[News] MULAMBÖ TRANSFORMA SÃO GONÇALO EM TERRITÓRIO DE AFIRMAÇÃO ARTÍSTICA
MULAMBÖ TRANSFORMA SÃO GONÇALO EM TERRITÓRIO DE AFIRMAÇÃO ARTÍSTICA
“De volta ao lugar” reúne uma década de intervenções sobre imagens históricas e contemporâneas, em mostra no Sesc São Gonçalo, onde o artista se apresenta pela primeira vez.
Depois de expor no Rio e em Saquarema, sua cidade natal, com pinturas que retratavam o cotidiano local em “O Canto da Vila”, Mulambö retorna agora a outro território decisivo em sua trajetória. Em cartaz de 13 de março a 14 de junho de 2026, no Sesc São Gonçalo, a exposição “De volta ao lugar”, também com curadoria de Isabel Portella, marca a primeira vez que o artista apresenta seu trabalho na cidade onde viveu e onde surgiu a série que o projetou nacionalmente.
Realizada pelo Sesc/ARRJ com coprodução da Fava Comunicação & Arte e belOlhar, através do Edital de Cultura Sesc RJ Pulsar, mais do que um retorno geográfico, a mostra apresenta um movimento de revisão de território. Reunindo 10 obras da série de intervenções fotográficas iniciada em 2016, duas esculturas, uma bandeira.. “A ideia desses trabalhos é modificar o ponto de vista das representações. Tomar posse dessa narrativa novamente”, afirma o artista.
A série nasceu em São Gonçalo, quando Mulambö não tinha espaço físico e estrutura para pintar. Morando na cidade, mas sem se sentir pertencente a ela, encontrou na fotografia um meio de continuar produzindo. “Eu estava lá querendo estar em Saquarema. Era muito essa ideia do entre, de não estar na minha cidade, nem me sentir pertencente a São Gonçalo de verdade. Essa série foi a forma que encontrei de me relacionar com esse movimento de não estar em casa.”
Esse contexto marca uma diferença importante em relação à exposição “O Canto da Vila”. Em Saquarema, território de pertencimento, a pintura nasce da vivência cotidiana e afetiva. Em São Gonçalo, onde não conseguia pintar, a intervenção fotográfica tornou-se estratégia de sobrevivência artística e comentário visual sobre a realidade do Rio de Janeiro.
As obras partem de fotografias em preto e branco, muitas delas retiradas de jornais, revistas e arquivos históricos, incluindo imagens da ditadura, registros de jogadores de futebol, iconografias religiosas e cenas de operações policiais que, depois de impressas, sofrem intervenções com tinta vermelha. Embora muitas intervenções tenham origem digital, Mulambö reaplica manualmente tinta sobre as impressões, criando textura e materialidade. “A ideia do vermelho sobre o preto e branco é esse sentimento de praticamente um soco na cara visual. É chamar atenção.”
Para a curadoria, a força do trabalho está na dimensão política da experimentação. “É na resistência que os artistas traçam as possibilidades de um circuito ativo, dinâmico e lúdico. A arte não renuncia às experimentações, porque este é o caminho para resistir e transgredir.”, explica Isabel Portella.
No núcleo dedicado ao sagrado e ao cotidiano, estão obras como “São Jorge”, que mistura iconografia religiosa e vida urbana, além de “Faço o fogo e carrego a fogueira” e “Na guerra cupido vira caçador”, que tensionam símbolos e realidades. No núcleo dedicado ao cotidiano suburbano e à resistência periférica, o artista apresenta a obra inédita “Depredação do patrimônio público”, onde o começa a trabalhar para além das figuras históricas, ressignificando também monumentos e estruturas dessa herança da violência colonial. Tem ainda as obras, “Heróis” e “Nobre (Resistência)”, que dialogam com carnaval, periferia e representação do corpo negro.
Em outro trabalho inédito, Mulambo traz a imagem de Pelé na qual estabelece uma rima visual que questiona permanências e distorções na representação do corpo negro na história brasileira. “A ideia desses trabalhos é modificar o ponto de vista das representações. Não esconde o que acontece, mas você dá o protagonismo para quem está vivendo de fato.”
Em suma, ao retornar com essa série à cidade onde ela surgiu, o artista realiza um gesto simbólico. O território que antes representava deslocamento torna-se espaço de afirmação artística.
SOBRE O ARTISTA: Nasceu João (1995) e cresceu Mulambö, na Praia da Vila em Saquarema, Rio de Janeiro. Em seu trabalho, utiliza de símbolos e materiais cotidianos em busca de uma refundação das narrativas que cercam as manifestações do povo. O futebol, o carnaval, a praia, a família e as histórias que construíram o chão onde a gente vive aparecem em sua produção através de pinturas, objetos, bandeiras e instalações que reforçam a ideia de que Mulambö faz arte para afirmar que não tem museu no mundo como a casa da nossa vó.
Participa de exposições relevantes como Quilombo: vida problema e aspirações do negro (2022) e Direito a Forma (2023) em Inhotim; Dos Brasis (2023) no Sesc Belenzinho; Histórias Brasileiras (2022) no MASP; Um defeito de cor (2022) e Casa Carioca (2020) no Museu de Arte do Rio; Enciclopédia Negra (2021) na Pinacoteca do Estado de São Paulo; Brasil Futuro (2023) no Museu Nacional da República; SWEAT (2021) na Haus der Kunst em Munique, Alemanha. Além de realizar exposições individuais como a Tudo Nosso (2019) no Museu de Arte do Rio; Prato de Pedreiro (2019) no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica; O penhor dessa Igualdade (2022) no CCSP; Out of Many, Muchos Más (2021) na Das Schaufenster em Seattle nos Estados Unidos e Punta de Lanza (2023) na Homesession em Barcelona na Espanha. Suas obras fazem parte de acervos como da Pinacoteca do Estado de São Paulo, Museu de Arte do Rio, MAC Niterói e Inhotim. Sua mais recente exposição foi “O Canto da Vila” (2025), apresentada em seu ateliê, em Saquarema, e no Rio de Janeiro, no Museu da República.
SERVIÇO
Exposição De volta ao lugar. Artista Mulambo.
Sesc São Gonçalo (Av. Pres. Kennedy, 755 - Estrela do Norte, São Gonçalo – RJ)
Data: 13 de março - 14 de junho 2026
Abertura: 13 de março, às 17h
Visitação:
De terça a domingo, inclusive feriados: 9h às 17h30.
Entrada Gratuita

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