de Corinto longe da cidade em que nasceu, Édipo toma conhecimento de tal profecia e, sem saber de toda a verdade, decide fugir de quem acredita serem seus pais, para protegê-los. No caminho ele mata um estranho, sem imaginar que era o seu pai biológico. Depois, salva Tebas de uma Esfinge e se casa com a rainha Jocasta, sua mãe biológica, também sem saber. Anos mais tarde, ao investigar uma praga que assola a cidade, Édipo descobre que o culpado que procura é ele mesmo.

Segundo o diretor, “o exagero da tragédia já tem um ar cômico. A tragédia e a comédia são interligadas. Chico Anysio dizia que ‘a tragédia de ontem é o humor de hoje’ e Marisa Orth afirma que ‘a piada boa começa quando você descobre o furo na canoa, quando a maçaneta sai na sua mão’. Os acontecimentos no mito de Édipo são tão absurdos que não tem como ignorar o humor por trás daquela desgraceira toda”.

O público pede bis

Além das sessões cheias e das três indicações ao Prêmio do Humor (Melhor espetáculo, texto e direção), Édipo de novo? consolidou uma relação de cumplicidade com o público, que já cobra novos clássicos sob a mesma ótica irreverente. A recepção tem sido tão entusiasmada que, durante uma das apresentações, um espectador chegou a gritar da plateia sugerindo que o grupo recriasse a tragédia de Antígona no mesmo formato. “Achamos a maior graça. Realmente já tivemos outras cobranças neste estilo, para explorarmos mais peças clássicas neste viés cômico. Antígona, por ter ligação direta com Édipo, foi a mais pedida”, comenta Thiago.

Embora ainda não haja planos concretos para uma sequência, os artistas afirmam que pretendem seguir pesquisando o potencial cômico de outros grandes clássicos da dramaturgia. “Temos pensado em dar continuidade a este formato, mas não é um plano para agora. Talvez Medeia, que também é uma história extremamente trágica e que pode ficar mais palatável se cavarmos humor ali. Ou até algum outro drama clássico. Quem sabe um “Romeu e Julieta de novo?”. Estamos atentos a novas ideias e conversando sobre novos projetos”, revela.

A formação de Mais uma Cia

Em cena estão Aline Cruz, Fabio Làura, Felipe Pêpe e Laurent Janod, quatro atores que se conheceram há uma década no curso de atuação ministrado por Thiago Bomilcar Braga na Barra da Tijuca. Juntos integraram o elenco de algumas peças, fizeram saraus, leituras dramatizadas e colocaram peças em cartaz, mas nunca só os quatro. Graças ao espetáculo, esta é a primeira vez do quarteto nesta formação.

O projeto nasceu de forma despretensiosa e foi viabilizado com financiamento coletivo, vaquinhas e recursos próprios. Sem patrocínio e também por escolha de linguagem, o elenco se desdobra para criar personagens, cenários e efeitos sonoros, usando apenas a própria fisicalidade diante da plateia. Essa sintonia tão fina e orgânica já faz o grupo flertar com a criação definitiva de uma companhia própria:

“Continuar criando juntos é uma vontade que temos, mas ainda não decidimos oficializar um grupo. Talvez porque já somos, já que trabalhamos juntos há tantos anos. Consolidar isso com um nome e um compromisso, pode estar mais perto do que imaginamos. O nosso sarau se chamou Mais um sarau, para dialogar com Édipo de novo? Quem sabe o grupo se chamaria Mais uma Cia?”, comenta Fábio Làura.

Além da próxima temporada na Casa de Cultura Laura Alvim, o espetáculo já se prepara para ultrapassar fronteiras cariocas, com quatro apresentações confirmadas na Arena B3, em São Paulo.

 

SERVIÇO

Édipo de novo?

Temporada: de 31 de julho a 30 de agosto

Local: Espaço Rogério Cardoso – Casa de Cultura Laura Alvim

Endereço: Av. Vieira Souto, 176 – Ipanema, Rio de Janeiro

Dias e horários: sextas e sábados às 19h; domingos às 18h

Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada)

Classificação: 16 anos

Duração: 70 minutos

FICHA TÉCNICA

Inspirado na obra “Édipo Rei”, de Sófocles

Texto e direção: Thiago Bomilcar Braga

Assistente de direção: Fabio Làura

Elenco: Aline Cruz, Fabio Làura, Felipe Pêpe e Laurent Janod

Cenário: Aline Villa

Figurino: Fabio Làura

Iluminação: Alexandre Farias

Trilha sonora: Thiago Bomilcar Braga

Arte: Gabriel Trompowsky

Assessoria de imprensa: Mar Comunicação

Produção: Amanda Loretti e Débora Osório

Idealização: Thiago Bomilcar Braga






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